- Olha para mim, põe-te direito.
- Que estás a fazer? Deixa-me, mãe.
- Tenho que te por creme na cara, que está frio.
- Mas eu não que..., não quero essa porcaria.
- Eu te digo se é porcaria. Se não puseres creme quando saires lá para fora ficas rosadinho como um leitão. Está muito frio.
Grabriel solta-se com dificuldade dos braços que o prendem enquanto duas mãos ágeis o envolvem de creme gordo e reluzente.
- Já tenho creme em todo o lado, vês? Até no cabelo.
...
- Onde é que pensas que vais sem casaco? Anda cá imediatamente!
- Humpf!!
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
A sorte (Marlene)
Desajeitadamente Marlene deixou-se encurralar pela cigana que apregoava a leitura da sina a quem passava.
- A menina não quer saber a sua sorte? A cigana conta-lhe tudo.
- Ah, agora não posso. Estou atrasada. - Tentou esquivar-se.
- Não demora nada, menina. Leio-lhe a sorte e vai ver que chega muito a tempo.
Pegava-lhe já na mão, sem que Marlene sentisse ânimo para a demover.
- A cigana vê que a menina é muito inteligente. Tem boas notas e é muito empenhada. Vai ter um bom emprego no futuro. Um não! Dois! Vai ser bem sucedida e ganhar muito bem.
- Obrigado. Olhe...
A cigana não a deixou continuar enquanto lhe apertava mais a mão e a puxava para si.
- A cigana vê a menina num país longe daqui. Frio, branco. A menina tem também uma bata branca. Vai ser médica ou trabalhar num laboratório.
Marlene prestou finalmente atenção. Podia estar só a adivinhar, mas acertara na mouche. Deixou de retesar a mão e olhou-a interessada.
- E que mais?
A cigana percebeu que tinha agarrado a cliente.
- Vai ter muita sorte no amor. Vejo um homem bonito, alto, moreno, a falar estrangeiro.
- Filhos.
A cigana mirava, olhava, fixava, demorava, amiudava, mas não falava.
- E filhos?, insisistiu Marlene.
- Não vejo não, minha menina.
Marlene percebeu que a felicidade é só um momento fugaz.
- A menina não quer saber a sua sorte? A cigana conta-lhe tudo.
- Ah, agora não posso. Estou atrasada. - Tentou esquivar-se.
- Não demora nada, menina. Leio-lhe a sorte e vai ver que chega muito a tempo.
Pegava-lhe já na mão, sem que Marlene sentisse ânimo para a demover.
- A cigana vê que a menina é muito inteligente. Tem boas notas e é muito empenhada. Vai ter um bom emprego no futuro. Um não! Dois! Vai ser bem sucedida e ganhar muito bem.
- Obrigado. Olhe...
A cigana não a deixou continuar enquanto lhe apertava mais a mão e a puxava para si.
- A cigana vê a menina num país longe daqui. Frio, branco. A menina tem também uma bata branca. Vai ser médica ou trabalhar num laboratório.
Marlene prestou finalmente atenção. Podia estar só a adivinhar, mas acertara na mouche. Deixou de retesar a mão e olhou-a interessada.
- E que mais?
A cigana percebeu que tinha agarrado a cliente.
- Vai ter muita sorte no amor. Vejo um homem bonito, alto, moreno, a falar estrangeiro.
- Filhos.
A cigana mirava, olhava, fixava, demorava, amiudava, mas não falava.
- E filhos?, insisistiu Marlene.
- Não vejo não, minha menina.
Marlene percebeu que a felicidade é só um momento fugaz.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Madalena
Madalena colocava involuntariamente a mão direita a envolver a esquerda. Não se habituara ainda à falta da aliança na mão esquerda. Escondia o anelar com uma vergonha inconsciente. Não percebera ainda porque falhara o casamento. Amava o marido que já não o era e o pai dos filhos que continuava a ser.
À sua frente o companheiro de refeição percebeu-lhe o nervoso incontido. Disfarçou.
Madalena esboçou um sorriso falseado e continuou a comer. Já nada lhe sabia bem.
À sua frente o companheiro de refeição percebeu-lhe o nervoso incontido. Disfarçou.
Madalena esboçou um sorriso falseado e continuou a comer. Já nada lhe sabia bem.
sábado, 16 de agosto de 2014
Adraga
As gogas da Adraga gemiam violentamente quando a rebentação as envolvia. Enrolavam num queixume embatendo fortemente umas nas outras. O som intrigava Inácia que se quedou na rebentação a ouvir os gemidos das pedras. Sentia o sol lamber-lhe os braços e o sal a colar-se às pernas.
No arco da Adraga a força do mar criava explosões de espuma do tamanho de homens. Imaginou ginetes cavalgando e quadrigas desenfreadas. O riso das crianças atrás de si cuidou do resto.
