Zita adaptou os olhos ao negrume da noite ansiando por um vislumbre de luz na curva. Apertou mais o xaile negro contra as suas costas, cruzou os braços que se entrelaçaram na malha estreita do xaile e fincou os pés no pó. O vento fustigava-lhe as costas, mas Zita não cedia. Os olhos fixos na estrada percrustavam qualquer sinal de movimento, por mais ténue que fosse.
Começou a rodar o pé direito de tão impaciente que estava. Não dava por isso.
O vento entranhou-se-lhe na cabeça e zombava dela.
E se lhe aconteceu alguma coisa? E se lhe aconteceu alguma coisa? Não te apartes dele, Senhor! Rogo-te.
Caminhou dois passos na escuridão em direcção ao caminho. Sabia-lhe já a ausência.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A presa
Renato subiu as escadas a correr a duas e duas. Parou entre patamares, ofegante, para suster o cansaço por meio segundo e lançou-se novamente desenfreado pelas escadas acima. Empurrou a porta do terraço com violência, que cedeu facilmente, com estrondo, queixando-se do tratamento.
Ela esperava-o. Copo na mão esquerda e a direita pronta para o agarrar pelo pescoço. O beijo molhado, suculento, avivou-lhes a vontade. Firme, resoluta, Sara, puxou-o para o sofá e envolveu com as suas longas pernas. Renato sentiu que não acabavam. Na verdade, não saberia dizer quantas eram, mas juraria que mais do que um par de longas pernas o envolviam.
Sentia-se incapaz nas experientes mãos de Sara. Tudo se precipitava, como a vertigem de uma canoa num rápido de água, e Renato não estava mais no controlo. As margens serpenteavam longe. Num assomo de lucidez e de risível dignidade masculina tentou virá-la e colocá-la à sua mercê. Ledo engano. Sara sentiu as titubeantes mãos de Renato a tentar torcê-la e apertou as longas pernas em torno do tronco da sua vítima, como uma pitão asfixiando a presa. Renato desisitiu, Sara afroxou a pressão, mas não lhe largou o pescoço.
Ela esperava-o. Copo na mão esquerda e a direita pronta para o agarrar pelo pescoço. O beijo molhado, suculento, avivou-lhes a vontade. Firme, resoluta, Sara, puxou-o para o sofá e envolveu com as suas longas pernas. Renato sentiu que não acabavam. Na verdade, não saberia dizer quantas eram, mas juraria que mais do que um par de longas pernas o envolviam.
Sentia-se incapaz nas experientes mãos de Sara. Tudo se precipitava, como a vertigem de uma canoa num rápido de água, e Renato não estava mais no controlo. As margens serpenteavam longe. Num assomo de lucidez e de risível dignidade masculina tentou virá-la e colocá-la à sua mercê. Ledo engano. Sara sentiu as titubeantes mãos de Renato a tentar torcê-la e apertou as longas pernas em torno do tronco da sua vítima, como uma pitão asfixiando a presa. Renato desisitiu, Sara afroxou a pressão, mas não lhe largou o pescoço.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
A noite
Acácio fixou o olhar na chama bruxuleante da fogueira e deixou-o repousar por ali. O olhar, quase inerte, deixou-se enfeitiçar subliminarmente pela dança das pequenas chamas azuis que lambiam os grossos troncos de pinho resinoso. O crepitar sonoro e ritmado aportava a dose certa de realismo àquela cena. O cansaço tomara-o violentamente, sacudira-o e atirara-o displicentemente para cima do saco cama.
A floresta piava subtilmente a espaços largos. Acácio não ouvia, mas o resmorder baixinho das folhas secas perto do saco cama chamaram-lhe o suficiente a atenção para desviar tenuemente a cabeça. Uma salamandra, matizes vermelho fogo, passava indiferente à presença de Acácio. Luzia. Admirou-lhe a cabeça oval, olhos salientes, negros carvão. As manchas refulgiam sob a sóbria luz da fogueira.
Fechou os olhos.
A floresta piava subtilmente a espaços largos. Acácio não ouvia, mas o resmorder baixinho das folhas secas perto do saco cama chamaram-lhe o suficiente a atenção para desviar tenuemente a cabeça. Uma salamandra, matizes vermelho fogo, passava indiferente à presença de Acácio. Luzia. Admirou-lhe a cabeça oval, olhos salientes, negros carvão. As manchas refulgiam sob a sóbria luz da fogueira.
