Maria bem sabia o que tinha para oferecer a seu filho naquela noite. Sabia os armários vazios e escuros, tal como os bolsos, e nada mais lhe sobrava que um pouco de cereais e leite e um pedaço de pão de ontem.
Pedro não lhe adivinhou os pensamentos tristes, mas perguntou-lhe de forma viva "Mãe, posso comer cereais como ontem?".
Maria limpou dissimuladamente a lágrima, fantasiou um meio sorriso e quase gritou "Claro que sim".
- Tu não comes, mãe?
- Não tenho fome.
- Sabes, fiz um amigo novo na escola hoje.
- Que bom.
- Nunca o tinha visto por lá. Perguntei se era novo ali. Disse-me que já não se lembrava de ser novo. Foi estranho.
- Realmente... E falaram de mais quê?
- Do Natal, claro. Falta uma semana e já ando nervoso só de pensar.
Maria remexeu-se nervosamente na cadeira.
- Ele disse-me que o Natal traz sempre coisas boas aos que merecem e aos que esperam coisas grandiosas.
- Pedro, que idade tem esse...?
- Gabriel!
- Que idade tem esse Gabriel? Essa é uma conversa muito adulta.
- Não sei. Dez anos, como eu.
- Que mais te disse?
- Que traz sempre boas notícias. Que a abundância é inata a quem tem esperança.
Maria levantou-se. O seu estômago reclamava também uma dose (ainda que menor) de sustento.
- Palavras bonitas e vazias.
Abriu o armário e abafou um grito de surpresa. O interior reluzia ofuscante pleno de latas e embalagens de comida.
- Mãe, o Gabriel disse-me que hojes ias perceber o que ele disse. Eu é que não percebi nada.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Apanhar os cacos (Alberto)
- Beto. Beto.
Alberto fulminou a mãe com o olhar e terminou a frase à companheira de conversa. A mãe insistiu e Alberto não teve outro remédio senão chegar-se a ela.
- Mãe, eu já lhe pedi que na frente dos meus colegas de faculdade não me trate por Beto. Todos me chamam Alberto.
- Deixa-te de palermices. Que disparate. Sempre te tratei por Beto, não vou deixar de chamar o meu filhinho de uma forma carinhosa só por que ele se envergonha. Anda cá, ajuda-me a levar estes aperitivos até à mesa.
- Mãe, pare de trazer comida. Acho que já nem sequer ninguém está a comer. Vai sobrar tudo.
Albertina sorriu.
- Eu é que sei. Obrigado pela ajuda. Agora vamos, apresenta-me à tua namorada.
- Qual namorada, mãe?
- Beto, deixa-te de dislates. Sei muito bem que aquela lourinha é tua namorada. É um pouco exuberante para o meu gosto, mas enfim, tu lá sabes. Mas quero conhecer quem namora o meu filho.
- Mãe, que disparate. A Susana é apenas uma amiga, uma boa amiga.
- Uma boa amiga? Pois, isso vi eu há pouco. Deixa, apresento-me eu.
Saiu como um raio. Alberto já só teve tempo de ir apanhar os cacos.
Alberto fulminou a mãe com o olhar e terminou a frase à companheira de conversa. A mãe insistiu e Alberto não teve outro remédio senão chegar-se a ela.
- Mãe, eu já lhe pedi que na frente dos meus colegas de faculdade não me trate por Beto. Todos me chamam Alberto.
- Deixa-te de palermices. Que disparate. Sempre te tratei por Beto, não vou deixar de chamar o meu filhinho de uma forma carinhosa só por que ele se envergonha. Anda cá, ajuda-me a levar estes aperitivos até à mesa.
- Mãe, pare de trazer comida. Acho que já nem sequer ninguém está a comer. Vai sobrar tudo.
Albertina sorriu.
- Eu é que sei. Obrigado pela ajuda. Agora vamos, apresenta-me à tua namorada.
- Qual namorada, mãe?
- Beto, deixa-te de dislates. Sei muito bem que aquela lourinha é tua namorada. É um pouco exuberante para o meu gosto, mas enfim, tu lá sabes. Mas quero conhecer quem namora o meu filho.
- Mãe, que disparate. A Susana é apenas uma amiga, uma boa amiga.
- Uma boa amiga? Pois, isso vi eu há pouco. Deixa, apresento-me eu.
Saiu como um raio. Alberto já só teve tempo de ir apanhar os cacos.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
A espera (Ernestina)
Ernestina experimentava roupas há horas. Uma fila impaciente formara-se na acatitada loja em pleno bulício dos saldos. Do outro provador entravam e saiam pessoas, grunhindo ansiosas pela espera e suspirando aliviadas pelo encontro com a sua vez.
Idalécio suportava todos aqueles olhares fulminantes com uma secura interior agastante. De cada vez que alguém bufava encolhia-se mais no seu já diminuto e esconso canto junto ao provador. O amarelo das paredes enervava-o ainda mais.
- E agora? - questionava a estridente Ernestina exibindo uma blusa amarelo canário que lhe realçava a feiura da cara e acentuava a desmesurada penca.
- Fica-te bem.
- Não olhaste.
- Desculpa?
- Olha bem para mim. Disseste que fica bem, mas não olhaste. Olha para mim.
- Pensando bem, não te assenta tão bem. Fica-te um pouco largo., dizia Idalécio enquanto levava novo encontrão de uma compradora fusiosa.
A cortina fecha-se e passado uns minutos dela sai Ernestina com uma rodilha de roupa que pousa displicentemente sobre o balcão.
- Não vou levar. O meu namorado não gosta.
Idalécio fica incrédulo e dirige-se para a porta arrastado por Ernestina. Estatela-se no chão. Nunca saberá qual das furiosas mulheres o rasteirou.
Idalécio suportava todos aqueles olhares fulminantes com uma secura interior agastante. De cada vez que alguém bufava encolhia-se mais no seu já diminuto e esconso canto junto ao provador. O amarelo das paredes enervava-o ainda mais.
- E agora? - questionava a estridente Ernestina exibindo uma blusa amarelo canário que lhe realçava a feiura da cara e acentuava a desmesurada penca.
- Fica-te bem.
- Não olhaste.
- Desculpa?
- Olha bem para mim. Disseste que fica bem, mas não olhaste. Olha para mim.
- Pensando bem, não te assenta tão bem. Fica-te um pouco largo., dizia Idalécio enquanto levava novo encontrão de uma compradora fusiosa.
A cortina fecha-se e passado uns minutos dela sai Ernestina com uma rodilha de roupa que pousa displicentemente sobre o balcão.
- Não vou levar. O meu namorado não gosta.
Idalécio fica incrédulo e dirige-se para a porta arrastado por Ernestina. Estatela-se no chão. Nunca saberá qual das furiosas mulheres o rasteirou.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
A surda (Filipa)
Filipa sobressaltou-se com o som de alguém a bater vigorosamente na porta. Levantou-se meio ensonada, colocou o aparelho auditivo, vestiu o robe roxo às flores apressada e desajeitadamente e dirigiu-se ao hall de entrada.
Nova saraivada na porta anunciava que quem vinha tinha pressa.
- Quem é?
- Polícia.
- Polícia? - disse para consigo.
Colocou a corrente na porta e entreabriu. O agente demorou um segundo a perceber-lhe o intento e puxou em seguida do distintivo, exibindo-o rudemente.
Filipa abriu então a porta.
- Façam favor?, disse receosa.
- Ocorreu um homicídio no prédio e gostávamos de saber...
- Um homicídio? Mas de quem?
O agente suspirou de impaciência.
- Da sua vizinha do 2.º esquerdo.
- Da Clotilde??, e rapidamente as lágrimas lhe começaram a cair.
O agente adoçou a postura e os modos.
- Necessitamos saber se ouviu alguma coisa estranha?
- A Clotilde era ainda tão nova. Não pode ser. Não pode ser.
- Olhe, D. ...?
- Filipa. Filipa Gameiro.
- Olhe, D. Filipa, compreendemos a sua surpresa com o sucedido, mas precisamos agora que se concentre. Precisamos saber se ouviu alguma coisa.
- Não. Não ouvi nada. Estava na cama, a dormir.
O agente suspirou de impaciência novamente.
- Foi um acto violento. Uma morte a tiro. Não é possível que não tenha ouvido nada.
Filipa choramingava ainda e assoou-se com estrondo, escondendo novamente o lenço muitas vezes usado na manga da camisa de dormir.
- Eu sou quase surda e tinha tirado o aparelho para dormir.
Ilustrou a cena tirando mesmo o aparelho e exibindo-o.
Isso explica porque tivemos de bater tantas vezes, pensou o agente.
Nova saraivada na porta anunciava que quem vinha tinha pressa.
- Quem é?
- Polícia.
- Polícia? - disse para consigo.
Colocou a corrente na porta e entreabriu. O agente demorou um segundo a perceber-lhe o intento e puxou em seguida do distintivo, exibindo-o rudemente.
Filipa abriu então a porta.
- Façam favor?, disse receosa.
- Ocorreu um homicídio no prédio e gostávamos de saber...
- Um homicídio? Mas de quem?
O agente suspirou de impaciência.
- Da sua vizinha do 2.º esquerdo.
- Da Clotilde??, e rapidamente as lágrimas lhe começaram a cair.
O agente adoçou a postura e os modos.
- Necessitamos saber se ouviu alguma coisa estranha?
- A Clotilde era ainda tão nova. Não pode ser. Não pode ser.
- Olhe, D. ...?
- Filipa. Filipa Gameiro.
- Olhe, D. Filipa, compreendemos a sua surpresa com o sucedido, mas precisamos agora que se concentre. Precisamos saber se ouviu alguma coisa.
- Não. Não ouvi nada. Estava na cama, a dormir.
O agente suspirou de impaciência novamente.
- Foi um acto violento. Uma morte a tiro. Não é possível que não tenha ouvido nada.
Filipa choramingava ainda e assoou-se com estrondo, escondendo novamente o lenço muitas vezes usado na manga da camisa de dormir.
- Eu sou quase surda e tinha tirado o aparelho para dormir.
Ilustrou a cena tirando mesmo o aparelho e exibindo-o.
Isso explica porque tivemos de bater tantas vezes, pensou o agente.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Os jacintos (Martinho)
Martinho empurrou o carrinho de mão ao longo do canteiro até ao monte de desperdício orgânico. Despejou-o e virou-se mecanicamente para o local de onde havia partido.
Os jacintos floriam neste final de Abril primaveril que indiciava um Maio já de calor crescente.
Parou por um momento, endireitando as costas queixosas. Levou a manga à testa e limpou o suor. Contemplou os jacintos e ficou orgulhoso de si mesmo. Não sabia qual deles arrebatava o seu coração, se os amarelos, se os rosa, se os azuis, se os brancos ou se os roxos.
- Olá Martinho.
Martinho fixou os lábios de Joana e reconheceu a saudação. Olá!, retribuiu abrindo e levantando a mão, enquanto formulava a palavra.
- Estão lindos os jacintos. Maravilhosos.
- Obgado., consegui pronunciar Martinho a custo.
Joana acariciou-lhe o ombro e sorriu. Beijou-o na face e largou um até logo.
Martinho ficou a vê-la partir. Tinha pena de ser surdo.
