- Zé, quanto tempo? Zééé!!!
- Sim.
- Quanto tempo?
- Hum... 15 minutos.
- Bolas, que diabo, Zé. Não te disse que me avisasses quando passassem 10 minutos? Importas-te de me dar atenção.
- Sim, querida.
- Deixa essa porcaria do aviãozinho militar e vem dar-me uma ajuda com isto.
- Vou já! Já, já.
...
- Zééé!!! Eu mando essa coisa pela janela a ver se voa. Ouviste?
- Já cá estou. Não estejas tão aborrecida.
- Aborrecida?? Caramba! Uma coisa simples. Avisa-me quando passarem 10 minutos. Passaram 15 e se não te tivesse dito nada, tu nada me dizias. Olha para isto. Murchou. Sabes que abomino suflé murcho. Que mau aspecto. Que vão eles dizer?
- Querida, niguém vem cá por causa do teu suflé, mas sim pela tua companhia...
[o Zé dormiu na sala nesse dia]
terça-feira, 31 de maio de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
A curva perfeita (Eduardo)
Eduardo pegou no carrinho de rolamentos, enrolou a corda em volta da mão, e recomeçou a caminhada ladeira acima.
O corpo moído implorava-lhe que parasse, nem que fosse por breves instantes, por alguns secos minutos em que não fosse chocalhado, enrodilhado, estatelado, rebolado e qualquer outro enxovalho verbal terminado em ado. Mas impaciência do cérebro de Eduardo pela imperfeição impunha-se, teimosamente, a todos os pedidos de auxílio que os seus braços, tronco e pernas faziam.
Tenho de fazer a curva mais larga. Tenho de fazer um semi-círculo mais perfeito. Tenho de travar um pouco antes e largar ao meio da curva.
Na sua cabeça tudo girava em torno daquela curva. Assassina. Em onze tentativas, estatelara-se aí por cinco vezes. Todas com estrondo. Todas dolorosas, para o corpo e para a alma. Todas lhe aumentavam a tenacidade.
Olhava a descida com absoluta determinação. Mentalmente reproduziu todos os passos daquela viagem vertiginosa a quase 20 km/hora.
Descida com impulso ligeiro para não perder o controlo logo no início, desvio para a direita por causa do buraco, desvio à esquerda para evitar o asfalto levantado, cheiro de travão para a trajectória perfeita naquela curva à esquerda. Oito segundos de pura adrenalina. Não se lembrava sequer de respirar durante a descida.
Num ímpeto, lançou-se, o buraco apareceu-lhe muito em cima, desvio à direita e logo à esquerda, eis a curva, travão, foi demais, oscilação das rodas traseiras, curva fora da rota, guinada no guiador, o corpo para a direita, o carro levanta as rodas do lado esquerdo, mando o corpo para a esquerda, a curva desaparece atrás de si e corta a meta imaginária em extâse.
Zé, quanto tempo?
Âh??
Quanto tempo?
Desculpa! Distraí-me.
Eduardo sobe a ladeira resmungando contra o retardado do primo. O corpo moído pede-lhe que pare.
O corpo moído implorava-lhe que parasse, nem que fosse por breves instantes, por alguns secos minutos em que não fosse chocalhado, enrodilhado, estatelado, rebolado e qualquer outro enxovalho verbal terminado em ado. Mas impaciência do cérebro de Eduardo pela imperfeição impunha-se, teimosamente, a todos os pedidos de auxílio que os seus braços, tronco e pernas faziam.
Tenho de fazer a curva mais larga. Tenho de fazer um semi-círculo mais perfeito. Tenho de travar um pouco antes e largar ao meio da curva.
Na sua cabeça tudo girava em torno daquela curva. Assassina. Em onze tentativas, estatelara-se aí por cinco vezes. Todas com estrondo. Todas dolorosas, para o corpo e para a alma. Todas lhe aumentavam a tenacidade.
Olhava a descida com absoluta determinação. Mentalmente reproduziu todos os passos daquela viagem vertiginosa a quase 20 km/hora.