Fechou os olhos.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
A escadaria
Alice encarou a escadaria íngreme com sofrimento resiliente. A dor de burro comprimia-lhe o estômago e pensou em desistir. Ainda assim continuava a galgar os degraus dois a dois como se nada lhe pesasse nas pernas ou na alma.
A conversa que iria ter com o sócio responsável da sociedade de auditoria rodopiava-lhe no cérebro como uma valsa armada corridinho. Aquilo machucava-a. Sentia-se apoucada. Ninguém tivera a decência de lhe dar uma palavra antes das promoções.
Sou eu, iria dizer-lhe, certamente sou eu. Não sou acutilante o suficiente. Mas sou focada, esforçada, faço a minha parte como os outros.
Quase escorregou bem a meio da escadaria. A mão esquerda quase tocava o chão, mas num golpe de rins endireitou-se e continuou ao mesmo ritmo. Um gato passou ao largo. Estava quase no cimo.
Explicar-lhe-á que não tem mais de dois anos. Psicologicamente é esse o meu prazo.
Levou a mão ao peito, ofegante, mas sabia que nuinca se permitiria desistir.Os degraus continuavam a desaparecer atrás de si, com a rapidez própria de uma adolescente.
A conversa rodopiou mais uma vez e mais outra ainda.
Que tinha pena. Crescera ali, mas há sempre um momento para o salto, seja ele interno ou externo.
Chegara ao topo. Estacou. Estava incapaz de mais um passo. Olhou em volta enquanto recuperava o fôlego. Mãos nos joelhos. Ergue-se dois segundos para logo em seguida se sentar.
Sairia.
Olhou para baixo com confiança. Reiniciou o treino.
A conversa que iria ter com o sócio responsável da sociedade de auditoria rodopiava-lhe no cérebro como uma valsa armada corridinho. Aquilo machucava-a. Sentia-se apoucada. Ninguém tivera a decência de lhe dar uma palavra antes das promoções.
Sou eu, iria dizer-lhe, certamente sou eu. Não sou acutilante o suficiente. Mas sou focada, esforçada, faço a minha parte como os outros.
Quase escorregou bem a meio da escadaria. A mão esquerda quase tocava o chão, mas num golpe de rins endireitou-se e continuou ao mesmo ritmo. Um gato passou ao largo. Estava quase no cimo.
Explicar-lhe-á que não tem mais de dois anos. Psicologicamente é esse o meu prazo.
Levou a mão ao peito, ofegante, mas sabia que nuinca se permitiria desistir.Os degraus continuavam a desaparecer atrás de si, com a rapidez própria de uma adolescente.
A conversa rodopiou mais uma vez e mais outra ainda.
Que tinha pena. Crescera ali, mas há sempre um momento para o salto, seja ele interno ou externo.
Chegara ao topo. Estacou. Estava incapaz de mais um passo. Olhou em volta enquanto recuperava o fôlego. Mãos nos joelhos. Ergue-se dois segundos para logo em seguida se sentar.
Sairia.
Olhou para baixo com confiança. Reiniciou o treino.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Tens a certeza de que não me queres?
Tens a certeza de que não me queres?
A perguntou bailou na cabeça de César durante dias. Deitava-se com ela e quando acordava ainda ela lá estava, bem no fundo do seu cérebro num lugar escuro e recôndito onde uma mão imaginária não poderia alcançar.
Félix, o gato, estugou as orelhas com o estridente barulho do despertador vermelho. César mirou Cláudia ternamente, achou-a bonita, e arrastou-se até ao quarto de banho. O gato aninhou-se novamente. A água ainda morna caia-lhe com indolência sobre a cabeça mas cada gota que o alcançava repetia dolorosamente uma palavra da frase "Tens a certeza de que não me queres?"
Não tinha a certeza, que diabo. Como raio poderia ter certeza? Que certezas se têm aos 41 anos quando uma miúda de 26 nos diz "Tens a certeza de que não me queres?"
Ensaboou-se mais lentamente que o normal. Sabia-lhe bem aquela água que o envolvia como se mil mãos lhe afagassem cada poro da sua pele. Num piscar de olhos Ana colara-se-lhe ao corpo, não era mais água que lhe escorria, mas volúpia sob a forma de mulher. Um encanto alvo, duas lagoas verdes, profundas, um sorriso menino, dois botões rosados, um ventre ofegante. César beijou-a decidido, suas mãos tacteavam nervosas as costas de Ana, as pernas entrelaçaram-se longamente.