Mirou novamente os jacintos e agradeceu a Deus a diversidade e o amor.
Os jacintos floriam neste final de Abril primaveril que indiciava um Maio já de calor crescente.
Parou por um momento, endireitando as costas queixosas. Levou a manga à testa e limpou o suor. Contemplou os jacintos e ficou orgulhoso de si mesmo. Não sabia qual deles arrebatava o seu coração, se os amarelos, se os rosa, se os azuis, se os brancos ou se os roxos.
- Olá Martinho.
Martinho fixou os lábios de Joana e reconheceu a saudação. Olá!, retribuiu abrindo e levantando a mão, enquanto formulava a palavra.
- Estão lindos os jacintos. Maravilhosos.
- Obgado., consegui pronunciar Martinho a custo.
Joana acariciou-lhe o ombro e sorriu. Beijou-o na face e largou um até logo.
Martinho ficou a vê-la partir. Tinha pena de ser surdo.
Mirou novamente os jacintos e agradeceu a Deus a diversidade e o amor.
sábado, 23 de julho de 2011
O plano (Catarina)
Catarina carregava o fardo, enquanto primogénita, de se ter de entregar a Deus. Chamavam-lhe na vila a "maldição dos Resende". O primeiro filho ou filha do Conde de Resende, com linhagem e brasão desde 1548, teria de se dedicar à vida religiosa, consagrando-se a Cristo. Fora esta a condição imposta pela igreja à transferência de terras para João Espada de Resende, terceiro conde da vila cujo nome se confunde com o da família. O incumprimento, todos os membros da família o sabiam, implicava a reversão do couto à esfera patrimonial da igreja.
Catarina atingira os 16 anos e deveria ser consagrada em definitivo a Deus. Não estava, porém, pelos ajustes. Suportava com uma resiliência calada e seca os dez anos que levava de colégio de freiras, em regime semi-aberto em que saía uma vez por semana para ver os pais.
Pedira já por múltiplas vezes aos seus pais que a deixassem sair daquele colégio horrível em que a rotina de vida escolástica e cristã a sufocava para além do suportável. Seu pai repreendia-a gravemente, lembrando que a manutenção do estatuto e, pior, a subsistência da família dependia desse esforço que recaía sobre a primogenitura.
Catarina desistira da argumentação com a família, mantendo com os pais uma última conversa na qual lhes recordava que tudo aquilo era ridículo quando se estava quase no século XX. Desistira também de se deixar entregar às lágrimas.
Urdira um plano. Simples, fácil e directo. No dia da última saída pegou na mala e desapareceu no mundo.
Catarina atingira os 16 anos e deveria ser consagrada em definitivo a Deus. Não estava, porém, pelos ajustes. Suportava com uma resiliência calada e seca os dez anos que levava de colégio de freiras, em regime semi-aberto em que saía uma vez por semana para ver os pais.
Pedira já por múltiplas vezes aos seus pais que a deixassem sair daquele colégio horrível em que a rotina de vida escolástica e cristã a sufocava para além do suportável. Seu pai repreendia-a gravemente, lembrando que a manutenção do estatuto e, pior, a subsistência da família dependia desse esforço que recaía sobre a primogenitura.
Catarina desistira da argumentação com a família, mantendo com os pais uma última conversa na qual lhes recordava que tudo aquilo era ridículo quando se estava quase no século XX. Desistira também de se deixar entregar às lágrimas.
Urdira um plano. Simples, fácil e directo. No dia da última saída pegou na mala e desapareceu no mundo.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
O prato (Rúben)
Rúben olhou o estranho com redobrada atenção. A camisa amarrotada e gasta contrastava com um exemplar nó de gravata, ainda que de gosto mais que duvidoso.
Reparou nos laivos de transpiração que os sovacos exibiam e que o estranho tentava disfarçar.
Decidiu experimentá-lo.
- Sabe Paulo que...
- Pedro!
- Perdão?
- Pedro. O meu nome é Pedro Pereira. Chamou-me Paulo.
- Perdoe-me, Pedro. Sabe que, dizia-lhe, as oportunidades com objectos unicos alcançam-nos apenas uma única vez.
- Quer isso dizer que??
- Quer isso dizer que esse prato é, muito provavelmente, pertencente a uma baixela feita a pedido de D. João VI, da qual parcos objectos nos chegaram.
- Que sorte a minha, então.
- Pedro, o objecto será sujeito a um rastreio de autenticidade e legitimidade de posse.
Pedro contorceu-se na cadeira.
- Porque?
- Regras internacionais contra o roubo de obras de arte.
- Isto não é uma obra de arte.
- É-o em certa medida.
Pedro recuperou o prato e saiu apressado sem dizer nada mais. Rúben chamou a policia.
Reparou nos laivos de transpiração que os sovacos exibiam e que o estranho tentava disfarçar.
Decidiu experimentá-lo.
- Sabe Paulo que...
- Pedro!
- Perdão?
- Pedro. O meu nome é Pedro Pereira. Chamou-me Paulo.
- Perdoe-me, Pedro. Sabe que, dizia-lhe, as oportunidades com objectos unicos alcançam-nos apenas uma única vez.
- Quer isso dizer que??
- Quer isso dizer que esse prato é, muito provavelmente, pertencente a uma baixela feita a pedido de D. João VI, da qual parcos objectos nos chegaram.
- Que sorte a minha, então.
- Pedro, o objecto será sujeito a um rastreio de autenticidade e legitimidade de posse.
Pedro contorceu-se na cadeira.
- Porque?
- Regras internacionais contra o roubo de obras de arte.
- Isto não é uma obra de arte.
- É-o em certa medida.
Pedro recuperou o prato e saiu apressado sem dizer nada mais. Rúben chamou a policia.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Dia de prodígios (Violante)
Violante sabia que aquele seria um dia de prodígios. Sentia o sangue ferver-lhe nas veias, situação felizmente incomum, mas que sempre revelava que algo extraordinário estaria para suceder.
Aprendera a viver com a sua condição especial desde os treze anos. Ano em que as bruxas se revelam!, contara-lhe a avó, um ano pouco mais que banal, diria mais tarde Violante que se habituara às visões de futuro, do seu e dos outros.
Assomou-se à janela que abriu de par em par. Ouviu indistintamente o ulular uivante da terra. Vinha em crescendo e Violante leu os sinais da desgraça que se abateria sobre a aldeia.
Saiu rapidamente de casa e foi ofegante bater à porta das vizinhas mais próximas.
- Saiam de casa!, gritava insana. Saiam de casa.
Maria José abriu a porta assustada. Violante não lhe deu tempo para respirar e arrastou-a para fora, pela manga da blusa.
- Violante? Que fazes? Ai que me matas!
- Vamos para o largo. As casas não são seguras! A terra vai abanar.
Maria José assustou-se e correu o pouco que podia.
A terra bradava e começou a tremer, chocalhando tudo com violência.
Violante odiava-se de cada vez que o futuro provava a certeza das suas leituras.
- Que peso, meu Deus...
Aprendera a viver com a sua condição especial desde os treze anos. Ano em que as bruxas se revelam!, contara-lhe a avó, um ano pouco mais que banal, diria mais tarde Violante que se habituara às visões de futuro, do seu e dos outros.
Assomou-se à janela que abriu de par em par. Ouviu indistintamente o ulular uivante da terra. Vinha em crescendo e Violante leu os sinais da desgraça que se abateria sobre a aldeia.
Saiu rapidamente de casa e foi ofegante bater à porta das vizinhas mais próximas.
- Saiam de casa!, gritava insana. Saiam de casa.
Maria José abriu a porta assustada. Violante não lhe deu tempo para respirar e arrastou-a para fora, pela manga da blusa.
- Violante? Que fazes? Ai que me matas!
- Vamos para o largo. As casas não são seguras! A terra vai abanar.
Maria José assustou-se e correu o pouco que podia.
A terra bradava e começou a tremer, chocalhando tudo com violência.
Violante odiava-se de cada vez que o futuro provava a certeza das suas leituras.
- Que peso, meu Deus...
quarta-feira, 29 de junho de 2011
À chuva (David)
David estava sentado há coisa de duas horas frente ao ecrã branco do computador. O drama da folha de papel vazia havia-se actualizado e informatizado, era hoje o drama da página de word em branco.
Ao fim da primeira hora de tédio insuportável, agarrara em folhas de papel da impressora que se apressara a amachucar e a deixar cair em redor de si, apenas para criar ambiente.
Num assomo de criatividade, empertigou-se e escreveu:
"Leonor seguia altiva pela rua alheada da chuva que começava a cair copiosamente."
Aquela Leonor bailava na sua cabeça nas últimas semanas, mas não sabia como começar a sua história. Apreendeu meros apontamentos, mas faltava-lhe uma linha de água por onde os mesmos pudessem fluir como toros.
O sol vibrante que lhe entrava pela janela exasperava-o e convidava-o a saboreá-lo. David resistia com enorme dificuldade a esse convite.
Por inércia do autor, Leonor teimava em caminhar à chuva. Estaria por agora ensopada, andando em círculos vazios. Talvez tivesse perdido já toda a altivez. Desejaria mesmo sair daquela folha imaginária e descompor quem a pôs naquela situação. Leonor espirrou. David ouviu qualquer coisa em sussurro, mas não saberia descrever o quê. Cedeu ao convite do sol e foi tomar um café. Leonor aguardava à chuva.
Ao fim da primeira hora de tédio insuportável, agarrara em folhas de papel da impressora que se apressara a amachucar e a deixar cair em redor de si, apenas para criar ambiente.
Num assomo de criatividade, empertigou-se e escreveu:
"Leonor seguia altiva pela rua alheada da chuva que começava a cair copiosamente."
Aquela Leonor bailava na sua cabeça nas últimas semanas, mas não sabia como começar a sua história. Apreendeu meros apontamentos, mas faltava-lhe uma linha de água por onde os mesmos pudessem fluir como toros.
O sol vibrante que lhe entrava pela janela exasperava-o e convidava-o a saboreá-lo. David resistia com enorme dificuldade a esse convite.
Por inércia do autor, Leonor teimava em caminhar à chuva. Estaria por agora ensopada, andando em círculos vazios. Talvez tivesse perdido já toda a altivez. Desejaria mesmo sair daquela folha imaginária e descompor quem a pôs naquela situação. Leonor espirrou. David ouviu qualquer coisa em sussurro, mas não saberia descrever o quê. Cedeu ao convite do sol e foi tomar um café. Leonor aguardava à chuva.
terça-feira, 21 de junho de 2011
O susto (Porfírio)
Porfírio carregava a arma. Tremia abundantemente e o suor escorria-lhe pela cara e pelo peito. Deixou cair as munições duas vezes antes de conseguir carregar a Glock.
Suspirou, uma, duas, três vezes. Sentia que a sua respiração se ouvia a léguas de distância. Mordeu os lábios e colocou a cabeça fora da porta para espreitar. Uma bala silvou-lhe ao ouvido e, instantaneamente, deixou-se cair. Tacteou e rastejou para trás o quanto pôde, até sentir a parede irregular nas costas.
- Vais morrer! Ouviste, bófia de merda? Vais morrer hoje!
Porque demoram tanto tempo?, pensou e aquilo encheu-lhe a cabeça. Porque não se ouvem as sirenes?
