sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A surda (Filipa)

Filipa sobressaltou-se com o som de alguém a bater vigorosamente na porta. Levantou-se meio ensonada, colocou o aparelho auditivo, vestiu o robe roxo às flores apressada e desajeitadamente e dirigiu-se ao hall de entrada.
Nova saraivada na porta anunciava que quem vinha tinha pressa.
- Quem é?
- Polícia.
- Polícia? - disse para consigo.
Colocou a corrente na porta e entreabriu. O agente demorou um segundo a perceber-lhe o intento e puxou em seguida do distintivo, exibindo-o rudemente.
Filipa abriu então a porta.
- Façam favor?, disse receosa.
- Ocorreu um homicídio no prédio e gostávamos de saber...
- Um homicídio? Mas de quem?
O agente suspirou de impaciência.
- Da sua vizinha do 2.º esquerdo.
- Da Clotilde??, e rapidamente as lágrimas lhe começaram a cair.
O agente adoçou a postura e os modos.
- Necessitamos saber se ouviu alguma coisa estranha?
- A Clotilde era ainda tão nova. Não pode ser. Não pode ser.
- Olhe, D. ...?
- Filipa. Filipa Gameiro.
- Olhe, D. Filipa, compreendemos a sua surpresa com o sucedido, mas precisamos agora que se concentre. Precisamos saber se ouviu alguma coisa.
- Não. Não ouvi nada. Estava na cama, a dormir.
O agente suspirou de impaciência novamente.
- Foi um acto violento. Uma morte a tiro. Não é possível que não tenha ouvido nada.
Filipa choramingava ainda e assoou-se com estrondo, escondendo novamente o lenço muitas vezes usado na manga da camisa de dormir.
- Eu sou quase surda e tinha tirado o aparelho para dormir.
Ilustrou a cena tirando mesmo o aparelho e exibindo-o.
Isso explica porque tivemos de bater tantas vezes, pensou o agente.

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