Ana mordia-lhe a orelha e sussurrava "Tens a certeza de que não me queres".
- Hum... Ainda demoras muito?
César despertou bruscamente.
- Não. Não, desculpa, saio já.
Não tinha certeza de absolutamente nada.
A perguntou bailou na cabeça de César durante dias. Deitava-se com ela e quando acordava ainda ela lá estava, bem no fundo do seu cérebro num lugar escuro e recôndito onde uma mão imaginária não poderia alcançar.
Félix, o gato, estugou as orelhas com o estridente barulho do despertador vermelho. César mirou Cláudia ternamente, achou-a bonita, e arrastou-se até ao quarto de banho. O gato aninhou-se novamente. A água ainda morna caia-lhe com indolência sobre a cabeça mas cada gota que o alcançava repetia dolorosamente uma palavra da frase "Tens a certeza de que não me queres?"
Não tinha a certeza, que diabo. Como raio poderia ter certeza? Que certezas se têm aos 41 anos quando uma miúda de 26 nos diz "Tens a certeza de que não me queres?"
Ensaboou-se mais lentamente que o normal. Sabia-lhe bem aquela água que o envolvia como se mil mãos lhe afagassem cada poro da sua pele. Num piscar de olhos Ana colara-se-lhe ao corpo, não era mais água que lhe escorria, mas volúpia sob a forma de mulher. Um encanto alvo, duas lagoas verdes, profundas, um sorriso menino, dois botões rosados, um ventre ofegante. César beijou-a decidido, suas mãos tacteavam nervosas as costas de Ana, as pernas entrelaçaram-se longamente.
Ana mordia-lhe a orelha e sussurrava "Tens a certeza de que não me queres".
- Hum... Ainda demoras muito?
César despertou bruscamente.
- Não. Não, desculpa, saio já.
Não tinha certeza de absolutamente nada.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Perdido (Sandro)
Sandro ficou por uns segundos a mirar o estabelecimento. Sentiu que havia atravessado um portal do tempo e retornara 50 anos. Tudo o que faria falta a uma casa campestre em 1950 se poderia encontrar ali. Ficou a amiudar os utensílios de barro e as almotolias, os regadores de ferro e os vasos de barro, as pequenas ferramentas de jardinagem, as grandes pás e as sacholas, os sacos de sementes e algumas viçosas mudas de plantas.
Puxou a Canon para si e focou manualmente a objectiva de 10mm. Apanhou uma perspectiva abrangente da loja e só nesse momento, pelo óculo da máquina, reparou num homem que o olhava por trás do balcão. Chamou-lhe a atenção o rosto sulcado pela vida, os olhos profundos e umas mãos grossas que claramente nunca enjeitaram a jorna.
- Boa tarde. O senhor desculpe ter tirado a fotografia, mas estou maravilhado a apreciar a sua loja.
O homem ajeitou os grandes óculos de massa e questionou:
- Posso ser-lhe útil?
- Posso ver as coisas, dar uma volta por aqui?
- Esteja à vontade.
A frase dita com grande secura deixou Artur tudo menos à vontade. Sentiu-se não querido ali, mas desvalorizou.
Mirou, remirou e "tremirou". Bateu mais umas fotos. Um regador banhado pela luz que entrava pela janela, um saco de serapilheira cheio de feijão, um cesto de verga ao lado de uma velha enxada. Sentiu-se tentado a levar alguma coisa para ajudar o negócio do velhote, mas que uso daria a qualquer uma daquelas tralhas?
- Obrigado!, lançou, enquanto sorria e saía. Não foi correspondido na saudação.
Já cá fora, analisou cuidadosamente as fotos e chegando à primeira não divisou o homem. Olhou-a melhor. E nada, todavia.
Voltou-se e olhou para a placa que encimava a porta e anunciava "Café Mirante". Ficou surpreso e tornou a entrar. Já preparava uma nova saudação quando o barulho de uma parafernália de copos e chávenas e o tilintar das colheres o invadiu. Uma mole imensa de pessoas pejava o local. Sandro sentiu-se perdido.
Puxou a Canon para si e focou manualmente a objectiva de 10mm. Apanhou uma perspectiva abrangente da loja e só nesse momento, pelo óculo da máquina, reparou num homem que o olhava por trás do balcão. Chamou-lhe a atenção o rosto sulcado pela vida, os olhos profundos e umas mãos grossas que claramente nunca enjeitaram a jorna.