Passos em corrida. Ruidosos. Apressados.
- Mataste-o?
- Ainda não. Está ali atrás.
Já não se lembrava porque fora para a polícia. Percebia agora que não dava para aquilo. Não via como escapar e não sabia como tinha ali parar. Sim, isso. Surpreendera os marginais em pleno tráfico. Dera-lhes caça, avisara o comando, mas quebrara uma regra básica de não entrar no seu território sem reforços. Que estúpido, estúpido, estúpido.
Passos mais próximos. Uma saraivada de balas. Porfírio tenta empunhar a arma e deixa-a cair. Não tem tempo de a apanhar antes do pontapé. Um bota no pescoço que o sufoca, um cano de arma na cabeça.
- Disse-te que te acabavas hoje.
Dois, três tiros que Porfírio já não ouviu. Bandidos atingidos no peito e cabeça.
- Polícia caído. Polícia caído. Precisamos de apoio médico.
- Está morto, chefe.
- Atingido?
O polícia analisou Porfírio.
- Nenhuma marca de bala, mas sem pulsação.
Porfírio não dava para aquilo e morrera de susto.
Suspirou, uma, duas, três vezes. Sentia que a sua respiração se ouvia a léguas de distância. Mordeu os lábios e colocou a cabeça fora da porta para espreitar. Uma bala silvou-lhe ao ouvido e, instantaneamente, deixou-se cair. Tacteou e rastejou para trás o quanto pôde, até sentir a parede irregular nas costas.
- Vais morrer! Ouviste, bófia de merda? Vais morrer hoje!
Porque demoram tanto tempo?, pensou e aquilo encheu-lhe a cabeça. Porque não se ouvem as sirenes?
Passos em corrida. Ruidosos. Apressados.
- Mataste-o?
- Ainda não. Está ali atrás.
Já não se lembrava porque fora para a polícia. Percebia agora que não dava para aquilo. Não via como escapar e não sabia como tinha ali parar. Sim, isso. Surpreendera os marginais em pleno tráfico. Dera-lhes caça, avisara o comando, mas quebrara uma regra básica de não entrar no seu território sem reforços. Que estúpido, estúpido, estúpido.
Passos mais próximos. Uma saraivada de balas. Porfírio tenta empunhar a arma e deixa-a cair. Não tem tempo de a apanhar antes do pontapé. Um bota no pescoço que o sufoca, um cano de arma na cabeça.
- Disse-te que te acabavas hoje.
Dois, três tiros que Porfírio já não ouviu. Bandidos atingidos no peito e cabeça.
- Polícia caído. Polícia caído. Precisamos de apoio médico.
- Está morto, chefe.
- Atingido?
O polícia analisou Porfírio.
- Nenhuma marca de bala, mas sem pulsação.
Porfírio não dava para aquilo e morrera de susto.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O tango (Andreia)
Andreia sentiu o calor do corpo de Carlos junto ao seu. Os passos ritmados do tango inebriavam-na e sentia-se levitar. Parecia-lhe que, por momentos, não era ela que estava ali, mas uma outra mulher, menos tímida, menos acanhada, mais afirmativa e confiante.
Carlos rodopiava e fazia-a rodopiar sobre si. Dançavam de olhos cerrados, como se o tango houvesse sido criado para ser dançado num céu estrelado. Nem um sinal de hesitação, nenhuma margem de dúvida sobre os limites da pista. Conhecimento total dos limites do corpo. A mão de Carlos roçou o seio de Andreia num gesto natural. Lançou-a para a frente e agarrou-lhe a mão firmemente puxando-a para si. Deixou-se arrastar até ele com a perna esquerda estendida, terminando sensualmente no salto de tacão que ia lambendo o chão. Carlos apertou-a novamente contra si, cuspiu a rosa que tinha entre os dentes e beijou-a apaixonadamente.
Andreia deixou-se embalar docemente pelos lábios carnudos e experientes de Carlos. E sentiu que levitava.
Carlos rodopiava e fazia-a rodopiar sobre si. Dançavam de olhos cerrados, como se o tango houvesse sido criado para ser dançado num céu estrelado. Nem um sinal de hesitação, nenhuma margem de dúvida sobre os limites da pista. Conhecimento total dos limites do corpo. A mão de Carlos roçou o seio de Andreia num gesto natural. Lançou-a para a frente e agarrou-lhe a mão firmemente puxando-a para si. Deixou-se arrastar até ele com a perna esquerda estendida, terminando sensualmente no salto de tacão que ia lambendo o chão. Carlos apertou-a novamente contra si, cuspiu a rosa que tinha entre os dentes e beijou-a apaixonadamente.
Andreia deixou-se embalar docemente pelos lábios carnudos e experientes de Carlos. E sentiu que levitava.
O tempo de um cigarro (Filipe)
Filipe aspirava suavemente o fumo mentolado do seu cigarro de enrolar. A manhã estava fresca e o pátio exterior do edifício de escritórios ainda despojado dos demais fumadores de ocasião.
Filipe apreciava o bulício matinal de Londres. Carros e pessoas entrecuzavam-se de forma organizada e apressada. Ao largo, uma senhora bem posta passeava um desprezível caniche. Ao fundo um jovem de skate serpenteava por entre as pessoas. Na estrada, as bicicletas conquistavam os primeiros lugares nos semáforos aos automóveis.
O queimar da mortalha do cigarro impunha-se luminosamente. Filipe travou, saboreou e exalou.
- Good morning!
O som vindo das suas costas impôs que se virasse antes de responder.
- Good morning.
- Can you borrow me a light?
- Of course.
Filipe acendeu-lhe o cigarro e mirou-a. Achou-a espalhafatosa e desinteressante.
- Thanks. You are in the third floor, right?
- Yes. - respondeu secamente.
Decidiu terminar o cigarro. Apagou-o.
Sentiu que ia ser questionado novamente. Atirou um "bye" e desapareceu.
A criatura, sozinha, suspirou de enfado.
Filipe apreciava o bulício matinal de Londres. Carros e pessoas entrecuzavam-se de forma organizada e apressada. Ao largo, uma senhora bem posta passeava um desprezível caniche. Ao fundo um jovem de skate serpenteava por entre as pessoas. Na estrada, as bicicletas conquistavam os primeiros lugares nos semáforos aos automóveis.
O queimar da mortalha do cigarro impunha-se luminosamente. Filipe travou, saboreou e exalou.
- Good morning!
O som vindo das suas costas impôs que se virasse antes de responder.
- Good morning.
- Can you borrow me a light?
- Of course.
Filipe acendeu-lhe o cigarro e mirou-a. Achou-a espalhafatosa e desinteressante.
- Thanks. You are in the third floor, right?
- Yes. - respondeu secamente.
Decidiu terminar o cigarro. Apagou-o.
Sentiu que ia ser questionado novamente. Atirou um "bye" e desapareceu.
A criatura, sozinha, suspirou de enfado.
sábado, 18 de junho de 2011
O colete (Alexandra)
Alexandra folheava descuidadamente um livro. Aborreciam-na aqueles dias de canícula em pleno Alentejo. O monte encimava a planície que se espraiava para oeste numa matriz irregular de terrenos de sobreiros e doiradas searas de trigo. O tempo seco e quente impunha também a secura de ideias e de vontades.
A cadeira de baloiço por baixo do grande alpendre beneficiava da sombra que o mesmo proporcionava, mas a aragem não corria, o que a deixava numa modorra que não conseguia controlar.
Perdeu-se do tempo por um lapso do mesmo.
Uma nuvem de poeira verticalizava-se na estrada de acesso ao monte. Um carro branco galgava a estrada até à casa. O sol caia impediosamente sobre carro, como sobre tudo o que mexia e não mexia, e ofuscava quem lhe fixava a vista.
Alexandra levantou-se para indagar quem era. O colete branco de algodão estava descuidadamente desapertado e deixava entrever o peito firme da adolescente. Alexandra apertou um botão mais no exacto momento em que o condutor saia do carro.
- Boa tarde.
- Boa tarde. - replicou Alexandra.
Alexandra sentiu o olhar daquele homem aquecer-lhe as coxas, que os seus calções azuis orgulhosamente deixavam exibir, como se de um prémio se tratasse. Interessou-se por aquele olhar interesseiro.
- Procuro o Monte dos Pardais.
Alexandra esperou uns segundos e olhou-o semi-cerrando os olhos.
- Tem de seguir na estrada em que vinha mais uns 5 km. É um portão azul e branco à sua direita na estrada.
O estranho fixou-a e deixou-se estar naquele estado meditativo mais uns segundos. Alexandra adivinhou-lhe os desejos e abriu o botão do colete que havia apertado há pouco.
O estranho agradeceu e dirigiu-se ao carro. Fez o movimento para entrar e levantou-se novamente.
- O seu nome é?
- Xana. - disse-lhe displicentemente enquanto mexia no colete.
- Obrigado. Ver-nos-emos, tenho a certeza.
Meteu-se no carro e desapareceu pela estrada.
- Quem era? - perguntava a avó a Alexandra, entretanto aparecida.
- Alguém a procurar o Monte dos Pardais.
- Hum.
Uma aragem corria agora e Alexandra despertou. Deixou-se estar ainda um pouco, baloçando-se suavemente. Rememoriou o que havia vivenciado há pouco e não soube responder se aquilo foi sonho ou aconteceu mesmo. Deixou no alpendre o livro que estava a ler, «Lolita», e foi para dentro, sorrindo.
A cadeira de baloiço por baixo do grande alpendre beneficiava da sombra que o mesmo proporcionava, mas a aragem não corria, o que a deixava numa modorra que não conseguia controlar.
Perdeu-se do tempo por um lapso do mesmo.
Uma nuvem de poeira verticalizava-se na estrada de acesso ao monte. Um carro branco galgava a estrada até à casa. O sol caia impediosamente sobre carro, como sobre tudo o que mexia e não mexia, e ofuscava quem lhe fixava a vista.
Alexandra levantou-se para indagar quem era. O colete branco de algodão estava descuidadamente desapertado e deixava entrever o peito firme da adolescente. Alexandra apertou um botão mais no exacto momento em que o condutor saia do carro.
- Boa tarde.
- Boa tarde. - replicou Alexandra.
Alexandra sentiu o olhar daquele homem aquecer-lhe as coxas, que os seus calções azuis orgulhosamente deixavam exibir, como se de um prémio se tratasse. Interessou-se por aquele olhar interesseiro.
- Procuro o Monte dos Pardais.
Alexandra esperou uns segundos e olhou-o semi-cerrando os olhos.
- Tem de seguir na estrada em que vinha mais uns 5 km. É um portão azul e branco à sua direita na estrada.
O estranho fixou-a e deixou-se estar naquele estado meditativo mais uns segundos. Alexandra adivinhou-lhe os desejos e abriu o botão do colete que havia apertado há pouco.
O estranho agradeceu e dirigiu-se ao carro. Fez o movimento para entrar e levantou-se novamente.
- O seu nome é?
- Xana. - disse-lhe displicentemente enquanto mexia no colete.
- Obrigado. Ver-nos-emos, tenho a certeza.
Meteu-se no carro e desapareceu pela estrada.
- Quem era? - perguntava a avó a Alexandra, entretanto aparecida.
- Alguém a procurar o Monte dos Pardais.
