segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Perdido (Sandro)

Sandro ficou por uns segundos a mirar o estabelecimento. Sentiu que havia atravessado um portal do tempo e retornara 50 anos. Tudo o que faria falta a uma casa campestre em 1950 se poderia encontrar ali. Ficou a amiudar os utensílios de barro e as almotolias, os regadores de ferro e os vasos de barro, as pequenas ferramentas de jardinagem, as grandes pás e as sacholas, os sacos de sementes e algumas viçosas mudas de plantas.
Puxou a Canon para si e focou manualmente a objectiva de 10mm. Apanhou uma perspectiva abrangente da loja e só nesse momento, pelo óculo da máquina, reparou num homem que o olhava por trás do balcão. Chamou-lhe a atenção o rosto sulcado pela vida, os olhos profundos e umas mãos grossas que claramente nunca enjeitaram a jorna.
- Boa tarde. O senhor desculpe ter tirado a fotografia, mas estou maravilhado a apreciar a sua loja.
O homem ajeitou os grandes óculos de massa e questionou:
- Posso ser-lhe útil?
- Posso ver as coisas, dar uma volta por aqui?
- Esteja à vontade.
A frase dita com grande secura deixou Artur tudo menos à vontade. Sentiu-se não querido ali, mas desvalorizou.
Mirou, remirou e "tremirou". Bateu mais umas fotos. Um regador banhado pela luz que entrava pela janela, um saco de serapilheira cheio de feijão,  um cesto de verga ao lado de uma velha enxada. Sentiu-se tentado a levar alguma coisa para ajudar o negócio do velhote, mas que uso daria a qualquer uma daquelas tralhas?
- Obrigado!, lançou, enquanto sorria e saía. Não foi correspondido na saudação.
Já cá fora, analisou cuidadosamente as fotos e chegando à primeira não divisou o homem. Olhou-a melhor. E nada, todavia.
Voltou-se e olhou para a placa que encimava a porta e anunciava "Café Mirante". Ficou surpreso e tornou a entrar. Já preparava uma nova saudação quando o barulho de uma parafernália de copos e chávenas e o tilintar das colheres o invadiu. Uma mole imensa de pessoas pejava o local. Sandro sentiu-se perdido.