Descida com impulso ligeiro para não perder o controlo logo no início, desvio para a direita por causa do buraco, desvio à esquerda para evitar o asfalto levantado, cheiro de travão para a trajectória perfeita naquela curva à esquerda. Oito segundos de pura adrenalina. Não se lembrava sequer de respirar durante a descida.
Num ímpeto, lançou-se, o buraco apareceu-lhe muito em cima, desvio à direita e logo à esquerda, eis a curva, travão, foi demais, oscilação das rodas traseiras, curva fora da rota, guinada no guiador, o corpo para a direita, o carro levanta as rodas do lado esquerdo, mando o corpo para a esquerda, a curva desaparece atrás de si e corta a meta imaginária em extâse.
Zé, quanto tempo?
Âh??
Quanto tempo?
Desculpa! Distraí-me.
Eduardo sobe a ladeira resmungando contra o retardado do primo. O corpo moído pede-lhe que pare.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Uma lágrima de felicidade (Renata)
Renata apreciava o momento em que o filho empunhava, compenetrado, a vela de baptismo que acendia no círio. Não lhe parecia crível que se tivessem passado catorze anos na vida dos dois. Frederico era agora um homem. Alto, encorpado, o maior da família. Mas o que a deixava mais satisfeita era sentir que se tinha tornado num adulto, consciente, responsável, ciente das suas obrigações. Estava satisfeita com a sua obra de educadora.
Parabéns pelo teu filho! Está tão garboso.
Obrigado, Margarida. Estava agora a reflectir nisso mesmo. Enche-me de orgulho.
A vida de Frederico passava-lhe agora pela frente. Era impossível naquele momento não recordar as dificuldades porque Frederico passou para vingar. Uma raríssima mal-formação fê-lo nascer com as pernas e os pés para trás. Foram anos de angústia e sofrimento que só uma mãe pode perceber e suportar. A incerteza e impreparação dos médicos. Mais de uma dezena de operações correctivas, múltiplas sequelas de crescimento e doze anos de fisioterapia moldaram a personalidade de Frederico.
Hoje andava e corria com absoluta normalidade, o que impressionava quem conhecia a sua história. Mas, sobretudo, o que impressionava era a sua absoluta maioridade comportamental, nada própria de quem está no auge da adolescência.
Cerimónia terminada. Um beijo filial. Uma lágrima que rola. Olhares de mãe que se entrecruzam com o olhar do filho.
Obrigado por tudo, Mãe!
Um sorriso embargado por uma lágrima de felicidade.
Estás lindo Frederico!
Parabéns pelo teu filho! Está tão garboso.
Obrigado, Margarida. Estava agora a reflectir nisso mesmo. Enche-me de orgulho.
A vida de Frederico passava-lhe agora pela frente. Era impossível naquele momento não recordar as dificuldades porque Frederico passou para vingar. Uma raríssima mal-formação fê-lo nascer com as pernas e os pés para trás. Foram anos de angústia e sofrimento que só uma mãe pode perceber e suportar. A incerteza e impreparação dos médicos. Mais de uma dezena de operações correctivas, múltiplas sequelas de crescimento e doze anos de fisioterapia moldaram a personalidade de Frederico.
Hoje andava e corria com absoluta normalidade, o que impressionava quem conhecia a sua história. Mas, sobretudo, o que impressionava era a sua absoluta maioridade comportamental, nada própria de quem está no auge da adolescência.
Cerimónia terminada. Um beijo filial. Uma lágrima que rola. Olhares de mãe que se entrecruzam com o olhar do filho.
Obrigado por tudo, Mãe!
Um sorriso embargado por uma lágrima de felicidade.
Estás lindo Frederico!
terça-feira, 24 de maio de 2011
A vingança (Ricardo)
Ricardo saltava a cancela com a desfaçatez e a destreza habitual. Acostumara-se a meter por ali para ir ao rio nos dias quentes de verão, quando as altas temperaturas aconselham sombra ou água fresca para que o cérebro não derreta.
