sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mini-conto de Natal

Maria bem sabia o que tinha para oferecer a seu filho naquela noite. Sabia os armários vazios e escuros, tal como os bolsos, e nada mais lhe sobrava que um pouco de cereais e leite e um pedaço de pão de ontem.
Pedro não lhe adivinhou os pensamentos tristes, mas perguntou-lhe de forma viva "Mãe, posso comer cereais como ontem?".
Maria limpou dissimuladamente a lágrima, fantasiou um meio sorriso e quase gritou "Claro que sim".
- Tu não comes, mãe?
- Não tenho fome.
- Sabes, fiz um amigo novo na escola hoje.
- Que bom.
- Nunca o tinha visto por lá. Perguntei se era novo ali. Disse-me que já não se lembrava de ser novo. Foi estranho.
- Realmente... E falaram de mais quê?
- Do Natal, claro. Falta uma semana e já ando nervoso só de pensar.
Maria remexeu-se nervosamente na cadeira.
- Ele disse-me que o Natal traz sempre coisas boas aos que merecem e aos que esperam coisas grandiosas.
- Pedro, que idade tem esse...?
- Gabriel!
- Que idade tem esse Gabriel? Essa é uma conversa muito adulta.
- Não sei. Dez anos, como eu.
- Que mais te disse?
- Que traz sempre boas notícias. Que a abundância é inata a quem tem esperança.
Maria levantou-se. O seu estômago reclamava também uma dose (ainda que menor) de sustento.
- Palavras bonitas e vazias.
Abriu o armário e abafou um grito de surpresa. O interior reluzia ofuscante pleno de latas e embalagens de comida.
- Mãe, o Gabriel disse-me que hojes ias perceber o que ele disse. Eu é que não percebi nada.