No arco da Adraga a força do mar criava explosões de espuma do tamanho de homens. Imaginou ginetes cavalgando e quadrigas desenfreadas. O riso das crianças atrás de si cuidou do resto.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Lara
Lara deixou-se cair na cama deserta. O quarto cheirava ainda a sândalo como na noite anterior e aquele odor tranquilizou-a.
Estava vestida e despir-se não era sequer opção que considerasse. O cansaço que lhe morria no corpo não lhe dava qualquer ânimo para que se mexesse. Cedeu.
Sentia o sol acariciar-lhe as costas e levou um copo de vinho branco à boca. O riso das amigas enchia-lhe a alma. O Chiado cheio, a abarrotar.
- Estás cá Lara?
Entreabriu os olhos. O quarto, imóvel, o mesmo cheiro a sândalo. Sorriu.
Estava vestida e despir-se não era sequer opção que considerasse. O cansaço que lhe morria no corpo não lhe dava qualquer ânimo para que se mexesse. Cedeu.
Sentia o sol acariciar-lhe as costas e levou um copo de vinho branco à boca. O riso das amigas enchia-lhe a alma. O Chiado cheio, a abarrotar.
- Estás cá Lara?
Entreabriu os olhos. O quarto, imóvel, o mesmo cheiro a sândalo. Sorriu.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Divergências
- Parece-me que temos aqui uma divergência importante Sr. Veloso. O que é um problema para si, na minha óptica.
- Mas...
Uma pancada na parte de trás da cabeça fê-lo parar.
- Não lhe dei autorização para me interromper.
Onde ia eu? Sim. Tem um problema sério, parece-me, e não gostaria de estar no seu lugar.
- Mas eu...
Uma outra pancada seca na base da nuca atira-o ao chão com violência. Perdeu noção do espaço tempo por uma dúzia de segundos até sentir dois braços que displicentemente o atiraram novamente para a cadeira. A nuca latejava, mas calou a dor e não se atreveu a gemer sequer.
Dois olhos furiosos e encarniçados fitavam-no a pouco mais de cinco centimetros de distância.
- Se me volta a interromper sai daqui embrulhado neste tapete em direcção à carrinha aqui à porta e despejo-o vivo na etar mais próxima!!
Sentiu a saliva, o hálito e a raiva daquele homem despejada sobre si. Fechou os olhos e retesou-se na cadeira. Não via saída.
- O Sr. Veloso vai sair por aquela porta e vai recuperar a medalha ao palerma a quem a vendeu. Vai-me trazer a medalha até aqui, este prédio, até amanhã. Se amanhã por esta hora a medalha não estiver na minha mão, o Sr. Veloso perderá a sua. Estamos entendidos?
Um olhar assustado deu-lhe a entender que sim.
- Óptimo. JP acompanha o Sr. Veloso até à porta.
- Mas...
Uma pancada na parte de trás da cabeça fê-lo parar.
- Não lhe dei autorização para me interromper.
Onde ia eu? Sim. Tem um problema sério, parece-me, e não gostaria de estar no seu lugar.
- Mas eu...
Uma outra pancada seca na base da nuca atira-o ao chão com violência. Perdeu noção do espaço tempo por uma dúzia de segundos até sentir dois braços que displicentemente o atiraram novamente para a cadeira. A nuca latejava, mas calou a dor e não se atreveu a gemer sequer.
Dois olhos furiosos e encarniçados fitavam-no a pouco mais de cinco centimetros de distância.
- Se me volta a interromper sai daqui embrulhado neste tapete em direcção à carrinha aqui à porta e despejo-o vivo na etar mais próxima!!
Sentiu a saliva, o hálito e a raiva daquele homem despejada sobre si. Fechou os olhos e retesou-se na cadeira. Não via saída.
- O Sr. Veloso vai sair por aquela porta e vai recuperar a medalha ao palerma a quem a vendeu. Vai-me trazer a medalha até aqui, este prédio, até amanhã. Se amanhã por esta hora a medalha não estiver na minha mão, o Sr. Veloso perderá a sua. Estamos entendidos?
Um olhar assustado deu-lhe a entender que sim.
- Óptimo. JP acompanha o Sr. Veloso até à porta.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Amar Paris
As pernas cruzadas quando sentada denunciavam-na contemplativa. Os longos cabelos loiros brilhavam a espaços e ofuscavam as pessoas nas mesas mais próximas.
Não o sentiu chegar, mas acolheu de bom grado o calor da sua mão nas suas costas. Selou a felicidade com um beijo.
- Pensei que não chegavas.
Breno guardava-lhe a mão na sua. Entrelaçou os seus dedos nos seus.
- Ansiava ver-te.
Tomou-lhe novamente os lábios. Foi atravessado por notas de amoras silvestres e determinação.
- Partimos hoje!
- Como hoje? Não estou preparada? Não tenho mala, nada.
Apertou-lhe mais a mão e olhou-a profundamente.
- Está tudo preparado. Não precisas de nada. Temos avião a seguir ao jantar.