- Hum.
Uma aragem corria agora e Alexandra despertou. Deixou-se estar ainda um pouco, baloçando-se suavemente. Rememoriou o que havia vivenciado há pouco e não soube responder se aquilo foi sonho ou aconteceu mesmo. Deixou no alpendre o livro que estava a ler, «Lolita», e foi para dentro, sorrindo.
terça-feira, 14 de junho de 2011
A dívida (Sebastião)
- Sebastião. Chama-se Sebastião Almeida de Portugal como o bisavô.
Afonso olhava embevecido para o filho recém-nascido que chorava. Onde a parteira apenas conseguia ver um bebé engelhado pelo aperto no momento da expulsão, Afonso projectava nele todo o porte nobliárquico dos Almeida de Portugal, família cujas origens se confundiam com as do próprio país.
A família estava quase falida. As terras haviam sido vendidas há muito. Enfim, sobravam uns pequenos sobrados, uns minúsculos coutos aqui e ali, esparsamente espalhados. Nada de valor. Nada que valesse a pena cultivar intensivamente e que, por isso, não tiveram comprador. Mas, a dignidade do porte não se aliena, não se vende ou trasfere, eterniza-se nas gerações vindouras.
- O menino está bem. Agora é esperar que a Senhora D. Eugénia tenha leite. Até lá, água de arroz para manter o menino. Nada mais. A cabeça engelhadinha irá ao sítio nos próximos dias. Nada de preocupações por isso. Para a mãe, descanso absoluto.
Afonso deixou-a sair grunhindo para si. E em seguida explodiu:
- Uma bárbara. Uma reles e rude bárbara. Ter o privilégio de fazer nascer a nova geração dos Almeida de Portugal e tem o despropósito de dizer que o infante tem a cabeça engelhada. Uma bruta. Incapaz de reconhecer um porte nobre. Indigna de tudo isto. Tenho vontade de não lhe pagar.
- Afonso. A Aurora não está à espera que lhe pagues. Ela sabe que não temos dinheiro e aceitou fazer nascer o menino porque a tua mãe, nos bons tempos, deu guarida e ajudou a família dela. - dizia Eugénia num assomo de dores.
- Pois pagar-lhe-ei. Isso será ponto de honra.
- Como?
- Isso agora não sei, nem é importante. Importante é que lhe pagarei, nem que seja Sebastião a fazê-lo por mim.
Vinte e dois anos depois, Sebastião Almeida de Portugal casava com Henriqueta Valadas, neta de Aurora. Esta assistiu ainda e feiz ao enlace e considerou a dívida paga. Sebastião saldara a dívida concedendo o seu nome de família nobre à baixa burguesia aldeã.
Afonso olhava embevecido para o filho recém-nascido que chorava. Onde a parteira apenas conseguia ver um bebé engelhado pelo aperto no momento da expulsão, Afonso projectava nele todo o porte nobliárquico dos Almeida de Portugal, família cujas origens se confundiam com as do próprio país.
A família estava quase falida. As terras haviam sido vendidas há muito. Enfim, sobravam uns pequenos sobrados, uns minúsculos coutos aqui e ali, esparsamente espalhados. Nada de valor. Nada que valesse a pena cultivar intensivamente e que, por isso, não tiveram comprador. Mas, a dignidade do porte não se aliena, não se vende ou trasfere, eterniza-se nas gerações vindouras.
- O menino está bem. Agora é esperar que a Senhora D. Eugénia tenha leite. Até lá, água de arroz para manter o menino. Nada mais. A cabeça engelhadinha irá ao sítio nos próximos dias. Nada de preocupações por isso. Para a mãe, descanso absoluto.
Afonso deixou-a sair grunhindo para si. E em seguida explodiu:
- Uma bárbara. Uma reles e rude bárbara. Ter o privilégio de fazer nascer a nova geração dos Almeida de Portugal e tem o despropósito de dizer que o infante tem a cabeça engelhada. Uma bruta. Incapaz de reconhecer um porte nobre. Indigna de tudo isto. Tenho vontade de não lhe pagar.
- Afonso. A Aurora não está à espera que lhe pagues. Ela sabe que não temos dinheiro e aceitou fazer nascer o menino porque a tua mãe, nos bons tempos, deu guarida e ajudou a família dela. - dizia Eugénia num assomo de dores.
- Pois pagar-lhe-ei. Isso será ponto de honra.
- Como?
- Isso agora não sei, nem é importante. Importante é que lhe pagarei, nem que seja Sebastião a fazê-lo por mim.
Vinte e dois anos depois, Sebastião Almeida de Portugal casava com Henriqueta Valadas, neta de Aurora. Esta assistiu ainda e feiz ao enlace e considerou a dívida paga. Sebastião saldara a dívida concedendo o seu nome de família nobre à baixa burguesia aldeã.
domingo, 12 de junho de 2011
Separação (Simão)
Simão sofria ali a primeira separação da sua vida. Não tinha ciência desse facto, mas vivenciava-o de uma forma assombrosa. Sentiu-se arrancado da bolsa protectora onde se formara nos últimos 9 meses.
O ar frio invadiu-lhe os pulmões. Era uma sensação nova e dolorosa. Chorou colocando naquele choro o mais profundo que tinha em si.
A separação consumou-se com o cortar do cordão umbilical. Definitiva e friamente, sem qualquer possibilidade de arrependimento. Os nascimentos não admitem devoluções. Quando o fruto está maduro deve ser colhido.
Seria a primeira de muitas separações que a vida lhe reservaria. Deixaria a casa dos pais para estudar, no que seria deixar novamente a placenta materna. Voltaria por breves instantes, mas para se separar definitvamente pelo casamento. Hoje já ninguém lhe chama casamento, mas é o que é, de facto.
Separar-se-ia da sua namorada ou mulher, conforme as conveninências momentâneas.
Separar-se-ia do seu país, muitas vezes e uma só.
Separar-se-ia dos seus pais um dia.
Só muito mais tarde reflectiria o quanto da nossa vida é construída com separações. Em todas elas morremos um pouco.
O ar frio invadiu-lhe os pulmões. Era uma sensação nova e dolorosa. Chorou colocando naquele choro o mais profundo que tinha em si.
A separação consumou-se com o cortar do cordão umbilical. Definitiva e friamente, sem qualquer possibilidade de arrependimento. Os nascimentos não admitem devoluções. Quando o fruto está maduro deve ser colhido.
Seria a primeira de muitas separações que a vida lhe reservaria. Deixaria a casa dos pais para estudar, no que seria deixar novamente a placenta materna. Voltaria por breves instantes, mas para se separar definitvamente pelo casamento. Hoje já ninguém lhe chama casamento, mas é o que é, de facto.
Separar-se-ia da sua namorada ou mulher, conforme as conveninências momentâneas.
Separar-se-ia do seu país, muitas vezes e uma só.
Separar-se-ia dos seus pais um dia.
Só muito mais tarde reflectiria o quanto da nossa vida é construída com separações. Em todas elas morremos um pouco.
Primitivo (Matilde)
- Matilde, venha buscar o seu bebé!
- Ahh.
- Vamos. Tire-o de dentro de si e leve-o para o colo.
Matilde esqueceu de súbito as dores e o nervoso do parto. Auxiliada pelos enfermeiros, dobrou-se sobre si, venceu a distância que separava os seus braços das suas pernas e a dificuldade da barriga de grávida que ostentava, agarrou o bebé por baixo dos seus bracinhos e puxou-o, com quanta força tinha, para si.
- Ó meu querido, meu filhinho, pequenino.
Simão chorou a plenos pulmões quando sentiu o ar frio a inundá-lo.
O pai da criança, à sua beira, chorava emocionado.
Numa era de produtos feitos, embalados e entregues em nossa casa, havia algo de profundamente primitivo, mas emocionantemente poético, em ver uma mãe a arrancar um filho das suas próprias entranhas.
O pai chorava como se fosse o primeiro filho. Cortou o cordão umbilical.
Obrigado Maria Antónia e Laura por este momento que nunca esqueceremos.
- Ahh.
- Vamos. Tire-o de dentro de si e leve-o para o colo.
Matilde esqueceu de súbito as dores e o nervoso do parto. Auxiliada pelos enfermeiros, dobrou-se sobre si, venceu a distância que separava os seus braços das suas pernas e a dificuldade da barriga de grávida que ostentava, agarrou o bebé por baixo dos seus bracinhos e puxou-o, com quanta força tinha, para si.
- Ó meu querido, meu filhinho, pequenino.
Simão chorou a plenos pulmões quando sentiu o ar frio a inundá-lo.
O pai da criança, à sua beira, chorava emocionado.
Numa era de produtos feitos, embalados e entregues em nossa casa, havia algo de profundamente primitivo, mas emocionantemente poético, em ver uma mãe a arrancar um filho das suas próprias entranhas.
O pai chorava como se fosse o primeiro filho. Cortou o cordão umbilical.
Obrigado Maria Antónia e Laura por este momento que nunca esqueceremos.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
O choque (Pedro)
Pedro fora pai pela primeira vez. Ficara mudo. Mesmo. Mudo mesmo. Perdera a capacidade da fala quando o seu filho varão, dois segundos depois de sair do saco protector explodiu num choro ansioso e anseado.
Passou de pai choroso a raridade médica numa fracção de tempo tão pequena que só um relógio atómico de elevadíssima precisão conseguiria medir.
A todos o caso fazia lembrar a situação de Zacarias, não fora o facto de ser precisamente a inversa. Gabriel havia tornado Zacarias mudo e quedo até ao nascimento de seu filho João Baptista e a língua só se destravou no exacto momento em que após o nascimento lhe perguntaram o nome da criança.
Pedro invejava Zacarias. Que importância tinham todas as palavras que dissera até esse dia, se no dia do nascimento do seu primeiro filho não conseguia vocalizar o seu nome.
Estava em choque, diziam os médicos, que classificavam tudo o que não podiam tratar como um choque que poderia passar a qualquer momento ou nunca passar.
Pedro nunca pensara seriamente em ser pai. Era feio, muito narigudo, daqueles retorcidos. Daqueles narizes que ao invés de darem personalidade, como se diz, têm o poder de destruir uma personalidade. Pedro sobrevivera ao seu nariz.
Encontrara Vera. Invisual, mas não para as questões de carácter. Da exterior nada poderia dizer, da interior tudo sabia e nunca encontrara pessoa melhor que Pedro. Decidiu que se lhe entregaria, casariam, teriam filhos e seriam felizes.
- Que nome dão à criança? - perguntava a oficial do registo civil.
- João Pedro., disse a mãe.
A oficial olhava para Pedro. Pedro anuiu. João Pedro chorou novamente. A língua de Pedro soltou-se.
Passou de pai choroso a raridade médica numa fracção de tempo tão pequena que só um relógio atómico de elevadíssima precisão conseguiria medir.
A todos o caso fazia lembrar a situação de Zacarias, não fora o facto de ser precisamente a inversa. Gabriel havia tornado Zacarias mudo e quedo até ao nascimento de seu filho João Baptista e a língua só se destravou no exacto momento em que após o nascimento lhe perguntaram o nome da criança.
Pedro invejava Zacarias. Que importância tinham todas as palavras que dissera até esse dia, se no dia do nascimento do seu primeiro filho não conseguia vocalizar o seu nome.
