Zita adaptou os olhos ao negrume da noite ansiando por um vislumbre de luz na curva. Apertou mais o xaile negro contra as suas costas, cruzou os braços que se entrelaçaram na malha estreita do xaile e fincou os pés no pó. O vento fustigava-lhe as costas, mas Zita não cedia. Os olhos fixos na estrada percrustavam qualquer sinal de movimento, por mais ténue que fosse.
Começou a rodar o pé direito de tão impaciente que estava. Não dava por isso.
O vento entranhou-se-lhe na cabeça e zombava dela.
E se lhe aconteceu alguma coisa? E se lhe aconteceu alguma coisa? Não te apartes dele, Senhor! Rogo-te.
Caminhou dois passos na escuridão em direcção ao caminho. Sabia-lhe já a ausência.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A presa
Renato subiu as escadas a correr a duas e duas. Parou entre patamares, ofegante, para suster o cansaço por meio segundo e lançou-se novamente desenfreado pelas escadas acima. Empurrou a porta do terraço com violência, que cedeu facilmente, com estrondo, queixando-se do tratamento.
Ela esperava-o. Copo na mão esquerda e a direita pronta para o agarrar pelo pescoço. O beijo molhado, suculento, avivou-lhes a vontade. Firme, resoluta, Sara, puxou-o para o sofá e envolveu com as suas longas pernas. Renato sentiu que não acabavam. Na verdade, não saberia dizer quantas eram, mas juraria que mais do que um par de longas pernas o envolviam.
Sentia-se incapaz nas experientes mãos de Sara. Tudo se precipitava, como a vertigem de uma canoa num rápido de água, e Renato não estava mais no controlo. As margens serpenteavam longe. Num assomo de lucidez e de risível dignidade masculina tentou virá-la e colocá-la à sua mercê. Ledo engano. Sara sentiu as titubeantes mãos de Renato a tentar torcê-la e apertou as longas pernas em torno do tronco da sua vítima, como uma pitão asfixiando a presa. Renato desisitiu, Sara afroxou a pressão, mas não lhe largou o pescoço.
Ela esperava-o. Copo na mão esquerda e a direita pronta para o agarrar pelo pescoço. O beijo molhado, suculento, avivou-lhes a vontade. Firme, resoluta, Sara, puxou-o para o sofá e envolveu com as suas longas pernas. Renato sentiu que não acabavam. Na verdade, não saberia dizer quantas eram, mas juraria que mais do que um par de longas pernas o envolviam.
Sentia-se incapaz nas experientes mãos de Sara. Tudo se precipitava, como a vertigem de uma canoa num rápido de água, e Renato não estava mais no controlo. As margens serpenteavam longe. Num assomo de lucidez e de risível dignidade masculina tentou virá-la e colocá-la à sua mercê. Ledo engano. Sara sentiu as titubeantes mãos de Renato a tentar torcê-la e apertou as longas pernas em torno do tronco da sua vítima, como uma pitão asfixiando a presa. Renato desisitiu, Sara afroxou a pressão, mas não lhe largou o pescoço.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
A noite
Acácio fixou o olhar na chama bruxuleante da fogueira e deixou-o repousar por ali. O olhar, quase inerte, deixou-se enfeitiçar subliminarmente pela dança das pequenas chamas azuis que lambiam os grossos troncos de pinho resinoso. O crepitar sonoro e ritmado aportava a dose certa de realismo àquela cena. O cansaço tomara-o violentamente, sacudira-o e atirara-o displicentemente para cima do saco cama.
A floresta piava subtilmente a espaços largos. Acácio não ouvia, mas o resmorder baixinho das folhas secas perto do saco cama chamaram-lhe o suficiente a atenção para desviar tenuemente a cabeça. Uma salamandra, matizes vermelho fogo, passava indiferente à presença de Acácio. Luzia. Admirou-lhe a cabeça oval, olhos salientes, negros carvão. As manchas refulgiam sob a sóbria luz da fogueira.
Fechou os olhos.
A floresta piava subtilmente a espaços largos. Acácio não ouvia, mas o resmorder baixinho das folhas secas perto do saco cama chamaram-lhe o suficiente a atenção para desviar tenuemente a cabeça. Uma salamandra, matizes vermelho fogo, passava indiferente à presença de Acácio. Luzia. Admirou-lhe a cabeça oval, olhos salientes, negros carvão. As manchas refulgiam sob a sóbria luz da fogueira.
Fechou os olhos.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
A escadaria
Alice encarou a escadaria íngreme com sofrimento resiliente. A dor de burro comprimia-lhe o estômago e pensou em desistir. Ainda assim continuava a galgar os degraus dois a dois como se nada lhe pesasse nas pernas ou na alma.
A conversa que iria ter com o sócio responsável da sociedade de auditoria rodopiava-lhe no cérebro como uma valsa armada corridinho. Aquilo machucava-a. Sentia-se apoucada. Ninguém tivera a decência de lhe dar uma palavra antes das promoções.
Sou eu, iria dizer-lhe, certamente sou eu. Não sou acutilante o suficiente. Mas sou focada, esforçada, faço a minha parte como os outros.
Quase escorregou bem a meio da escadaria. A mão esquerda quase tocava o chão, mas num golpe de rins endireitou-se e continuou ao mesmo ritmo. Um gato passou ao largo. Estava quase no cimo.
Explicar-lhe-á que não tem mais de dois anos. Psicologicamente é esse o meu prazo.
Levou a mão ao peito, ofegante, mas sabia que nuinca se permitiria desistir.Os degraus continuavam a desaparecer atrás de si, com a rapidez própria de uma adolescente.
A conversa rodopiou mais uma vez e mais outra ainda.
Que tinha pena. Crescera ali, mas há sempre um momento para o salto, seja ele interno ou externo.
Chegara ao topo. Estacou. Estava incapaz de mais um passo. Olhou em volta enquanto recuperava o fôlego. Mãos nos joelhos. Ergue-se dois segundos para logo em seguida se sentar.
Sairia.
Olhou para baixo com confiança. Reiniciou o treino.
A conversa que iria ter com o sócio responsável da sociedade de auditoria rodopiava-lhe no cérebro como uma valsa armada corridinho. Aquilo machucava-a. Sentia-se apoucada. Ninguém tivera a decência de lhe dar uma palavra antes das promoções.
Sou eu, iria dizer-lhe, certamente sou eu. Não sou acutilante o suficiente. Mas sou focada, esforçada, faço a minha parte como os outros.
Quase escorregou bem a meio da escadaria. A mão esquerda quase tocava o chão, mas num golpe de rins endireitou-se e continuou ao mesmo ritmo. Um gato passou ao largo. Estava quase no cimo.
Explicar-lhe-á que não tem mais de dois anos. Psicologicamente é esse o meu prazo.
Levou a mão ao peito, ofegante, mas sabia que nuinca se permitiria desistir.Os degraus continuavam a desaparecer atrás de si, com a rapidez própria de uma adolescente.
A conversa rodopiou mais uma vez e mais outra ainda.
Que tinha pena. Crescera ali, mas há sempre um momento para o salto, seja ele interno ou externo.
Chegara ao topo. Estacou. Estava incapaz de mais um passo. Olhou em volta enquanto recuperava o fôlego. Mãos nos joelhos. Ergue-se dois segundos para logo em seguida se sentar.
Sairia.
Olhou para baixo com confiança. Reiniciou o treino.
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