- Boa tarde. O senhor desculpe ter tirado a fotografia, mas estou maravilhado a apreciar a sua loja.
O homem ajeitou os grandes óculos de massa e questionou:
- Posso ser-lhe útil?
- Posso ver as coisas, dar uma volta por aqui?
- Esteja à vontade.
A frase dita com grande secura deixou Artur tudo menos à vontade. Sentiu-se não querido ali, mas desvalorizou.
Mirou, remirou e "tremirou". Bateu mais umas fotos. Um regador banhado pela luz que entrava pela janela, um saco de serapilheira cheio de feijão, um cesto de verga ao lado de uma velha enxada. Sentiu-se tentado a levar alguma coisa para ajudar o negócio do velhote, mas que uso daria a qualquer uma daquelas tralhas?
- Obrigado!, lançou, enquanto sorria e saía. Não foi correspondido na saudação.
Já cá fora, analisou cuidadosamente as fotos e chegando à primeira não divisou o homem. Olhou-a melhor. E nada, todavia.
Voltou-se e olhou para a placa que encimava a porta e anunciava "Café Mirante". Ficou surpreso e tornou a entrar. Já preparava uma nova saudação quando o barulho de uma parafernália de copos e chávenas e o tilintar das colheres o invadiu. Uma mole imensa de pessoas pejava o local. Sandro sentiu-se perdido.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O raposinho
A mãe raposa acariciou o raposinho com o focinho e ficou a olhá-lo mais um pouco com os olhos fundos e ternos que só as mães têm. Aconchegou-lhe mais a caruma para junto do corpo e mirou o borralho com a complacência de quem sente ter a casa em ordem.
O seu dia findara. Longos são os dias de quem tem de prover ao sustento dos filhos. Não há dias frios ou quentes, escuros ou claros, chuvosos ou secos, para quem tem uma boca esfaimada que apaniguar. Nunca se lembrava dos dias em que ela própria definhava para que a cria pudesse morder um pouco de carne. O cansaço de mãe é coisa que só se sente quando a prole está criada ou em dias de abundância em que o bem estar dos filhos permite um descanso mais temporão.
Nesse dia o raposinho comera suficientemente bem para que a fome da mãe pudesse também ser saciada.
Sossegou-se-lhe o coração, encheu-se-lhe a alma dos latidos joviais e juvenis do pequeno raposo, sorriu-se-lhe o focinho com o doce resmorder do raposinho ensonado.
Chegou-lhe o seu corpo quente de mãe, cofiou-lhe o corpo com a cauda e envolveu-o. Descansou por fim.
O seu dia findara. Longos são os dias de quem tem de prover ao sustento dos filhos. Não há dias frios ou quentes, escuros ou claros, chuvosos ou secos, para quem tem uma boca esfaimada que apaniguar. Nunca se lembrava dos dias em que ela própria definhava para que a cria pudesse morder um pouco de carne. O cansaço de mãe é coisa que só se sente quando a prole está criada ou em dias de abundância em que o bem estar dos filhos permite um descanso mais temporão.
Nesse dia o raposinho comera suficientemente bem para que a fome da mãe pudesse também ser saciada.
Sossegou-se-lhe o coração, encheu-se-lhe a alma dos latidos joviais e juvenis do pequeno raposo, sorriu-se-lhe o focinho com o doce resmorder do raposinho ensonado.
Chegou-lhe o seu corpo quente de mãe, cofiou-lhe o corpo com a cauda e envolveu-o. Descansou por fim.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Fortuna (Rute)
Uma gralha grasnava na árvore em frente à janela da cozinha e arrancou um sorriso a Rute. Gostava destes animais, achava-os graciosos, bem-dispostos e, ao contrário do comum dos mortais que lhes lamentava o agoiro, as gralhas traziam-lhe fortuna. Sabia que aquele seria um dia de concretizações inesperadas.
Admirou-lhe as penas negras e luzidias. O sol reflectia-se nelas de uma forma exuberante, encadeava.
A gralha percebeu-lhe a admiração e olhou-a com inusitado interesse. Falou-lhe.
Rute deixou cair o prato que se despedaçou em dezenas de pequenos pedaços amarelos. Oscilou entre a fuga desvairada e a dúvida insanável sobre a sua sanidade ou insanidade.
Novo grasnar da gralha ecoou no ar e na cabeça de Rute um claro e sonoro "olá".