Estava em choque, diziam os médicos, que classificavam tudo o que não podiam tratar como um choque que poderia passar a qualquer momento ou nunca passar.
Pedro nunca pensara seriamente em ser pai. Era feio, muito narigudo, daqueles retorcidos. Daqueles narizes que ao invés de darem personalidade, como se diz, têm o poder de destruir uma personalidade. Pedro sobrevivera ao seu nariz.
Encontrara Vera. Invisual, mas não para as questões de carácter. Da exterior nada poderia dizer, da interior tudo sabia e nunca encontrara pessoa melhor que Pedro. Decidiu que se lhe entregaria, casariam, teriam filhos e seriam felizes.
- Que nome dão à criança? - perguntava a oficial do registo civil.
- João Pedro., disse a mãe.
A oficial olhava para Pedro. Pedro anuiu. João Pedro chorou novamente. A língua de Pedro soltou-se.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Até à próxima (Isabel)
Isabel estava distraída, perdão, era distraída. A distracção era nela um estado de permanência, daqueles que se cravam em nós e se mimetizam para que não demos por eles, até que se acabam por alojar debaixo da nossa pele. O mais completo alheamento do mundo era uma característica imanente em Isabel.
A clarividência deste seu traço de personalidade impunha-se-lhe agora, enquanto se confrontava com a multa que estava prestes a receber.
- Livrete do carro?
...
- Aqui está.
- A senhora não se apercebeu que vinha em contra-mão?
- Verdadeiramente, não.
- Mas tem agora consciência do perigo em que se colocou e em que colocou os outros condutores?
- Sem dúvida, senhor guarda. Tenho plena consciência e arrependimento pela situação.
- Pois. O arrependimento serve-lhe de pouco agora.
O barulho do auto de multa a ser rasgado confirmou-lhe que o destino se fechara, como num círculo.
- Aqui tem. Siga as instruções no verso para proceder ao pagamento. Agora dê a volta e siga por aquele lado, por favor.
- Bom dia, senhor guarda.
- Muito bom dia, minha senhora.
Isabel entrou no carro. Fechou a porta. Esperou que o guarda se virasse e abriu o guarda-luvas. Um monte de papéis verdes caiu e teimou em cair, quando Isabel lhes aconchegou o novo amigo, o terceiro da semana.
Um novo aperto e porta-luvas fechado. Até à próxima.
A clarividência deste seu traço de personalidade impunha-se-lhe agora, enquanto se confrontava com a multa que estava prestes a receber.
- Livrete do carro?
...
- Aqui está.
- A senhora não se apercebeu que vinha em contra-mão?
- Verdadeiramente, não.
- Mas tem agora consciência do perigo em que se colocou e em que colocou os outros condutores?
- Sem dúvida, senhor guarda. Tenho plena consciência e arrependimento pela situação.
- Pois. O arrependimento serve-lhe de pouco agora.
O barulho do auto de multa a ser rasgado confirmou-lhe que o destino se fechara, como num círculo.
- Aqui tem. Siga as instruções no verso para proceder ao pagamento. Agora dê a volta e siga por aquele lado, por favor.
- Bom dia, senhor guarda.
- Muito bom dia, minha senhora.
Isabel entrou no carro. Fechou a porta. Esperou que o guarda se virasse e abriu o guarda-luvas. Um monte de papéis verdes caiu e teimou em cair, quando Isabel lhes aconchegou o novo amigo, o terceiro da semana.
Um novo aperto e porta-luvas fechado. Até à próxima.
domingo, 5 de junho de 2011
Mudanças (César)
César levantou os estores a custo. A luminosidade do meio-dia ofuscava-lhe os olhos e a clarividência de raciocínio. Teve de violentar-se para resistir a tapar novamente a janela e arrastar-se até à casa de banho.
A água gelada caiu-lhe sobre o corpo. Deu um grito mudo. Aguentou o embate e acordou finalmente. Começou ali o seu dia.
Rememoriou tudo o que teria para fazer. Era só uma coisa, mas era na realidade muita coisa. Empacotar todos os pertences para que no dia seguinte pudessem ser mudados para uma nova casa. Mais pequena. Mais escura. Mais à sua medida, portanto. Era um homem solitário e trabalhava de noite. Não precisava de uma casa com muitas divisões nem de uma casa com muita luz. Ademais, as casas mais pequenas e lúgubres eram de renda mais barata e isso era-lhe muito conveniente agora. Especialmente agora.
Abriu o frigorífico e engoliu um pedaço de pizza com dois dias. Saciada a fome, lançou mãos ao trabalho.
As mudanças fazem-nos aperceber de que por muito pouco que tenhamos, temos sempre mais do que pensamos e duas vezes mais do que precisamos. Pensou em separar o que queria levar do que poderia simplesmente deitar fora. Desistiu da ideia, não teria tempo, podia fazê-lo mais tarde, no novo apartamento.
Livros, revistas, roupas que já não usava, utensílios vários. Grunhiu de desespero.
As caixas amontoavam-se.
Sem esperar, saltou-lhe para o colo uma moldura. Uma menina acenava, sorrindo.
Parou. Sentiu uma lágrima a querer soltar-se. Jamais!
Agarrou o casaco de cabedal e saiu porta fora.
A água gelada caiu-lhe sobre o corpo. Deu um grito mudo. Aguentou o embate e acordou finalmente. Começou ali o seu dia.
Rememoriou tudo o que teria para fazer. Era só uma coisa, mas era na realidade muita coisa. Empacotar todos os pertences para que no dia seguinte pudessem ser mudados para uma nova casa. Mais pequena. Mais escura. Mais à sua medida, portanto. Era um homem solitário e trabalhava de noite. Não precisava de uma casa com muitas divisões nem de uma casa com muita luz. Ademais, as casas mais pequenas e lúgubres eram de renda mais barata e isso era-lhe muito conveniente agora. Especialmente agora.
Abriu o frigorífico e engoliu um pedaço de pizza com dois dias. Saciada a fome, lançou mãos ao trabalho.
As mudanças fazem-nos aperceber de que por muito pouco que tenhamos, temos sempre mais do que pensamos e duas vezes mais do que precisamos. Pensou em separar o que queria levar do que poderia simplesmente deitar fora. Desistiu da ideia, não teria tempo, podia fazê-lo mais tarde, no novo apartamento.
Livros, revistas, roupas que já não usava, utensílios vários. Grunhiu de desespero.
As caixas amontoavam-se.
Sem esperar, saltou-lhe para o colo uma moldura. Uma menina acenava, sorrindo.
Parou. Sentiu uma lágrima a querer soltar-se. Jamais!
Agarrou o casaco de cabedal e saiu porta fora.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
A cabra (Laura)
- Laura. Chiba Laura. Aqui!
O orgulhoso rebanho agrupava-se atrás da sua liderança, no feminino, como todas as grandes lideranças de hoje em dia. Uma liderança sem cornos. Enfim, sem cornos daqueles excessivos, meros ornamentos escondendo chefias masculinas fracas e ocas.
Laura era uma cabra altiva, com porte, com brio e com chifres adequados à estatura moral que alcançara no rebanho.
Era ela que conduzia o rebanho às pastagens. Sim, o pastor também lá ia, passeando. Não necessitavam dele. Laura sabia bem onde estavam as pastagens, conhecia bem as rotinas das cabras, não fosse ela uma cabra já há uns anos fartos.
No verão subiam mais, no inverno subiam menos ou nem sequer saiam, que, por vezes, os rigores dos invernosos ventos das beiras só se combatem com o calor do grupo, dentro do cortelho. Nesses dias, até a palha loura lhes sabe tão bem como o feno ou a erva fresca e verdejante. Reconhecia que nesses dias quem lhes valia era o pastor. Não fora ele e seriam dias que não se suportavam.
- Laura.
Os cascos batendo no granito do chão produziam um batuque sonoro e ritmado. Os badalos curtos compunham a orquestra desafinada, embora isso pouco importasse às cabras que, como é sabido, não se interessam por música.
Entram na praça da aldeia.
- Laura. Laura!
Uma janela de guilhotina abre-se queixando-se da idade.
- Boas, Sr. António. Cuido que me chamou.
- Eu? Eu não, D. Laura. Estava puxando pela minha chiba. Boa tarde. Anda Laura!
A janela deixou-se cair com estrilho.
O orgulhoso rebanho agrupava-se atrás da sua liderança, no feminino, como todas as grandes lideranças de hoje em dia. Uma liderança sem cornos. Enfim, sem cornos daqueles excessivos, meros ornamentos escondendo chefias masculinas fracas e ocas.
Laura era uma cabra altiva, com porte, com brio e com chifres adequados à estatura moral que alcançara no rebanho.
Era ela que conduzia o rebanho às pastagens. Sim, o pastor também lá ia, passeando. Não necessitavam dele. Laura sabia bem onde estavam as pastagens, conhecia bem as rotinas das cabras, não fosse ela uma cabra já há uns anos fartos.
No verão subiam mais, no inverno subiam menos ou nem sequer saiam, que, por vezes, os rigores dos invernosos ventos das beiras só se combatem com o calor do grupo, dentro do cortelho. Nesses dias, até a palha loura lhes sabe tão bem como o feno ou a erva fresca e verdejante. Reconhecia que nesses dias quem lhes valia era o pastor. Não fora ele e seriam dias que não se suportavam.
- Laura.
Os cascos batendo no granito do chão produziam um batuque sonoro e ritmado. Os badalos curtos compunham a orquestra desafinada, embora isso pouco importasse às cabras que, como é sabido, não se interessam por música.
Entram na praça da aldeia.
- Laura. Laura!
Uma janela de guilhotina abre-se queixando-se da idade.
- Boas, Sr. António. Cuido que me chamou.
- Eu? Eu não, D. Laura. Estava puxando pela minha chiba. Boa tarde. Anda Laura!
A janela deixou-se cair com estrilho.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O amigo Becas (Maria)
Maria olhava a filha com admiração. Cinco réis de gente, cinco anos mal feitos, e a criar frases elaboradas que a deixavam boquiaberta.
- Não achas ridículo estares a falar sózinha, mãe?
Um riso nervoso de espanto.
- Isabel. Sabes o que quer dizer ridículo?
- É uma coisa sem sentido. Não faz sentido as pessoas falarem sózinhas, por isso é ridículo.
Novo sorriso de espanto.
- E tu, Isabel? Nunca falas sózinha.
- Eu não. Eu falo sempre com o Becas.
- Quem é o Becas?
- É o meu amigo invisível.
- Ai sim? E como sabes onde ele está, se ele é invisível?
- Ele diz-me.
- Muito bem. E onde está ele agora?
- Estou aqui ao teu lado.
Maria parou o carro abruptamente. Encostou-o atabalhoadamente à berma e saiu. Contornou o carro e tirou Isabel.
- O que foi mãe?
- Estou a precisar de beber uma água, só isso. Anda, dá-me a mão.
Desde esse dia Maria deixou de falar sózinha.
- Não achas ridículo estares a falar sózinha, mãe?
Um riso nervoso de espanto.
- Isabel. Sabes o que quer dizer ridículo?
- É uma coisa sem sentido. Não faz sentido as pessoas falarem sózinhas, por isso é ridículo.
