sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A tua mãe...

Adorava quando o passo apressado e ritmado ecoava pelo pátio interior. Artur aprendeu a conhecer os passos do pai há anos atrás e adivinhava-lhe o humor pelo ritmo e profundidade da passada. Toque seco do calcanhar no chão de mármore, resolução. Arrastado, cansaço satisfeito. Encorpado, com todo o pé assente no chão, realização. Apressado, inquietação. Sussurrante, desilusão. O toque dos sapatos de ponta redonda no mármore riscado ficou a macerar nos ouvidos de Artur. Um barulho profundo, estranhamente irregular, como se houvesse uma dissintonia entre os lados esquerdo e direito do corpo. Aquilo inquietou-o e levantou instantaneamente a cabeça do papel onde tentava inutilmente desenhar uma figura geométrica. Havia tristeza naquele toque grave que lhe ofendia o ouvido direito e algo que não conseguia divisar naqueloutro que lhe enchia o ouvido esquerdo. Sentiu o impulso para se levantar e arrastou a cadeira ruidosamente. O toque pesado e arrastado da passada do pai feriu-lhe a alma. Sentiu-a fender, como se o abrissem dolorosamente com um sabre de lâmina romba e mal afiada. Chegou à porta a tempo de ouvir o dramático bater do calcanhar no chão, mesmo antes de a porta se abrir. Sabia bem o que aí vinha. O pai engoliu em seco antes de se precipitar para ele. - A tua mãe...