Rute fez um esgar de incredulidade e aproximou-se da janela. Sentiu o vento na cara, desejando que isso a acordasse de tudo aquilo.
- Olá! - disse Rute bem alto, desejando apenas ouvir-se a si própria.
- Olá! - retorquiu a gralha.
O balcão da cozinha serviu de apoio quando Rute sentiu as forças a faltarem-lhe nos braços.
- Como te chamas?
- Não me conheço nome, senão aqueles que os outros me dão.
Rute alcançou a custo o banco atrás de si. Sentou-se. Abanou as trémulas mãos defronte da cara para desanuviar o afogueamento que sentiu.
- E... E que nomes te dão?
- Muitos na verdade. É difícil decorá-los a todos. O mais comum é Aziaga.
- Porque vieste falar-me?
A gralha grasnou como quem ri.
- Vim agradecer-te. Enquanto todos me dão nomes feios e agoirentos, tu chamas-me Fortuna. Obrigado.
A surpresa irradiava de Rute.
- Obrigado, Fortuna, por me visitares.
- Obrigado eu, porque me amaste dando-me um nome e amando-me deste-me o dom do entendimento e da fala.
Admirou-lhe as penas negras e luzidias. O sol reflectia-se nelas de uma forma exuberante, encadeava.
A gralha percebeu-lhe a admiração e olhou-a com inusitado interesse. Falou-lhe.
Rute deixou cair o prato que se despedaçou em dezenas de pequenos pedaços amarelos. Oscilou entre a fuga desvairada e a dúvida insanável sobre a sua sanidade ou insanidade.
Novo grasnar da gralha ecoou no ar e na cabeça de Rute um claro e sonoro "olá".
Rute fez um esgar de incredulidade e aproximou-se da janela. Sentiu o vento na cara, desejando que isso a acordasse de tudo aquilo.
- Olá! - disse Rute bem alto, desejando apenas ouvir-se a si própria.
- Olá! - retorquiu a gralha.
O balcão da cozinha serviu de apoio quando Rute sentiu as forças a faltarem-lhe nos braços.
- Como te chamas?
- Não me conheço nome, senão aqueles que os outros me dão.
Rute alcançou a custo o banco atrás de si. Sentou-se. Abanou as trémulas mãos defronte da cara para desanuviar o afogueamento que sentiu.
- E... E que nomes te dão?
- Muitos na verdade. É difícil decorá-los a todos. O mais comum é Aziaga.
- Porque vieste falar-me?
A gralha grasnou como quem ri.
- Vim agradecer-te. Enquanto todos me dão nomes feios e agoirentos, tu chamas-me Fortuna. Obrigado.
A surpresa irradiava de Rute.
- Obrigado, Fortuna, por me visitares.
- Obrigado eu, porque me amaste dando-me um nome e amando-me deste-me o dom do entendimento e da fala.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
O ícone (Natalina)
Natalina congelou aquele momento com a resoluta vontade de o eternizar e replicar múltiplas vezes. Ainda a foto não tinha sido revelada e já Natalina pensava como conseguiria fazer render uma imagem tão icónica como aquela. Fez uma chamada telefónica. O toque de chamada eternizou-se, agudo, dolorosamente prolongado.
- Oui?
- Sebástien! Não imaginas o que levo comigo.
Lina pediu ao taxista que voasse. O homem espigou o seu bigode curto e fez-lhe a vontade. O Peugeot, já muito gasto, quase que se desconjunturava, mas voava, literalmente, sobre o tapete macadamizado e irregular de Paris.
- C'est ici! Merci bien.
Saiu a correr e deixou cair a mala ao sair do táxi. Por muito pouco não foi atropelada no processo. A buzinadela ecoou na sua cabeça por vários segundos.
Entrou de rompante no n.º 54 da rue d'Orsay. Galgou as escadas duas a duas. Os degraus, já muito velhos e maltratados queixavam-se abundantemente das pesadas passadas desferidas por Natalina.
Bateu na porta com tanta força que quase a deitava abaixo.
Um Sebástien, cabelo alourado e desalinhado, de maneiras suaves e passos deslizantes, surgiu expectante à porta.
- Entra, entra. Então?
Lina deixou-se cair ofegante no sofá de tecido gasto. Tentou falar.
- Olha...
E estendeu-lhe a máquina fotográfica. Sebástien ligou-a, impaciente.
- C'est pas possible. Cést pas possible. Mon Dieu.