Novo sorriso de espanto.
- E tu, Isabel? Nunca falas sózinha.
- Eu não. Eu falo sempre com o Becas.
- Quem é o Becas?
- É o meu amigo invisível.
- Ai sim? E como sabes onde ele está, se ele é invisível?
- Ele diz-me.
- Muito bem. E onde está ele agora?
- Estou aqui ao teu lado.
Maria parou o carro abruptamente. Encostou-o atabalhoadamente à berma e saiu. Contornou o carro e tirou Isabel.
- O que foi mãe?
- Estou a precisar de beber uma água, só isso. Anda, dá-me a mão.
Desde esse dia Maria deixou de falar sózinha.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Cena de um dia normal (José)
- Zé, quanto tempo? Zééé!!!
- Sim.
- Quanto tempo?
- Hum... 15 minutos.
- Bolas, que diabo, Zé. Não te disse que me avisasses quando passassem 10 minutos? Importas-te de me dar atenção.
- Sim, querida.
- Deixa essa porcaria do aviãozinho militar e vem dar-me uma ajuda com isto.
- Vou já! Já, já.
...
- Zééé!!! Eu mando essa coisa pela janela a ver se voa. Ouviste?
- Já cá estou. Não estejas tão aborrecida.
- Aborrecida?? Caramba! Uma coisa simples. Avisa-me quando passarem 10 minutos. Passaram 15 e se não te tivesse dito nada, tu nada me dizias. Olha para isto. Murchou. Sabes que abomino suflé murcho. Que mau aspecto. Que vão eles dizer?
- Querida, niguém vem cá por causa do teu suflé, mas sim pela tua companhia...
[o Zé dormiu na sala nesse dia]
- Sim.
- Quanto tempo?
- Hum... 15 minutos.
- Bolas, que diabo, Zé. Não te disse que me avisasses quando passassem 10 minutos? Importas-te de me dar atenção.
- Sim, querida.
- Deixa essa porcaria do aviãozinho militar e vem dar-me uma ajuda com isto.
- Vou já! Já, já.
...
- Zééé!!! Eu mando essa coisa pela janela a ver se voa. Ouviste?
- Já cá estou. Não estejas tão aborrecida.
- Aborrecida?? Caramba! Uma coisa simples. Avisa-me quando passarem 10 minutos. Passaram 15 e se não te tivesse dito nada, tu nada me dizias. Olha para isto. Murchou. Sabes que abomino suflé murcho. Que mau aspecto. Que vão eles dizer?
- Querida, niguém vem cá por causa do teu suflé, mas sim pela tua companhia...
[o Zé dormiu na sala nesse dia]
segunda-feira, 30 de maio de 2011
A curva perfeita (Eduardo)
Eduardo pegou no carrinho de rolamentos, enrolou a corda em volta da mão, e recomeçou a caminhada ladeira acima.
O corpo moído implorava-lhe que parasse, nem que fosse por breves instantes, por alguns secos minutos em que não fosse chocalhado, enrodilhado, estatelado, rebolado e qualquer outro enxovalho verbal terminado em ado. Mas impaciência do cérebro de Eduardo pela imperfeição impunha-se, teimosamente, a todos os pedidos de auxílio que os seus braços, tronco e pernas faziam.
Tenho de fazer a curva mais larga. Tenho de fazer um semi-círculo mais perfeito. Tenho de travar um pouco antes e largar ao meio da curva.
Na sua cabeça tudo girava em torno daquela curva. Assassina. Em onze tentativas, estatelara-se aí por cinco vezes. Todas com estrondo. Todas dolorosas, para o corpo e para a alma. Todas lhe aumentavam a tenacidade.
Olhava a descida com absoluta determinação. Mentalmente reproduziu todos os passos daquela viagem vertiginosa a quase 20 km/hora.
Descida com impulso ligeiro para não perder o controlo logo no início, desvio para a direita por causa do buraco, desvio à esquerda para evitar o asfalto levantado, cheiro de travão para a trajectória perfeita naquela curva à esquerda. Oito segundos de pura adrenalina. Não se lembrava sequer de respirar durante a descida.
Num ímpeto, lançou-se, o buraco apareceu-lhe muito em cima, desvio à direita e logo à esquerda, eis a curva, travão, foi demais, oscilação das rodas traseiras, curva fora da rota, guinada no guiador, o corpo para a direita, o carro levanta as rodas do lado esquerdo, mando o corpo para a esquerda, a curva desaparece atrás de si e corta a meta imaginária em extâse.
Zé, quanto tempo?
Âh??
Quanto tempo?
Desculpa! Distraí-me.
Eduardo sobe a ladeira resmungando contra o retardado do primo. O corpo moído pede-lhe que pare.
O corpo moído implorava-lhe que parasse, nem que fosse por breves instantes, por alguns secos minutos em que não fosse chocalhado, enrodilhado, estatelado, rebolado e qualquer outro enxovalho verbal terminado em ado. Mas impaciência do cérebro de Eduardo pela imperfeição impunha-se, teimosamente, a todos os pedidos de auxílio que os seus braços, tronco e pernas faziam.
Tenho de fazer a curva mais larga. Tenho de fazer um semi-círculo mais perfeito. Tenho de travar um pouco antes e largar ao meio da curva.
Na sua cabeça tudo girava em torno daquela curva. Assassina. Em onze tentativas, estatelara-se aí por cinco vezes. Todas com estrondo. Todas dolorosas, para o corpo e para a alma. Todas lhe aumentavam a tenacidade.
Olhava a descida com absoluta determinação. Mentalmente reproduziu todos os passos daquela viagem vertiginosa a quase 20 km/hora.
Descida com impulso ligeiro para não perder o controlo logo no início, desvio para a direita por causa do buraco, desvio à esquerda para evitar o asfalto levantado, cheiro de travão para a trajectória perfeita naquela curva à esquerda. Oito segundos de pura adrenalina. Não se lembrava sequer de respirar durante a descida.
Num ímpeto, lançou-se, o buraco apareceu-lhe muito em cima, desvio à direita e logo à esquerda, eis a curva, travão, foi demais, oscilação das rodas traseiras, curva fora da rota, guinada no guiador, o corpo para a direita, o carro levanta as rodas do lado esquerdo, mando o corpo para a esquerda, a curva desaparece atrás de si e corta a meta imaginária em extâse.
Zé, quanto tempo?
Âh??
Quanto tempo?
Desculpa! Distraí-me.
Eduardo sobe a ladeira resmungando contra o retardado do primo. O corpo moído pede-lhe que pare.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Uma lágrima de felicidade (Renata)
Renata apreciava o momento em que o filho empunhava, compenetrado, a vela de baptismo que acendia no círio. Não lhe parecia crível que se tivessem passado catorze anos na vida dos dois. Frederico era agora um homem. Alto, encorpado, o maior da família. Mas o que a deixava mais satisfeita era sentir que se tinha tornado num adulto, consciente, responsável, ciente das suas obrigações. Estava satisfeita com a sua obra de educadora.
Parabéns pelo teu filho! Está tão garboso.
Obrigado, Margarida. Estava agora a reflectir nisso mesmo. Enche-me de orgulho.
A vida de Frederico passava-lhe agora pela frente. Era impossível naquele momento não recordar as dificuldades porque Frederico passou para vingar. Uma raríssima mal-formação fê-lo nascer com as pernas e os pés para trás. Foram anos de angústia e sofrimento que só uma mãe pode perceber e suportar. A incerteza e impreparação dos médicos. Mais de uma dezena de operações correctivas, múltiplas sequelas de crescimento e doze anos de fisioterapia moldaram a personalidade de Frederico.
Hoje andava e corria com absoluta normalidade, o que impressionava quem conhecia a sua história. Mas, sobretudo, o que impressionava era a sua absoluta maioridade comportamental, nada própria de quem está no auge da adolescência.
Cerimónia terminada. Um beijo filial. Uma lágrima que rola. Olhares de mãe que se entrecruzam com o olhar do filho.
Obrigado por tudo, Mãe!
Um sorriso embargado por uma lágrima de felicidade.
Estás lindo Frederico!
Parabéns pelo teu filho! Está tão garboso.
Obrigado, Margarida. Estava agora a reflectir nisso mesmo. Enche-me de orgulho.
A vida de Frederico passava-lhe agora pela frente. Era impossível naquele momento não recordar as dificuldades porque Frederico passou para vingar. Uma raríssima mal-formação fê-lo nascer com as pernas e os pés para trás. Foram anos de angústia e sofrimento que só uma mãe pode perceber e suportar. A incerteza e impreparação dos médicos. Mais de uma dezena de operações correctivas, múltiplas sequelas de crescimento e doze anos de fisioterapia moldaram a personalidade de Frederico.
Hoje andava e corria com absoluta normalidade, o que impressionava quem conhecia a sua história. Mas, sobretudo, o que impressionava era a sua absoluta maioridade comportamental, nada própria de quem está no auge da adolescência.
Cerimónia terminada. Um beijo filial. Uma lágrima que rola. Olhares de mãe que se entrecruzam com o olhar do filho.
Obrigado por tudo, Mãe!
Um sorriso embargado por uma lágrima de felicidade.
Estás lindo Frederico!
terça-feira, 24 de maio de 2011
A vingança (Ricardo)
Ricardo saltava a cancela com a desfaçatez e a destreza habitual. Acostumara-se a meter por ali para ir ao rio nos dias quentes de verão, quando as altas temperaturas aconselham sombra ou água fresca para que o cérebro não derreta.
Atravessar a propriedade do Silva "careca" não era operação isenta de riscos. Aprendara-o da maneira mais difícil, quando o dono por ali andava aos estorninhos, de pressão de ar em punho e perdigueiro ao largo. À palavra de ordem do dono, o animal pusera-se a correr como um desalmado e Ricardo largou como um foguete em direcção ao rio e só parou do outro lado da corrente, quando tinha já o sabujo dentro de água e o Silva "careca" o chamou. "Que não voltes a atravessar propriedade privada, miúdo. Vou estar à tua espera no regresso!". Que remédio teve se não subir o rio junto à margem, polvilhada de fetos, para voltar para casa mais tarde. A viagem demorou-lhe mais uma hora e muitas dores musculares, mas sempre era melhor que levar o rabo carregado de chumbo ou com os dentes do sabujo marcados.
Desde então passara a ter mais cuidado. Perdia algum tempo a amiudar se o dono por ali andaria ou não e só então arriscava meter por ali fora.
Naquele dia, tudo calmo, sem que se visse pele malvada a rondar.
Que delícia estava a água corrente que lhe afagava o peito. Fresca e retemperadora. De súbito, sentiu uma respiração por trás de si. Virou-se rapidamente e o perdigueiro sorria-lhe, arreganhando os dentes. Mergulho de imediato, sem se livrar, porém, de uma mordidela nos calçoes de banho, que acabaram por ficar na boca do sorridente animal.
Que sorte, pensou, ao menos estou inteiro. E virou-se ainda a a tempo de ver que o Silva "careca" lhe levava a demais roupa e lhe acenava vitorioso.
Pensando no regresso só lhe ocorria que seria a sensação e o falatório da terra durante muitas semanas. "Que se lixe!" E mergulhou novamente.
