quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fortuna (Rute)

Uma gralha grasnava na árvore em frente à janela da cozinha e arrancou um sorriso a Rute. Gostava destes animais, achava-os graciosos, bem-dispostos e, ao contrário do comum dos mortais que lhes lamentava o agoiro, as gralhas traziam-lhe fortuna. Sabia que aquele seria um dia de concretizações inesperadas.
Admirou-lhe as penas negras e luzidias. O sol reflectia-se nelas de uma forma exuberante, encadeava.
A gralha percebeu-lhe a admiração e olhou-a com inusitado interesse. Falou-lhe.
Rute deixou cair o prato que se despedaçou em dezenas de pequenos pedaços amarelos. Oscilou entre a fuga desvairada e a dúvida insanável sobre a sua sanidade ou insanidade.
Novo grasnar da gralha ecoou no ar e na cabeça de Rute um claro e sonoro "olá".
Rute fez um esgar de incredulidade e aproximou-se da janela. Sentiu o vento na cara, desejando que isso a acordasse de tudo aquilo.
- Olá! - disse Rute bem alto, desejando apenas ouvir-se a si própria.
- Olá! - retorquiu a gralha.
O balcão da cozinha serviu de apoio quando Rute sentiu as forças a faltarem-lhe nos braços.
- Como te chamas?
- Não me conheço nome, senão aqueles que os outros me dão.
Rute alcançou a custo o banco atrás de si. Sentou-se. Abanou as trémulas mãos defronte da cara para desanuviar o afogueamento que sentiu.
- E... E que nomes te dão?
- Muitos na verdade. É difícil decorá-los a todos. O mais comum é Aziaga.
- Porque vieste falar-me?
A gralha grasnou como quem ri.
- Vim agradecer-te. Enquanto todos me dão nomes feios e agoirentos, tu chamas-me Fortuna. Obrigado.
A surpresa irradiava de Rute.
- Obrigado, Fortuna, por me visitares.
- Obrigado eu, porque me amaste dando-me um nome e amando-me deste-me o dom do entendimento e da fala.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O ícone (Natalina)

Natalina congelou aquele momento com a resoluta vontade de o eternizar e replicar múltiplas vezes. Ainda a foto não tinha sido revelada e já Natalina pensava como conseguiria fazer render uma imagem tão icónica como aquela. Fez uma chamada telefónica. O toque de chamada eternizou-se, agudo, dolorosamente prolongado.
- Oui?
- Sebástien! Não imaginas o que levo comigo.
Lina pediu ao taxista que voasse. O homem espigou o seu bigode curto e fez-lhe a vontade. O Peugeot, já muito gasto, quase que se desconjunturava, mas voava, literalmente, sobre o tapete macadamizado e irregular de Paris.
- C'est ici! Merci bien.
Saiu a correr e deixou cair a mala ao sair do táxi. Por muito pouco não foi atropelada no processo. A buzinadela ecoou na sua cabeça por vários segundos.
Entrou de rompante no n.º 54 da rue d'Orsay. Galgou as escadas duas a duas. Os degraus, já muito velhos e maltratados queixavam-se abundantemente das pesadas passadas desferidas por Natalina.
Bateu na porta com tanta força que quase a deitava abaixo.
Um Sebástien, cabelo alourado e desalinhado, de maneiras suaves e passos deslizantes, surgiu expectante à porta.
- Entra, entra. Então?
Lina deixou-se cair ofegante no sofá de tecido gasto. Tentou falar.
- Olha...
E estendeu-lhe a máquina fotográfica. Sebástien ligou-a, impaciente.
- C'est pas possible. Cést pas possible. Mon Dieu.
- C'est vrai. É possível.
- C'est lui.
- É mesmo ele, sim. É ele.