Atravessar a propriedade do Silva "careca" não era operação isenta de riscos. Aprendara-o da maneira mais difícil, quando o dono por ali andava aos estorninhos, de pressão de ar em punho e perdigueiro ao largo. À palavra de ordem do dono, o animal pusera-se a correr como um desalmado e Ricardo largou como um foguete em direcção ao rio e só parou do outro lado da corrente, quando tinha já o sabujo dentro de água e o Silva "careca" o chamou. "Que não voltes a atravessar propriedade privada, miúdo. Vou estar à tua espera no regresso!". Que remédio teve se não subir o rio junto à margem, polvilhada de fetos, para voltar para casa mais tarde. A viagem demorou-lhe mais uma hora e muitas dores musculares, mas sempre era melhor que levar o rabo carregado de chumbo ou com os dentes do sabujo marcados.
Desde então passara a ter mais cuidado. Perdia algum tempo a amiudar se o dono por ali andaria ou não e só então arriscava meter por ali fora.
Naquele dia, tudo calmo, sem que se visse pele malvada a rondar.
Que delícia estava a água corrente que lhe afagava o peito. Fresca e retemperadora. De súbito, sentiu uma respiração por trás de si. Virou-se rapidamente e o perdigueiro sorria-lhe, arreganhando os dentes. Mergulho de imediato, sem se livrar, porém, de uma mordidela nos calçoes de banho, que acabaram por ficar na boca do sorridente animal.
Que sorte, pensou, ao menos estou inteiro. E virou-se ainda a a tempo de ver que o Silva "careca" lhe levava a demais roupa e lhe acenava vitorioso.
Pensando no regresso só lhe ocorria que seria a sensação e o falatório da terra durante muitas semanas. "Que se lixe!" E mergulhou novamente.
Atravessar a propriedade do Silva "careca" não era operação isenta de riscos. Aprendara-o da maneira mais difícil, quando o dono por ali andava aos estorninhos, de pressão de ar em punho e perdigueiro ao largo. À palavra de ordem do dono, o animal pusera-se a correr como um desalmado e Ricardo largou como um foguete em direcção ao rio e só parou do outro lado da corrente, quando tinha já o sabujo dentro de água e o Silva "careca" o chamou. "Que não voltes a atravessar propriedade privada, miúdo. Vou estar à tua espera no regresso!". Que remédio teve se não subir o rio junto à margem, polvilhada de fetos, para voltar para casa mais tarde. A viagem demorou-lhe mais uma hora e muitas dores musculares, mas sempre era melhor que levar o rabo carregado de chumbo ou com os dentes do sabujo marcados.
Desde então passara a ter mais cuidado. Perdia algum tempo a amiudar se o dono por ali andaria ou não e só então arriscava meter por ali fora.
Naquele dia, tudo calmo, sem que se visse pele malvada a rondar.
Que delícia estava a água corrente que lhe afagava o peito. Fresca e retemperadora. De súbito, sentiu uma respiração por trás de si. Virou-se rapidamente e o perdigueiro sorria-lhe, arreganhando os dentes. Mergulho de imediato, sem se livrar, porém, de uma mordidela nos calçoes de banho, que acabaram por ficar na boca do sorridente animal.
Que sorte, pensou, ao menos estou inteiro. E virou-se ainda a a tempo de ver que o Silva "careca" lhe levava a demais roupa e lhe acenava vitorioso.
Pensando no regresso só lhe ocorria que seria a sensação e o falatório da terra durante muitas semanas. "Que se lixe!" E mergulhou novamente.
domingo, 22 de maio de 2011
As pedras (Jacinta)
Jacinta conhecia aquelas pedras desde sempre. Fora seu pai que construíra a casa da família. Simples, pequena, modesta, mas um hino ao esforço e à perseverança familiar. Tinha amor àquela casa como tinha aos seus pais. Tudo se passara ali. Ali nasceram seus dois irmãos. Ali cresceram todos. Ali casaram todos. E dali todos partiram, à excepção de si própria, que não conseguiu deixar tudo aquilo. Ficou e foi amparo dos pais na velhice, como eles haviam sido seu amparo na meninice.
Não é que não tenha tido oportunidade, teve-a, mas todas as que teve, sem excepção, a conduziam para longe de tudo aquilo. Da terra, da família, do cheio da Beira, das casas simples e das coisas humildes. Não conseguia sequer suportar a ideia.