Atravessar a propriedade do Silva "careca" não era operação isenta de riscos. Aprendara-o da maneira mais difícil, quando o dono por ali andava aos estorninhos, de pressão de ar em punho e perdigueiro ao largo. À palavra de ordem do dono, o animal pusera-se a correr como um desalmado e Ricardo largou como um foguete em direcção ao rio e só parou do outro lado da corrente, quando tinha já o sabujo dentro de água e o Silva "careca" o chamou. "Que não voltes a atravessar propriedade privada, miúdo. Vou estar à tua espera no regresso!". Que remédio teve se não subir o rio junto à margem, polvilhada de fetos, para voltar para casa mais tarde. A viagem demorou-lhe mais uma hora e muitas dores musculares, mas sempre era melhor que levar o rabo carregado de chumbo ou com os dentes do sabujo marcados.
Desde então passara a ter mais cuidado. Perdia algum tempo a amiudar se o dono por ali andaria ou não e só então arriscava meter por ali fora.
Naquele dia, tudo calmo, sem que se visse pele malvada a rondar.
Que delícia estava a água corrente que lhe afagava o peito. Fresca e retemperadora. De súbito, sentiu uma respiração por trás de si. Virou-se rapidamente e o perdigueiro sorria-lhe, arreganhando os dentes. Mergulho de imediato, sem se livrar, porém, de uma mordidela nos calçoes de banho, que acabaram por ficar na boca do sorridente animal.
Que sorte, pensou, ao menos estou inteiro. E virou-se ainda a a tempo de ver que o Silva "careca" lhe levava a demais roupa e lhe acenava vitorioso.
Pensando no regresso só lhe ocorria que seria a sensação e o falatório da terra durante muitas semanas. "Que se lixe!" E mergulhou novamente.
domingo, 22 de maio de 2011
As pedras (Jacinta)
Jacinta conhecia aquelas pedras desde sempre. Fora seu pai que construíra a casa da família. Simples, pequena, modesta, mas um hino ao esforço e à perseverança familiar. Tinha amor àquela casa como tinha aos seus pais. Tudo se passara ali. Ali nasceram seus dois irmãos. Ali cresceram todos. Ali casaram todos. E dali todos partiram, à excepção de si própria, que não conseguiu deixar tudo aquilo. Ficou e foi amparo dos pais na velhice, como eles haviam sido seu amparo na meninice.
Não é que não tenha tido oportunidade, teve-a, mas todas as que teve, sem excepção, a conduziam para longe de tudo aquilo. Da terra, da família, do cheio da Beira, das casas simples e das coisas humildes. Não conseguia sequer suportar a ideia.
Os seus pais nunca lhe haviam pedido nada. Pelo contrário. Incentivaram-na a partir e à pergunta do que seria deles sem filhos por perto, respondiam sempre que as andorinhas não guardam os filhos nos ninhos para que lhes façam companhia. Ensinam-nos a voar e quais as rotas para as terras quentes. Incentivam-nos.
Nunca quis.
Nunca se arrependeu.
Nunca deixou de sorrir.
Encarava a vida com um abnegado optimismo que a consagrou como a Alegre Jacinta. Adorava o epíteto e estava incomensuravelmente grata a quem lho atribui. Já ninguém sabia quem fora. E quem fora nunca colheu os louros da alegria que proporcionou a Jacinta.
Ia partir agora para sempre. Fisicamente já tinha partido. Seu corpo estava agora no cemitério para enterrar. Exéquias simples como fora a sua vida.
Sentira o apelo dos anjos a chamarem-lhe a alma e predispôs-se a partir, mas tinha um último desejo. Não podia ir sem se despedir da sua casa. Assentiram nisso os seres celestes. Jacinta manifestou gratidão e foi despedir-se das pedras.
Não é que não tenha tido oportunidade, teve-a, mas todas as que teve, sem excepção, a conduziam para longe de tudo aquilo. Da terra, da família, do cheio da Beira, das casas simples e das coisas humildes. Não conseguia sequer suportar a ideia.
Os seus pais nunca lhe haviam pedido nada. Pelo contrário. Incentivaram-na a partir e à pergunta do que seria deles sem filhos por perto, respondiam sempre que as andorinhas não guardam os filhos nos ninhos para que lhes façam companhia. Ensinam-nos a voar e quais as rotas para as terras quentes. Incentivam-nos.
Nunca quis.
Nunca se arrependeu.
Nunca deixou de sorrir.
Encarava a vida com um abnegado optimismo que a consagrou como a Alegre Jacinta. Adorava o epíteto e estava incomensuravelmente grata a quem lho atribui. Já ninguém sabia quem fora. E quem fora nunca colheu os louros da alegria que proporcionou a Jacinta.
Ia partir agora para sempre. Fisicamente já tinha partido. Seu corpo estava agora no cemitério para enterrar. Exéquias simples como fora a sua vida.
Sentira o apelo dos anjos a chamarem-lhe a alma e predispôs-se a partir, mas tinha um último desejo. Não podia ir sem se despedir da sua casa. Assentiram nisso os seres celestes. Jacinta manifestou gratidão e foi despedir-se das pedras.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
A tarde (Leonardo)
Leonardo sentou-se no banco corrido destinado ao público no tribunal. O desconforto do banco já lhe era familiar e já nem o seu corpo reclamava qualquer encosto mais amigável.
Conhecia de cor a mecânica da audiência e interpretava o papel que, prazenteiramente, a si mesmo se impunha havia já alguns anos. Entra a juiz e ergue-se respeitosamente o corpo em sinal de adoração da deusa romana Iustitia. Senta-se a juiz e o corpo pode finalmente retomar relaxadamente o seu lugar.
Fascinava-o todo o ritual, meticulosamente encenado, que a justiça se impunha e com a qual se pretendia assegurar a sua credibilidade e superioridade sobre a sociedade. Tudo era uma peça de teatro que se desenrolava nas alturas, no Olimpo.
Entrou a primeira testemunha. Leonardo admirava a toga dos advogados. Aprumada estava, quando ainda há pouco havia sido tirada enrodilhada de uma pasta de couro gasto.
E aos costumes a testemunha disse que... O escrivão ia compilando as notas que lhe iam sendo ditadas pela juiz. Uma capa negra e desinteressante cobria-lhe os ombros. Nada que tivesse a dignidade da toga ou da beca. Não havia, aliás, um qualquer assomo de dignidade naquela vestimenta ridícula que impõem aos descontentes funcionários. Não é já castigo suficiente serem forçados a horas de inquirições de testemunhas sem que tenham qualquer interesse na causa?, pensou Leonardo. Parecem super-heróis pobres. Daqueles sem os quais o mundo não passa, mas que não têm direito sequer a uma fardeta condigna.
O testemunho foi desinteressante. A testemunha declarou nada saber. A outra testemunha faltou. Audiência suspensa.
Leonardo arrastou-se até ao piso superior.
Que sorte!, pensou. Um divórcio litigioso. A tarde não será afinal em vão.
Conhecia de cor a mecânica da audiência e interpretava o papel que, prazenteiramente, a si mesmo se impunha havia já alguns anos. Entra a juiz e ergue-se respeitosamente o corpo em sinal de adoração da deusa romana Iustitia. Senta-se a juiz e o corpo pode finalmente retomar relaxadamente o seu lugar.
Fascinava-o todo o ritual, meticulosamente encenado, que a justiça se impunha e com a qual se pretendia assegurar a sua credibilidade e superioridade sobre a sociedade. Tudo era uma peça de teatro que se desenrolava nas alturas, no Olimpo.
Entrou a primeira testemunha. Leonardo admirava a toga dos advogados. Aprumada estava, quando ainda há pouco havia sido tirada enrodilhada de uma pasta de couro gasto.
E aos costumes a testemunha disse que... O escrivão ia compilando as notas que lhe iam sendo ditadas pela juiz. Uma capa negra e desinteressante cobria-lhe os ombros. Nada que tivesse a dignidade da toga ou da beca. Não havia, aliás, um qualquer assomo de dignidade naquela vestimenta ridícula que impõem aos descontentes funcionários. Não é já castigo suficiente serem forçados a horas de inquirições de testemunhas sem que tenham qualquer interesse na causa?, pensou Leonardo. Parecem super-heróis pobres. Daqueles sem os quais o mundo não passa, mas que não têm direito sequer a uma fardeta condigna.
O testemunho foi desinteressante. A testemunha declarou nada saber. A outra testemunha faltou. Audiência suspensa.
Leonardo arrastou-se até ao piso superior.
Que sorte!, pensou. Um divórcio litigioso. A tarde não será afinal em vão.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
A partida (Carla)
Carla estava farta daquela relação que a sufocava. Tudo aquilo a enojava a um ponto que não julgara ser possível. Um cheiro a bafio incomodava-a de cada vez que tentava iniciar uma conversa com João e, invariavelmente, terminava com desmandos que mudos seriam não fosse o facto de serem gritados bem alto.
Acordou com vontade de por fim a tudo aquilo.
Não suportava mais a indefinição que impunha a si própria e começava a detestar a incapaz que albergava dentro de si.
Quem me prende?, perguntava muitas vezes a si mesma. Não! O que me prende?
Nada a prendia a não ser a inércia que o conforto vai construindo em nós até que se torne num peso demasiado grande para que o consigamos mover.
Saiu de casa e aguardou a saída de João. Retornou a casa e já tudo lhe parecia distante, como se nunca ali houvera vivido, como se aquelas paredes nunca tivessem agarrado impressões suas, fragmentos da sua vida conjugal.
Atalhou a primeira mala que alcançou. Era a mais pequena. Que se lixe!, pensou. Quem é que quer construir uma vida nova com roupas velhas?
Emparedou as quatro mudas de roupa na mala e fechou-as antes que pudessem saltar cá para fora, antes que a tentassem convencer que o seu lugar era num guarda-roupa requintado, que também tinham amigas e que injusto e traumático era para elas aquela partida.
Não quis levar mais nada que lhe lembrasse a vida medíocre que levou aqueles três insuportáveis anos.
Agarrou num papel e atabalhoadamente escreveu: não me encontrarás mais nesta casa. E partiu
Acordou com vontade de por fim a tudo aquilo.
Não suportava mais a indefinição que impunha a si própria e começava a detestar a incapaz que albergava dentro de si.
Quem me prende?, perguntava muitas vezes a si mesma. Não! O que me prende?
Nada a prendia a não ser a inércia que o conforto vai construindo em nós até que se torne num peso demasiado grande para que o consigamos mover.
Saiu de casa e aguardou a saída de João. Retornou a casa e já tudo lhe parecia distante, como se nunca ali houvera vivido, como se aquelas paredes nunca tivessem agarrado impressões suas, fragmentos da sua vida conjugal.
Atalhou a primeira mala que alcançou. Era a mais pequena. Que se lixe!, pensou. Quem é que quer construir uma vida nova com roupas velhas?
Emparedou as quatro mudas de roupa na mala e fechou-as antes que pudessem saltar cá para fora, antes que a tentassem convencer que o seu lugar era num guarda-roupa requintado, que também tinham amigas e que injusto e traumático era para elas aquela partida.
Não quis levar mais nada que lhe lembrasse a vida medíocre que levou aqueles três insuportáveis anos.
