quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Eduardino

- Nome?
- Eduardino Rosa.
- Eduardino?
- não pergunte.
- Já perguntei, desculpe. Adiante, estado civil?
- desamigado.
- Quer dizer solteiro, certo?
- pode colocar isso, sim.
- Idade?
- 47, acho.
- Ok. Nem pergunto. Profissão?
- contador de estórias.
- Contador de histórias? Que profissão é essa?
- ... (coça-se)
- É escritor?
- não, quem me dera
- Faz radionovelas?
- já ninguém ouve radionovelas...
- Jornalista desempregado?
- não... conto histórias...
- E isso lá é modo de vida? O computador nem sequer me aceita isso como opção.
(pigarreia)
- num dia de grande calor, em plena planície, caía o sol a pique...
- Ó amigo, ó amigo, deixe lá isso que eu tenho aqui muito que fazer e muita gente para atender. Vou colocar desempregado, está bem?
- ...

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

...

Empurrado para fora da cela, os pés embrulhavam-se no pó do chão e um no outro. Mantinha-se direito a custo, levantava a cabeça, exibindo a última pinga de dignidade que lhe restava.
A multidão urrava à sua volta, voavam objectos sobre si, mas não os escutava verdadeiramente. Era tudo uma zoada indiferenciada nos ouvidos.
Não saberia dizer a quantos passos estava o cadafalso, mas o caminho pareceu-lhe estranhamente longo. Alguém atrás de si desfilava uma ladainha em latim e ia-lhe tocando, como se um milagre pudesse ainda acontecer.
Não se lembra de ter pensado no que quer que fosse. Nem de se arrepender do que quer que fosse. A vida era um fogacho para quem não tinha berço. Todos acabam no cadafalso de uma forma ou de outra e a forca tem muitas formas, seja ela a corda, a fome, a doença, o controlo sanguinário do senhor ou a dívida permanente em que viviam.
A forca era, de alguma forma,- uma libertação inusitada.
O algoz olhou-o nos olhos e era como se não estivesse ali. Aquele homem não vivia. É impossível que esteja vivo quem não tem qualquer centelha nos olhos.
Num gesto mecânico a corda aconchegou-se ao seu pescoço.
Perscrutou a multidão. Ela mantinha-se imóvel e chorava no meio de urros insanos.
A força daquelas lágrimas alentaram-no. A palmada seca no lombo do animal selou o resto.