Os seus pais nunca lhe haviam pedido nada. Pelo contrário. Incentivaram-na a partir e à pergunta do que seria deles sem filhos por perto, respondiam sempre que as andorinhas não guardam os filhos nos ninhos para que lhes façam companhia. Ensinam-nos a voar e quais as rotas para as terras quentes. Incentivam-nos.
Nunca quis.
Nunca se arrependeu.
Nunca deixou de sorrir.
Encarava a vida com um abnegado optimismo que a consagrou como a Alegre Jacinta. Adorava o epíteto e estava incomensuravelmente grata a quem lho atribui. Já ninguém sabia quem fora. E quem fora nunca colheu os louros da alegria que proporcionou a Jacinta.
Ia partir agora para sempre. Fisicamente já tinha partido. Seu corpo estava agora no cemitério para enterrar. Exéquias simples como fora a sua vida.
Sentira o apelo dos anjos a chamarem-lhe a alma e predispôs-se a partir, mas tinha um último desejo. Não podia ir sem se despedir da sua casa. Assentiram nisso os seres celestes. Jacinta manifestou gratidão e foi despedir-se das pedras.
Não é que não tenha tido oportunidade, teve-a, mas todas as que teve, sem excepção, a conduziam para longe de tudo aquilo. Da terra, da família, do cheio da Beira, das casas simples e das coisas humildes. Não conseguia sequer suportar a ideia.
Os seus pais nunca lhe haviam pedido nada. Pelo contrário. Incentivaram-na a partir e à pergunta do que seria deles sem filhos por perto, respondiam sempre que as andorinhas não guardam os filhos nos ninhos para que lhes façam companhia. Ensinam-nos a voar e quais as rotas para as terras quentes. Incentivam-nos.
Nunca quis.
Nunca se arrependeu.
Nunca deixou de sorrir.
Encarava a vida com um abnegado optimismo que a consagrou como a Alegre Jacinta. Adorava o epíteto e estava incomensuravelmente grata a quem lho atribui. Já ninguém sabia quem fora. E quem fora nunca colheu os louros da alegria que proporcionou a Jacinta.
Ia partir agora para sempre. Fisicamente já tinha partido. Seu corpo estava agora no cemitério para enterrar. Exéquias simples como fora a sua vida.
Sentira o apelo dos anjos a chamarem-lhe a alma e predispôs-se a partir, mas tinha um último desejo. Não podia ir sem se despedir da sua casa. Assentiram nisso os seres celestes. Jacinta manifestou gratidão e foi despedir-se das pedras.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
A tarde (Leonardo)
Leonardo sentou-se no banco corrido destinado ao público no tribunal. O desconforto do banco já lhe era familiar e já nem o seu corpo reclamava qualquer encosto mais amigável.
Conhecia de cor a mecânica da audiência e interpretava o papel que, prazenteiramente, a si mesmo se impunha havia já alguns anos. Entra a juiz e ergue-se respeitosamente o corpo em sinal de adoração da deusa romana Iustitia. Senta-se a juiz e o corpo pode finalmente retomar relaxadamente o seu lugar.
Fascinava-o todo o ritual, meticulosamente encenado, que a justiça se impunha e com a qual se pretendia assegurar a sua credibilidade e superioridade sobre a sociedade. Tudo era uma peça de teatro que se desenrolava nas alturas, no Olimpo.
Entrou a primeira testemunha. Leonardo admirava a toga dos advogados. Aprumada estava, quando ainda há pouco havia sido tirada enrodilhada de uma pasta de couro gasto.
E aos costumes a testemunha disse que... O escrivão ia compilando as notas que lhe iam sendo ditadas pela juiz. Uma capa negra e desinteressante cobria-lhe os ombros. Nada que tivesse a dignidade da toga ou da beca. Não havia, aliás, um qualquer assomo de dignidade naquela vestimenta ridícula que impõem aos descontentes funcionários. Não é já castigo suficiente serem forçados a horas de inquirições de testemunhas sem que tenham qualquer interesse na causa?, pensou Leonardo. Parecem super-heróis pobres. Daqueles sem os quais o mundo não passa, mas que não têm direito sequer a uma fardeta condigna.
