sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A escadaria

Alice encarou a escadaria íngreme com sofrimento resiliente. A dor de burro comprimia-lhe o estômago e pensou em desistir. Ainda assim continuava a galgar os degraus dois a dois como se nada lhe pesasse nas pernas ou na alma.
A conversa que iria ter com o sócio responsável da sociedade de auditoria rodopiava-lhe no cérebro como uma valsa armada corridinho. Aquilo machucava-a. Sentia-se apoucada. Ninguém tivera a decência de lhe dar uma palavra antes das promoções.
Sou eu, iria dizer-lhe, certamente sou eu. Não sou acutilante o suficiente. Mas sou focada, esforçada, faço a minha parte como os outros.
Quase escorregou bem a meio da escadaria. A mão esquerda quase tocava o chão, mas num golpe de rins endireitou-se e continuou ao mesmo ritmo. Um gato passou ao largo. Estava quase no cimo.
Explicar-lhe-á que não tem mais de dois anos. Psicologicamente é esse o meu prazo.
Levou a mão ao peito, ofegante, mas sabia que nuinca se permitiria desistir.Os degraus continuavam a desaparecer atrás de si, com a rapidez própria de uma adolescente.
A conversa rodopiou mais uma vez e mais outra ainda.
Que tinha pena. Crescera ali, mas há sempre um momento para o salto, seja ele interno ou externo.
Chegara ao topo. Estacou. Estava incapaz de mais um passo. Olhou em volta enquanto recuperava o fôlego. Mãos nos joelhos. Ergue-se dois segundos para logo em seguida se sentar.
Sairia.
Olhou para baixo com confiança. Reiniciou o treino.

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