segunda-feira, 25 de junho de 2012

O ícone (Natalina)

Natalina congelou aquele momento com a resoluta vontade de o eternizar e replicar múltiplas vezes. Ainda a foto não tinha sido revelada e já Natalina pensava como conseguiria fazer render uma imagem tão icónica como aquela. Fez uma chamada telefónica. O toque de chamada eternizou-se, agudo, dolorosamente prolongado.
- Oui?
- Sebástien! Não imaginas o que levo comigo.
Lina pediu ao taxista que voasse. O homem espigou o seu bigode curto e fez-lhe a vontade. O Peugeot, já muito gasto, quase que se desconjunturava, mas voava, literalmente, sobre o tapete macadamizado e irregular de Paris.
- C'est ici! Merci bien.
Saiu a correr e deixou cair a mala ao sair do táxi. Por muito pouco não foi atropelada no processo. A buzinadela ecoou na sua cabeça por vários segundos.
Entrou de rompante no n.º 54 da rue d'Orsay. Galgou as escadas duas a duas. Os degraus, já muito velhos e maltratados queixavam-se abundantemente das pesadas passadas desferidas por Natalina.
Bateu na porta com tanta força que quase a deitava abaixo.
Um Sebástien, cabelo alourado e desalinhado, de maneiras suaves e passos deslizantes, surgiu expectante à porta.
- Entra, entra. Então?
Lina deixou-se cair ofegante no sofá de tecido gasto. Tentou falar.
- Olha...
E estendeu-lhe a máquina fotográfica. Sebástien ligou-a, impaciente.
- C'est pas possible. Cést pas possible. Mon Dieu.
- C'est vrai. É possível.
- C'est lui.
- É mesmo ele, sim. É ele.

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