O testemunho foi desinteressante. A testemunha declarou nada saber. A outra testemunha faltou. Audiência suspensa.
Leonardo arrastou-se até ao piso superior.
Que sorte!, pensou. Um divórcio litigioso. A tarde não será afinal em vão.
Conhecia de cor a mecânica da audiência e interpretava o papel que, prazenteiramente, a si mesmo se impunha havia já alguns anos. Entra a juiz e ergue-se respeitosamente o corpo em sinal de adoração da deusa romana Iustitia. Senta-se a juiz e o corpo pode finalmente retomar relaxadamente o seu lugar.
Fascinava-o todo o ritual, meticulosamente encenado, que a justiça se impunha e com a qual se pretendia assegurar a sua credibilidade e superioridade sobre a sociedade. Tudo era uma peça de teatro que se desenrolava nas alturas, no Olimpo.
Entrou a primeira testemunha. Leonardo admirava a toga dos advogados. Aprumada estava, quando ainda há pouco havia sido tirada enrodilhada de uma pasta de couro gasto.
E aos costumes a testemunha disse que... O escrivão ia compilando as notas que lhe iam sendo ditadas pela juiz. Uma capa negra e desinteressante cobria-lhe os ombros. Nada que tivesse a dignidade da toga ou da beca. Não havia, aliás, um qualquer assomo de dignidade naquela vestimenta ridícula que impõem aos descontentes funcionários. Não é já castigo suficiente serem forçados a horas de inquirições de testemunhas sem que tenham qualquer interesse na causa?, pensou Leonardo. Parecem super-heróis pobres. Daqueles sem os quais o mundo não passa, mas que não têm direito sequer a uma fardeta condigna.
O testemunho foi desinteressante. A testemunha declarou nada saber. A outra testemunha faltou. Audiência suspensa.
Leonardo arrastou-se até ao piso superior.
Que sorte!, pensou. Um divórcio litigioso. A tarde não será afinal em vão.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
A partida (Carla)
Carla estava farta daquela relação que a sufocava. Tudo aquilo a enojava a um ponto que não julgara ser possível. Um cheiro a bafio incomodava-a de cada vez que tentava iniciar uma conversa com João e, invariavelmente, terminava com desmandos que mudos seriam não fosse o facto de serem gritados bem alto.
Acordou com vontade de por fim a tudo aquilo.
Não suportava mais a indefinição que impunha a si própria e começava a detestar a incapaz que albergava dentro de si.
Quem me prende?, perguntava muitas vezes a si mesma. Não! O que me prende?
Nada a prendia a não ser a inércia que o conforto vai construindo em nós até que se torne num peso demasiado grande para que o consigamos mover.
Saiu de casa e aguardou a saída de João. Retornou a casa e já tudo lhe parecia distante, como se nunca ali houvera vivido, como se aquelas paredes nunca tivessem agarrado impressões suas, fragmentos da sua vida conjugal.
Atalhou a primeira mala que alcançou. Era a mais pequena. Que se lixe!, pensou. Quem é que quer construir uma vida nova com roupas velhas?
Emparedou as quatro mudas de roupa na mala e fechou-as antes que pudessem saltar cá para fora, antes que a tentassem convencer que o seu lugar era num guarda-roupa requintado, que também tinham amigas e que injusto e traumático era para elas aquela partida.
Não quis levar mais nada que lhe lembrasse a vida medíocre que levou aqueles três insuportáveis anos.
Agarrou num papel e atabalhoadamente escreveu: não me encontrarás mais nesta casa. E partiu
Acordou com vontade de por fim a tudo aquilo.
Não suportava mais a indefinição que impunha a si própria e começava a detestar a incapaz que albergava dentro de si.
Quem me prende?, perguntava muitas vezes a si mesma. Não! O que me prende?
Nada a prendia a não ser a inércia que o conforto vai construindo em nós até que se torne num peso demasiado grande para que o consigamos mover.