- C'est vrai. É possível.
- C'est lui.
- É mesmo ele, sim. É ele.
- Oui?
- Sebástien! Não imaginas o que levo comigo.
Lina pediu ao taxista que voasse. O homem espigou o seu bigode curto e fez-lhe a vontade. O Peugeot, já muito gasto, quase que se desconjunturava, mas voava, literalmente, sobre o tapete macadamizado e irregular de Paris.
- C'est ici! Merci bien.
Saiu a correr e deixou cair a mala ao sair do táxi. Por muito pouco não foi atropelada no processo. A buzinadela ecoou na sua cabeça por vários segundos.
Entrou de rompante no n.º 54 da rue d'Orsay. Galgou as escadas duas a duas. Os degraus, já muito velhos e maltratados queixavam-se abundantemente das pesadas passadas desferidas por Natalina.
Bateu na porta com tanta força que quase a deitava abaixo.
Um Sebástien, cabelo alourado e desalinhado, de maneiras suaves e passos deslizantes, surgiu expectante à porta.
- Entra, entra. Então?
Lina deixou-se cair ofegante no sofá de tecido gasto. Tentou falar.
- Olha...
E estendeu-lhe a máquina fotográfica. Sebástien ligou-a, impaciente.
- C'est pas possible. Cést pas possible. Mon Dieu.
- C'est vrai. É possível.
- C'est lui.
- É mesmo ele, sim. É ele.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Esmeralda
As lágrimas corriam a quatro e quatro pela cara de Esmeralda. Sempre teve pouco controlo sobre os seus sentimentos, emocionava-se com facilidade e nunca lhe faltaram pretextos para exteriorizar as suas emoções. Fora despedida uma vez por isso, por um "sacana insensível" como lhe chamava. Ele argumentava que Esmeralda tinha comportamentos pouco condicentes com um local de trabalho. Chorava muito. Muito mais do que permitirão os normativos laborais, pelos vistos.
A razão das suas lágrimas eram um livro. De cordel. Literatura cor de rosa. Uma história cor de rosa, porque de literatura não poderemos falar naquele caso.
Uma história comovente. De arrepiar a espinha. De fazer chorar as pedras da calçada. E se até as pedras choram, quanto mais não chorará Esmeralda que tem a bolsa dos sentimentos no saco lacrimal.
Alzira conhece Romeu no funeral do pai deste. Apaixonam-se de imediato. Olhar miúdo, corpo adulto, imaturos todavia. Intrigas congeminam contra o novel casal. Atordoantes intrigas de vizinhas pouco sérias e muito invejosas. Romeu acredita e dissolve o namoro, num segundo todo o ouro é engolido pelo mercúrio. Mas os deuses do amor cogeminam e cozinham e Alzira e Romeu acabam juntos num estrondoso final de rejubilosa alegria.
Esmeralda adoraria ter vivido um amor assim. Suspirava. E chorava.
A razão das suas lágrimas eram um livro. De cordel. Literatura cor de rosa. Uma história cor de rosa, porque de literatura não poderemos falar naquele caso.
Uma história comovente. De arrepiar a espinha. De fazer chorar as pedras da calçada. E se até as pedras choram, quanto mais não chorará Esmeralda que tem a bolsa dos sentimentos no saco lacrimal.
Alzira conhece Romeu no funeral do pai deste. Apaixonam-se de imediato. Olhar miúdo, corpo adulto, imaturos todavia. Intrigas congeminam contra o novel casal. Atordoantes intrigas de vizinhas pouco sérias e muito invejosas. Romeu acredita e dissolve o namoro, num segundo todo o ouro é engolido pelo mercúrio. Mas os deuses do amor cogeminam e cozinham e Alzira e Romeu acabam juntos num estrondoso final de rejubilosa alegria.
Esmeralda adoraria ter vivido um amor assim. Suspirava. E chorava.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Bi e os anjos
Bi olhava encantada as nuvens porque passava. Não conseguia encolher a sua alegria e vira-se e revirava-se na cadeira do avião, numa excitação que só a primeira vez que se anda de avião explica.
- Mãe, olha aquela. Parece um cão. Não parece?
- Parece Bi, parece. - respondia a mãe, enquanto sofria a sétima cotovelada da viagem.
Os passageiros no banco de trás suspiravam de impaciência e de incerteza sobre quanto tempo mais toda aquela excitação iria durar.
- Bi, podes sossegar um pouco? Pára só um pouco querida. A mãe quer descansar um bocadinho.