- Mas ...
Dois dedos e um beijo, calaram-na.
- Só tens de te preocupar com uma coisa.
Olhou-o como a uma promessa.
- O quê?
- Amar-me e amar Paris.
Não o sentiu chegar, mas acolheu de bom grado o calor da sua mão nas suas costas. Selou a felicidade com um beijo.
- Pensei que não chegavas.
Breno guardava-lhe a mão na sua. Entrelaçou os seus dedos nos seus.
- Ansiava ver-te.
Tomou-lhe novamente os lábios. Foi atravessado por notas de amoras silvestres e determinação.
- Partimos hoje!
- Como hoje? Não estou preparada? Não tenho mala, nada.
Apertou-lhe mais a mão e olhou-a profundamente.
- Está tudo preparado. Não precisas de nada. Temos avião a seguir ao jantar.
- Mas ...
Dois dedos e um beijo, calaram-na.
- Só tens de te preocupar com uma coisa.
Olhou-o como a uma promessa.
- O quê?
- Amar-me e amar Paris.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Jogamos às cartas?
- Que horas são?
- Não sei. Deixei a cebola na caserna.
- Tens carne seca?
Um silvo cortou o céu plúmbeo e um projéctil aninhou-se com estrondo cem jardas a noroeste da trincheira. Ninguém se agachou ou se retirou dos seus cuidados.
- Que disseste?
- Carne?
Uma mão suja vasculhou o talego enlameado e estendeu uma tira vermelho escura.
- Devem ser cinco horas. Os labregos começaram a estoirar com tudo.
- Os nossos estão a responder?
- Põe tu a cabeça de fora... Esperas que vás ver? Vê tu.
- ... Tens razão.
O trotear das metralhadoras dançava sobre a cabeça dos magalas.
- Acho que começámos a responder?
- Deixa-te estar quieto.
- Jogamos às cartas?
- Não sei. Deixei a cebola na caserna.
- Tens carne seca?
Um silvo cortou o céu plúmbeo e um projéctil aninhou-se com estrondo cem jardas a noroeste da trincheira. Ninguém se agachou ou se retirou dos seus cuidados.
- Que disseste?
- Carne?
Uma mão suja vasculhou o talego enlameado e estendeu uma tira vermelho escura.
- Devem ser cinco horas. Os labregos começaram a estoirar com tudo.
- Os nossos estão a responder?
- Põe tu a cabeça de fora... Esperas que vás ver? Vê tu.
- ... Tens razão.
O trotear das metralhadoras dançava sobre a cabeça dos magalas.
- Acho que começámos a responder?
- Deixa-te estar quieto.
- Jogamos às cartas?
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
As estrelas
Rita ajeitou a gola do casaco de uma forma seca. O gesto não passou despercebido a Renato que se encolheu um pouco mais na cadeira, como que adivinhando que a borrasca apenas agora estava a começar.
- Como é que é possível? Como é possível que não tenhas percebido que eu estava ali? O que é que te deu? Explica-me! O que é que te deu para estares de floreados com aquela flauzina?
- Rita, eu n.. eu não estava com floreados nenhuns, eu ...
- Mentiroso! Mentiroso! Estavas a mordê-la com os olhos. Eu vi-te, meu sacana.
- Rita, estás completamente alterada. Eu estava a fazer conversa de circunstância.
- Conversa de circunstância? Conversa de circunstância?? Desde quando é que convidares uma fulana que acabaste de conhecer para almoçares, a pretexto de discutirem as novas teorias sobre a expansão do universo é conversa de circunstância?
- Rita, ela é investigadora na equipa que tem o maior perito mundial na matéria. Vai publicar um artigo na Astronomy Journal. A investigação em que participa pode ajudar-me muito no pós-doc.
- Estou a ver. Vão tentar ir às estrelas juntos, é isso?
Renato sabia que não haveria qualquer resposta suficientemente boa para aquilo.
- Como é que é possível? Como é possível que não tenhas percebido que eu estava ali? O que é que te deu? Explica-me! O que é que te deu para estares de floreados com aquela flauzina?
- Rita, eu n.. eu não estava com floreados nenhuns, eu ...
- Mentiroso! Mentiroso! Estavas a mordê-la com os olhos. Eu vi-te, meu sacana.
- Rita, estás completamente alterada. Eu estava a fazer conversa de circunstância.
- Conversa de circunstância? Conversa de circunstância?? Desde quando é que convidares uma fulana que acabaste de conhecer para almoçares, a pretexto de discutirem as novas teorias sobre a expansão do universo é conversa de circunstância?
- Rita, ela é investigadora na equipa que tem o maior perito mundial na matéria. Vai publicar um artigo na Astronomy Journal. A investigação em que participa pode ajudar-me muito no pós-doc.
- Estou a ver. Vão tentar ir às estrelas juntos, é isso?
Renato sabia que não haveria qualquer resposta suficientemente boa para aquilo.
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