Saiu de casa e aguardou a saída de João. Retornou a casa e já tudo lhe parecia distante, como se nunca ali houvera vivido, como se aquelas paredes nunca tivessem agarrado impressões suas, fragmentos da sua vida conjugal.
Atalhou a primeira mala que alcançou. Era a mais pequena. Que se lixe!, pensou. Quem é que quer construir uma vida nova com roupas velhas?
Emparedou as quatro mudas de roupa na mala e fechou-as antes que pudessem saltar cá para fora, antes que a tentassem convencer que o seu lugar era num guarda-roupa requintado, que também tinham amigas e que injusto e traumático era para elas aquela partida.
Não quis levar mais nada que lhe lembrasse a vida medíocre que levou aqueles três insuportáveis anos.
Agarrou num papel e atabalhoadamente escreveu: não me encontrarás mais nesta casa. E partiu
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Segundos de felicidade (João)
João ganhara uma bicicleta pelos anos. Lembrava-se com incontida alegria daquele dia. O padrinho e o pai haviam-no ido buscar à escola.
Que bom ver-te! Porque me viste buscar? Não é costume... - disse ao padrinho.
É dia dos teus anos! Quis fazer-te uma surpresa. Estás estupendo. Um rapagão.
E abraçou-o, querendo compensar todos os dias que não esteve com ele.
João completava 10 anos. Estava corpulento, o corpo a querer dar o salto, crescer. A voz ainda de criança denunciava-o, porém. Por vezes as atitudes também.
Vais comigo até lá a casa?, perguntou ao padrinho.
Claro que vou. Jantamos todos.
Que fixe!
E largou a correr...
João remexia-se na cadeira com uma irrequietude que não deixava ninguém indiferente.
João, pára quieto!, ralhou-lhe a mãe. Estamos à mesa.
Estou ansioso, mãe.
Então controla a ansiedade e come. Já te damos as prendas no final do jantar.
É sabido que o final de qualquer coisa que nos separa da felicidade, ainda que temporária, é um túnel espaço-temporal que parece não ter fim.
Finalmente, cantados os parabéns a preceito, as ansiadas prendas.
Um boneco articulado, cheio de músculos impossíveis de ter e com missões terríveis e sangrentas a desempenhar. Um pulover verde garrafa feito em lã pela avó, que começara dois meses antes e que escondia a malha de cada vez que o João a visitava, evitando que o João descobrisse o que há muito já sabia. Umas cartas de jogar dadas pelo pai, com a promessa de partilhar com ele muitos jogos.
E tu, padrinho?
Eu quê?
Tens um presente para mim?
O padrinho sorriu, saiu da sala e chamou-o. João levantou-se e com ele toda a família.
Um laçarote azul em cima de uma bicicleta vermelha.
Um abraço incontido, um beijo aguardado e uns segundos de felicidade que acompanharão João até à velhice.
Que bom ver-te! Porque me viste buscar? Não é costume... - disse ao padrinho.
É dia dos teus anos! Quis fazer-te uma surpresa. Estás estupendo. Um rapagão.
E abraçou-o, querendo compensar todos os dias que não esteve com ele.
João completava 10 anos. Estava corpulento, o corpo a querer dar o salto, crescer. A voz ainda de criança denunciava-o, porém. Por vezes as atitudes também.
Vais comigo até lá a casa?, perguntou ao padrinho.
Claro que vou. Jantamos todos.
Que fixe!
E largou a correr...
João remexia-se na cadeira com uma irrequietude que não deixava ninguém indiferente.
João, pára quieto!, ralhou-lhe a mãe. Estamos à mesa.
Estou ansioso, mãe.
Então controla a ansiedade e come. Já te damos as prendas no final do jantar.
É sabido que o final de qualquer coisa que nos separa da felicidade, ainda que temporária, é um túnel espaço-temporal que parece não ter fim.
Finalmente, cantados os parabéns a preceito, as ansiadas prendas.
Um boneco articulado, cheio de músculos impossíveis de ter e com missões terríveis e sangrentas a desempenhar. Um pulover verde garrafa feito em lã pela avó, que começara dois meses antes e que escondia a malha de cada vez que o João a visitava, evitando que o João descobrisse o que há muito já sabia. Umas cartas de jogar dadas pelo pai, com a promessa de partilhar com ele muitos jogos.