Agarrou num papel e atabalhoadamente escreveu: não me encontrarás mais nesta casa. E partiu
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Segundos de felicidade (João)
João ganhara uma bicicleta pelos anos. Lembrava-se com incontida alegria daquele dia. O padrinho e o pai haviam-no ido buscar à escola.
Que bom ver-te! Porque me viste buscar? Não é costume... - disse ao padrinho.
É dia dos teus anos! Quis fazer-te uma surpresa. Estás estupendo. Um rapagão.
E abraçou-o, querendo compensar todos os dias que não esteve com ele.
João completava 10 anos. Estava corpulento, o corpo a querer dar o salto, crescer. A voz ainda de criança denunciava-o, porém. Por vezes as atitudes também.
Vais comigo até lá a casa?, perguntou ao padrinho.
Claro que vou. Jantamos todos.
Que fixe!
E largou a correr...
João remexia-se na cadeira com uma irrequietude que não deixava ninguém indiferente.
João, pára quieto!, ralhou-lhe a mãe. Estamos à mesa.
Estou ansioso, mãe.
Então controla a ansiedade e come. Já te damos as prendas no final do jantar.
É sabido que o final de qualquer coisa que nos separa da felicidade, ainda que temporária, é um túnel espaço-temporal que parece não ter fim.
Finalmente, cantados os parabéns a preceito, as ansiadas prendas.
Um boneco articulado, cheio de músculos impossíveis de ter e com missões terríveis e sangrentas a desempenhar. Um pulover verde garrafa feito em lã pela avó, que começara dois meses antes e que escondia a malha de cada vez que o João a visitava, evitando que o João descobrisse o que há muito já sabia. Umas cartas de jogar dadas pelo pai, com a promessa de partilhar com ele muitos jogos.
E tu, padrinho?
Eu quê?
Tens um presente para mim?
O padrinho sorriu, saiu da sala e chamou-o. João levantou-se e com ele toda a família.
Um laçarote azul em cima de uma bicicleta vermelha.
Um abraço incontido, um beijo aguardado e uns segundos de felicidade que acompanharão João até à velhice.
Que bom ver-te! Porque me viste buscar? Não é costume... - disse ao padrinho.
É dia dos teus anos! Quis fazer-te uma surpresa. Estás estupendo. Um rapagão.
E abraçou-o, querendo compensar todos os dias que não esteve com ele.
João completava 10 anos. Estava corpulento, o corpo a querer dar o salto, crescer. A voz ainda de criança denunciava-o, porém. Por vezes as atitudes também.
Vais comigo até lá a casa?, perguntou ao padrinho.
Claro que vou. Jantamos todos.
Que fixe!
E largou a correr...
João remexia-se na cadeira com uma irrequietude que não deixava ninguém indiferente.
João, pára quieto!, ralhou-lhe a mãe. Estamos à mesa.
Estou ansioso, mãe.
Então controla a ansiedade e come. Já te damos as prendas no final do jantar.
É sabido que o final de qualquer coisa que nos separa da felicidade, ainda que temporária, é um túnel espaço-temporal que parece não ter fim.
Finalmente, cantados os parabéns a preceito, as ansiadas prendas.
Um boneco articulado, cheio de músculos impossíveis de ter e com missões terríveis e sangrentas a desempenhar. Um pulover verde garrafa feito em lã pela avó, que começara dois meses antes e que escondia a malha de cada vez que o João a visitava, evitando que o João descobrisse o que há muito já sabia. Umas cartas de jogar dadas pelo pai, com a promessa de partilhar com ele muitos jogos.
E tu, padrinho?
Eu quê?
Tens um presente para mim?
O padrinho sorriu, saiu da sala e chamou-o. João levantou-se e com ele toda a família.
Um laçarote azul em cima de uma bicicleta vermelha.
Um abraço incontido, um beijo aguardado e uns segundos de felicidade que acompanharão João até à velhice.
terça-feira, 17 de maio de 2011
A idade das coisas (Juvelina)
Juvelina havia perdido já a idade das coisas. Velhas lhe pareciam, velhas seriam certamente, mas não sabia ao certo quanto. Também que importância tinha. O que releva é o que ainda fazem, não o quanto já andaram, pensava ela.
Juvelina já andara muito e já fazia pouco. Menos do que queria, dizia a todos. Mais do que devia, ralhava-lhe o filho médico.
Se não faço, toldam-se-me os movimentos e aí, olha, e aí é que me podes encomendar a alma. Pede por mim a Santo Expedito.
Mãe, que tolice.
Mário sabia que as tonterias das velhas eram premonições perenes. Replicava por replicar, por ser sempre certo contrariarem os filhos as certezas dos pais, por mais certas e razoáveis que sejam.
Juvelina caminhava para os 76 e preparava a maior mudança da sua vida. Rendera-se à evidência de que a juventude se perdera quando caíra em casa faz dois meses e a perna quebrada não a deixara levantar-se. As dores dilacerantes, tornaram-se macilentas e acabaram por a adormecer num torpor do qual só despertara no dia seguinte. O hospital nada tinha de acolhedor, mas valera-lhe uma vizinha que estranhou não a ver pelo poente no terço. Não fora isso e a sua vida agora não mudaria, acabaria-se.
Empacotava agora a vida numa mala de mão, pequena porque as necessidades dos velhos vão-se reduzindo à medida que lhes cresce a idade. Também, que caramba, de que necessitaria para o local para onde ia? Umas poucas peças de roupa preta, que lhe condiziam com a idade, a viuvez e o estado de espírito e uma mão cheia de vontade de estar.
Acercou-se da porta do quarto onde o filho a esperava com uns olhos que não escondiam o desassossego. Mário agarrou-lhe a mala e amparou-lhe o braço. Achou-o trémulo, hesitante. Vamos, mãe! - incentivando-a. Vamos, anuiu ela sem que tivesse necessidade de o dizer.
Cruzaram a porta, sem certezas e sem encantos, mas com a inevitabilidade de que o amanhã seria mais difícil que o ontem.
Fechou-se o ferrolho com estrondo e partiram.
Doi-me deixar a casa vazia, disse Mário.
Quem te disse que está vazia? perguntou Juvelina. As recordações enchem os espaços e vivem as casas quando não estamos lá. Aposto que fazem agora uma reunião e vivem-se e revivem-se novamente.
Mário não a compreendia. Mas as recordações que bailavam agora na casa, entenderam aquele sinal de soltura.
Juvelina já andara muito e já fazia pouco. Menos do que queria, dizia a todos. Mais do que devia, ralhava-lhe o filho médico.
Se não faço, toldam-se-me os movimentos e aí, olha, e aí é que me podes encomendar a alma. Pede por mim a Santo Expedito.
Mãe, que tolice.
Mário sabia que as tonterias das velhas eram premonições perenes. Replicava por replicar, por ser sempre certo contrariarem os filhos as certezas dos pais, por mais certas e razoáveis que sejam.
Juvelina caminhava para os 76 e preparava a maior mudança da sua vida. Rendera-se à evidência de que a juventude se perdera quando caíra em casa faz dois meses e a perna quebrada não a deixara levantar-se. As dores dilacerantes, tornaram-se macilentas e acabaram por a adormecer num torpor do qual só despertara no dia seguinte. O hospital nada tinha de acolhedor, mas valera-lhe uma vizinha que estranhou não a ver pelo poente no terço. Não fora isso e a sua vida agora não mudaria, acabaria-se.
Empacotava agora a vida numa mala de mão, pequena porque as necessidades dos velhos vão-se reduzindo à medida que lhes cresce a idade. Também, que caramba, de que necessitaria para o local para onde ia? Umas poucas peças de roupa preta, que lhe condiziam com a idade, a viuvez e o estado de espírito e uma mão cheia de vontade de estar.
Acercou-se da porta do quarto onde o filho a esperava com uns olhos que não escondiam o desassossego. Mário agarrou-lhe a mala e amparou-lhe o braço. Achou-o trémulo, hesitante. Vamos, mãe! - incentivando-a. Vamos, anuiu ela sem que tivesse necessidade de o dizer.
Cruzaram a porta, sem certezas e sem encantos, mas com a inevitabilidade de que o amanhã seria mais difícil que o ontem.
Fechou-se o ferrolho com estrondo e partiram.
Doi-me deixar a casa vazia, disse Mário.
Quem te disse que está vazia? perguntou Juvelina. As recordações enchem os espaços e vivem as casas quando não estamos lá. Aposto que fazem agora uma reunião e vivem-se e revivem-se novamente.
Mário não a compreendia. Mas as recordações que bailavam agora na casa, entenderam aquele sinal de soltura.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Feira do Livro
Estreei-me ontem na Feira do Livro numa sessão de autógrafos do meu conto infantil "Gabriel, o anjinho mensageiro".
Foi divertido sentir a curiosidade das pessoas que olhavam o senhor sentado na mesa, sózinho, sorrindo, meio apatetado e esperando que alguém lhe caísse no regaço com um livro para autografar.
Mesmo que em duas horas só tenha autografado 4 livros, não houve verdadeira solidão naqueles minutos. Houve muita companhia cumplice e olhares entrecruzados.
Nunca percebi muito bem porque nós, leitores, baixamos os olhos quando na feira um autor nos interpela com um olhar expectante. Parece que pedimos desculpa por, desta vez, mas s+o desta vez, não comprarmos o livro.
Uma dica: os autores não mordem e adorariam dois dedos de conversa, mesmo sem livro para autografar, é que a conversa é o princípio e o móbil de tudo.
Foi divertido sentir a curiosidade das pessoas que olhavam o senhor sentado na mesa, sózinho, sorrindo, meio apatetado e esperando que alguém lhe caísse no regaço com um livro para autografar.
Mesmo que em duas horas só tenha autografado 4 livros, não houve verdadeira solidão naqueles minutos. Houve muita companhia cumplice e olhares entrecruzados.
Nunca percebi muito bem porque nós, leitores, baixamos os olhos quando na feira um autor nos interpela com um olhar expectante. Parece que pedimos desculpa por, desta vez, mas s+o desta vez, não comprarmos o livro.
Uma dica: os autores não mordem e adorariam dois dedos de conversa, mesmo sem livro para autografar, é que a conversa é o princípio e o móbil de tudo.
Crónica das coisas banais
Tendo-me iniciado na escrita, descubro agora que para me tornar melhor tenho de escrever mais. Só escrevendo mais e com maior empenho poderei escrever melhor e com outra substância.
Percebe-se isso nas crónicas diárias do MEC no Público. São crónicas de coisas banais, mas que nos fazem reflectir sobre o nosso dia-a-dia, a nossa existência.
É por isso que assumo este compromisso comigo mesmo, escrever neste blog todos os dias. Escrever uma qualquer banalidade ou sobre uma qualquer banalidade. Não é um diário (longe disso), mas é para mim, para eu melhorar, mas são todos bem-vindos.
São as minhas crónicas das coisas banais.
Percebe-se isso nas crónicas diárias do MEC no Público. São crónicas de coisas banais, mas que nos fazem reflectir sobre o nosso dia-a-dia, a nossa existência.
É por isso que assumo este compromisso comigo mesmo, escrever neste blog todos os dias. Escrever uma qualquer banalidade ou sobre uma qualquer banalidade. Não é um diário (longe disso), mas é para mim, para eu melhorar, mas são todos bem-vindos.
São as minhas crónicas das coisas banais.
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