- Como se fazem as nuvens, mãe?
- Ah.! Não sei. Espera, acho que a condensação cria os flocos...
- A condensa-quê?
- A condensação é a ... Esquece. Tens 4 anos, ainda és muito nova para estas explicações.
- E quem faz as formas das nuvens? Quem desenha os cães?
- É o vento, querida.
- Mãe, mãe. Tá ali um menino a fazer nuvens.
- Bi, não há meninos no céu. Caíam lá em baixo.
- Tá. Tá ali. Fez um carro.
- Sim, querida. Fez um carro.
- Está a dizer-me adeus. Ahhhh...
- Bi! Que foi agora?...
Rute fez um esgar de incredulidade e a sua boca pendeu para o chão durante um bom bocado.
- Bi, aquilo que passou pela janela...
- Ele tinha mesmo asas? Os anjos têm asas, não têm mãe? Têm, não têm?
- Mãe, olha aquela. Parece um cão. Não parece?
- Parece Bi, parece. - respondia a mãe, enquanto sofria a sétima cotovelada da viagem.
Os passageiros no banco de trás suspiravam de impaciência e de incerteza sobre quanto tempo mais toda aquela excitação iria durar.
- Bi, podes sossegar um pouco? Pára só um pouco querida. A mãe quer descansar um bocadinho.
- Como se fazem as nuvens, mãe?
- Ah.! Não sei. Espera, acho que a condensação cria os flocos...
- A condensa-quê?
- A condensação é a ... Esquece. Tens 4 anos, ainda és muito nova para estas explicações.
- E quem faz as formas das nuvens? Quem desenha os cães?
- É o vento, querida.
- Mãe, mãe. Tá ali um menino a fazer nuvens.
- Bi, não há meninos no céu. Caíam lá em baixo.
- Tá. Tá ali. Fez um carro.
- Sim, querida. Fez um carro.
- Está a dizer-me adeus. Ahhhh...
- Bi! Que foi agora?...
Rute fez um esgar de incredulidade e a sua boca pendeu para o chão durante um bom bocado.
- Bi, aquilo que passou pela janela...
- Ele tinha mesmo asas? Os anjos têm asas, não têm mãe? Têm, não têm?
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Nos teus braços (Ricardina)
Ricardina aninhou-se no peito de João. Sentiu os seus cabelos do peito e chegou-se mais. Adorava aquele calor húmido que lhe aconchegava a cara. Esfregou-se nele e depois novamente. Encontrou porto de abrigo e deixou-se estar.
Não se lembrava como tinha chegado ali. Claro que se lembrava como se conheceram naquela tarde de chuva miudinha intermitente, numa sessão de fotografia citadina. O blusão de cabedal dele chamou-lhe a atenção e só depois lhe fixou os olhos. Mergulhou no azul profundo dos olhos dele e naquele dia todas as suas fotos ficaram com os edifícios em segundo plano. Fez de tudo para chamar a atenção e João acabou por lha entregar de um trago só. Perdera-se pelos seus cabelos negros, reluzentes. Desde então, nunca mais se separaram.
Ricardina tentou imaginar o que seria a vida se congelasse aquele momento para sempre. A eternidade aconchegada no peito de um homem, imóvel, para sempre, sem outras necessidades, quaisquer que fossem. Um sorriso inundou-lhe a face.
Viveria uma vida sem subterfúgios, sem sofrimentos ou, sequer, sem outros prazeres que não fosse o calor de um peito masculino. Mediria o tempo pelo bater do coração de João. Esta deveria ser, aliás, a unidade de tempo universal. Menos exacta que um relógio atómico, mas com vida. Um relógio que exalava vida, que irradiava calor, que supria todas as necessidades mundanas de Ricardina.
Aninhou-se ainda um pouco mais e caiu nos braços de Morfeu.
sábado, 7 de abril de 2012
Mulher de rua (Isaura)
"Não queiras vir por aqui."
A interjeição tolhia os demais pensamentos de Isaura, secava-lhe as fontes de raciocínio.
"Não queiras vir por aqui."
A angústia daquela frase, dita em pungente súplica a Isaura, não fizera ainda vinte e quatro horas, tornava definitivo o caminho e irreversível a resolução de Isaura. Faria exactamente o contrário.
- Procuro o Pedro.
O barman olhou-a com interesse. Tomou o seu tempo a amiudá-la.
- Quem quer falar-lhe?
