quinta-feira, 26 de abril de 2012
Nos teus braços (Ricardina)
Ricardina aninhou-se no peito de João. Sentiu os seus cabelos do peito e chegou-se mais. Adorava aquele calor húmido que lhe aconchegava a cara. Esfregou-se nele e depois novamente. Encontrou porto de abrigo e deixou-se estar.
Não se lembrava como tinha chegado ali. Claro que se lembrava como se conheceram naquela tarde de chuva miudinha intermitente, numa sessão de fotografia citadina. O blusão de cabedal dele chamou-lhe a atenção e só depois lhe fixou os olhos. Mergulhou no azul profundo dos olhos dele e naquele dia todas as suas fotos ficaram com os edifícios em segundo plano. Fez de tudo para chamar a atenção e João acabou por lha entregar de um trago só. Perdera-se pelos seus cabelos negros, reluzentes. Desde então, nunca mais se separaram.
Ricardina tentou imaginar o que seria a vida se congelasse aquele momento para sempre. A eternidade aconchegada no peito de um homem, imóvel, para sempre, sem outras necessidades, quaisquer que fossem. Um sorriso inundou-lhe a face.
Viveria uma vida sem subterfúgios, sem sofrimentos ou, sequer, sem outros prazeres que não fosse o calor de um peito masculino. Mediria o tempo pelo bater do coração de João. Esta deveria ser, aliás, a unidade de tempo universal. Menos exacta que um relógio atómico, mas com vida. Um relógio que exalava vida, que irradiava calor, que supria todas as necessidades mundanas de Ricardina.
Aninhou-se ainda um pouco mais e caiu nos braços de Morfeu.
sábado, 7 de abril de 2012
Mulher de rua (Isaura)
"Não queiras vir por aqui."
A interjeição tolhia os demais pensamentos de Isaura, secava-lhe as fontes de raciocínio.
"Não queiras vir por aqui."
A angústia daquela frase, dita em pungente súplica a Isaura, não fizera ainda vinte e quatro horas, tornava definitivo o caminho e irreversível a resolução de Isaura. Faria exactamente o contrário.
- Procuro o Pedro.
O barman olhou-a com interesse. Tomou o seu tempo a amiudá-la.
- Quem quer falar-lhe?
- Isaura.
- Que lhe queres?
- Assunto da rua.
O barman sorriu e olhou-a com redobrado interesse. Saiu pela copa e demorou-se dois minutos. Dois nervosos minutos para Isaura.
Pedro chegou de cara fechada.
- Diz!
- Quero trabalho.
- Pensei que tinhas falado com a idiota da Arlete.
- Falei. Disse-me que não era caminho para mim.
- E estás aqui a fazer o quê, então?
- À procura do que comer.
Pedro riu-se alarvemente da ironia.
- Começas amanhã. Não tolero atrasos. Se me escondes dinheiro, desfiguro-te. As regras são simples e não te tornarei a avisar.
Isaura saiu dali mulher de rua.
A interjeição tolhia os demais pensamentos de Isaura, secava-lhe as fontes de raciocínio.
"Não queiras vir por aqui."
A angústia daquela frase, dita em pungente súplica a Isaura, não fizera ainda vinte e quatro horas, tornava definitivo o caminho e irreversível a resolução de Isaura. Faria exactamente o contrário.
- Procuro o Pedro.
O barman olhou-a com interesse. Tomou o seu tempo a amiudá-la.
- Quem quer falar-lhe?
- Isaura.
- Que lhe queres?
- Assunto da rua.
O barman sorriu e olhou-a com redobrado interesse. Saiu pela copa e demorou-se dois minutos. Dois nervosos minutos para Isaura.
Pedro chegou de cara fechada.
- Diz!
- Quero trabalho.
- Pensei que tinhas falado com a idiota da Arlete.
- Falei. Disse-me que não era caminho para mim.
- E estás aqui a fazer o quê, então?
- À procura do que comer.
Pedro riu-se alarvemente da ironia.
- Começas amanhã. Não tolero atrasos. Se me escondes dinheiro, desfiguro-te. As regras são simples e não te tornarei a avisar.
Isaura saiu dali mulher de rua.
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