E tu, padrinho?
Eu quê?
Tens um presente para mim?
O padrinho sorriu, saiu da sala e chamou-o. João levantou-se e com ele toda a família.
Um laçarote azul em cima de uma bicicleta vermelha.
Um abraço incontido, um beijo aguardado e uns segundos de felicidade que acompanharão João até à velhice.
terça-feira, 17 de maio de 2011
A idade das coisas (Juvelina)
Juvelina havia perdido já a idade das coisas. Velhas lhe pareciam, velhas seriam certamente, mas não sabia ao certo quanto. Também que importância tinha. O que releva é o que ainda fazem, não o quanto já andaram, pensava ela.
Juvelina já andara muito e já fazia pouco. Menos do que queria, dizia a todos. Mais do que devia, ralhava-lhe o filho médico.
Se não faço, toldam-se-me os movimentos e aí, olha, e aí é que me podes encomendar a alma. Pede por mim a Santo Expedito.
Mãe, que tolice.
Mário sabia que as tonterias das velhas eram premonições perenes. Replicava por replicar, por ser sempre certo contrariarem os filhos as certezas dos pais, por mais certas e razoáveis que sejam.
Juvelina caminhava para os 76 e preparava a maior mudança da sua vida. Rendera-se à evidência de que a juventude se perdera quando caíra em casa faz dois meses e a perna quebrada não a deixara levantar-se. As dores dilacerantes, tornaram-se macilentas e acabaram por a adormecer num torpor do qual só despertara no dia seguinte. O hospital nada tinha de acolhedor, mas valera-lhe uma vizinha que estranhou não a ver pelo poente no terço. Não fora isso e a sua vida agora não mudaria, acabaria-se.
Empacotava agora a vida numa mala de mão, pequena porque as necessidades dos velhos vão-se reduzindo à medida que lhes cresce a idade. Também, que caramba, de que necessitaria para o local para onde ia? Umas poucas peças de roupa preta, que lhe condiziam com a idade, a viuvez e o estado de espírito e uma mão cheia de vontade de estar.
Acercou-se da porta do quarto onde o filho a esperava com uns olhos que não escondiam o desassossego. Mário agarrou-lhe a mala e amparou-lhe o braço. Achou-o trémulo, hesitante. Vamos, mãe! - incentivando-a. Vamos, anuiu ela sem que tivesse necessidade de o dizer.
Cruzaram a porta, sem certezas e sem encantos, mas com a inevitabilidade de que o amanhã seria mais difícil que o ontem.
Fechou-se o ferrolho com estrondo e partiram.
Doi-me deixar a casa vazia, disse Mário.
Quem te disse que está vazia? perguntou Juvelina. As recordações enchem os espaços e vivem as casas quando não estamos lá. Aposto que fazem agora uma reunião e vivem-se e revivem-se novamente.
Mário não a compreendia. Mas as recordações que bailavam agora na casa, entenderam aquele sinal de soltura.
Juvelina já andara muito e já fazia pouco. Menos do que queria, dizia a todos. Mais do que devia, ralhava-lhe o filho médico.
Se não faço, toldam-se-me os movimentos e aí, olha, e aí é que me podes encomendar a alma. Pede por mim a Santo Expedito.
Mãe, que tolice.
Mário sabia que as tonterias das velhas eram premonições perenes. Replicava por replicar, por ser sempre certo contrariarem os filhos as certezas dos pais, por mais certas e razoáveis que sejam.
Juvelina caminhava para os 76 e preparava a maior mudança da sua vida. Rendera-se à evidência de que a juventude se perdera quando caíra em casa faz dois meses e a perna quebrada não a deixara levantar-se. As dores dilacerantes, tornaram-se macilentas e acabaram por a adormecer num torpor do qual só despertara no dia seguinte. O hospital nada tinha de acolhedor, mas valera-lhe uma vizinha que estranhou não a ver pelo poente no terço. Não fora isso e a sua vida agora não mudaria, acabaria-se.