- Isaura.
- Que lhe queres?
- Assunto da rua.
O barman sorriu e olhou-a com redobrado interesse. Saiu pela copa e demorou-se dois minutos. Dois nervosos minutos para Isaura.
Pedro chegou de cara fechada.
- Diz!
- Quero trabalho.
- Pensei que tinhas falado com a idiota da Arlete.
- Falei. Disse-me que não era caminho para mim.
- E estás aqui a fazer o quê, então?
- À procura do que comer.
Pedro riu-se alarvemente da ironia.
- Começas amanhã. Não tolero atrasos. Se me escondes dinheiro, desfiguro-te. As regras são simples e não te tornarei a avisar.
Isaura saiu dali mulher de rua.
A interjeição tolhia os demais pensamentos de Isaura, secava-lhe as fontes de raciocínio.
"Não queiras vir por aqui."
A angústia daquela frase, dita em pungente súplica a Isaura, não fizera ainda vinte e quatro horas, tornava definitivo o caminho e irreversível a resolução de Isaura. Faria exactamente o contrário.
- Procuro o Pedro.
O barman olhou-a com interesse. Tomou o seu tempo a amiudá-la.
- Quem quer falar-lhe?
- Isaura.
- Que lhe queres?
- Assunto da rua.
O barman sorriu e olhou-a com redobrado interesse. Saiu pela copa e demorou-se dois minutos. Dois nervosos minutos para Isaura.
Pedro chegou de cara fechada.
- Diz!
- Quero trabalho.
- Pensei que tinhas falado com a idiota da Arlete.
- Falei. Disse-me que não era caminho para mim.
- E estás aqui a fazer o quê, então?
- À procura do que comer.
Pedro riu-se alarvemente da ironia.
- Começas amanhã. Não tolero atrasos. Se me escondes dinheiro, desfiguro-te. As regras são simples e não te tornarei a avisar.
Isaura saiu dali mulher de rua.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
O reflexo (Anselmo)
Anselmo recostou-se, desalentado, derrotado. Não sentia sequer forças para se revoltar com tudo aquilo. Um suor frio desceu-lhe pelo corpo inerte. Remexeu-se. A carta de Leonor caiu-lhe das mãos. Aninhou-se e caiu a primeira lágrima. Depois outra. E outra ainda.
Não dera verdadeiramente pelo tempo passar. Varou a noite de um salto só, sem que os olhos se fechassem verdadeiramente. A claridade, pouco clarividente ainda, de uma gélida manhã de Janeiro, começava a querer anunciar-se.
Necessitou de um impulso do espírito para rodar os pés para o chão. Passos pequenos, hesitantes, incertos, pouco firmes. O caminho para a cozinha pareceu-lhe dolorosamente comprido. Tentou-se a parar, duas vezes, mas uma ténue, mas suficiente, resolução fez-se notar.
Tinha agora mais frio.
As ideias começaram a rodopiar-lhe na cabeça. Primeiro devagar, depois mais depressa, depois vertiginosa e perigosamente depressa. Sentiu-se no poço da morte. Experimentou uma certa adrenalina nessa vertigem negra que lhe afunilava o pensamento. Não sentiu que tivesse aberto a gaveta. Picou-se no bico da faca. Rodopiou-a, mirou-se no reflexo espelhado. Do outro lado estava já um ser sem alma. Cravou o seu destino.
Não dera verdadeiramente pelo tempo passar. Varou a noite de um salto só, sem que os olhos se fechassem verdadeiramente. A claridade, pouco clarividente ainda, de uma gélida manhã de Janeiro, começava a querer anunciar-se.
Necessitou de um impulso do espírito para rodar os pés para o chão. Passos pequenos, hesitantes, incertos, pouco firmes. O caminho para a cozinha pareceu-lhe dolorosamente comprido. Tentou-se a parar, duas vezes, mas uma ténue, mas suficiente, resolução fez-se notar.
Tinha agora mais frio.
As ideias começaram a rodopiar-lhe na cabeça. Primeiro devagar, depois mais depressa, depois vertiginosa e perigosamente depressa. Sentiu-se no poço da morte. Experimentou uma certa adrenalina nessa vertigem negra que lhe afunilava o pensamento. Não sentiu que tivesse aberto a gaveta. Picou-se no bico da faca. Rodopiou-a, mirou-se no reflexo espelhado. Do outro lado estava já um ser sem alma. Cravou o seu destino.
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