Empacotava agora a vida numa mala de mão, pequena porque as necessidades dos velhos vão-se reduzindo à medida que lhes cresce a idade. Também, que caramba, de que necessitaria para o local para onde ia? Umas poucas peças de roupa preta, que lhe condiziam com a idade, a viuvez e o estado de espírito e uma mão cheia de vontade de estar.
Acercou-se da porta do quarto onde o filho a esperava com uns olhos que não escondiam o desassossego. Mário agarrou-lhe a mala e amparou-lhe o braço. Achou-o trémulo, hesitante. Vamos, mãe! - incentivando-a. Vamos, anuiu ela sem que tivesse necessidade de o dizer.
Cruzaram a porta, sem certezas e sem encantos, mas com a inevitabilidade de que o amanhã seria mais difícil que o ontem.
Fechou-se o ferrolho com estrondo e partiram.
Doi-me deixar a casa vazia, disse Mário.
Quem te disse que está vazia? perguntou Juvelina. As recordações enchem os espaços e vivem as casas quando não estamos lá. Aposto que fazem agora uma reunião e vivem-se e revivem-se novamente.
Mário não a compreendia. Mas as recordações que bailavam agora na casa, entenderam aquele sinal de soltura.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Feira do Livro
Estreei-me ontem na Feira do Livro numa sessão de autógrafos do meu conto infantil "Gabriel, o anjinho mensageiro".
Foi divertido sentir a curiosidade das pessoas que olhavam o senhor sentado na mesa, sózinho, sorrindo, meio apatetado e esperando que alguém lhe caísse no regaço com um livro para autografar.
Mesmo que em duas horas só tenha autografado 4 livros, não houve verdadeira solidão naqueles minutos. Houve muita companhia cumplice e olhares entrecruzados.
Nunca percebi muito bem porque nós, leitores, baixamos os olhos quando na feira um autor nos interpela com um olhar expectante. Parece que pedimos desculpa por, desta vez, mas s+o desta vez, não comprarmos o livro.
Uma dica: os autores não mordem e adorariam dois dedos de conversa, mesmo sem livro para autografar, é que a conversa é o princípio e o móbil de tudo.
Foi divertido sentir a curiosidade das pessoas que olhavam o senhor sentado na mesa, sózinho, sorrindo, meio apatetado e esperando que alguém lhe caísse no regaço com um livro para autografar.
Mesmo que em duas horas só tenha autografado 4 livros, não houve verdadeira solidão naqueles minutos. Houve muita companhia cumplice e olhares entrecruzados.
Nunca percebi muito bem porque nós, leitores, baixamos os olhos quando na feira um autor nos interpela com um olhar expectante. Parece que pedimos desculpa por, desta vez, mas s+o desta vez, não comprarmos o livro.
Uma dica: os autores não mordem e adorariam dois dedos de conversa, mesmo sem livro para autografar, é que a conversa é o princípio e o móbil de tudo.
Crónica das coisas banais
Tendo-me iniciado na escrita, descubro agora que para me tornar melhor tenho de escrever mais. Só escrevendo mais e com maior empenho poderei escrever melhor e com outra substância.
Percebe-se isso nas crónicas diárias do MEC no Público. São crónicas de coisas banais, mas que nos fazem reflectir sobre o nosso dia-a-dia, a nossa existência.
É por isso que assumo este compromisso comigo mesmo, escrever neste blog todos os dias. Escrever uma qualquer banalidade ou sobre uma qualquer banalidade. Não é um diário (longe disso), mas é para mim, para eu melhorar, mas são todos bem-vindos.
São as minhas crónicas das coisas banais.
Percebe-se isso nas crónicas diárias do MEC no Público. São crónicas de coisas banais, mas que nos fazem reflectir sobre o nosso dia-a-dia, a nossa existência.
É por isso que assumo este compromisso comigo mesmo, escrever neste blog todos os dias. Escrever uma qualquer banalidade ou sobre uma qualquer banalidade. Não é um diário (longe disso), mas é para mim, para eu melhorar, mas são todos bem-vindos.
São as minhas crónicas das coisas banais.
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