Empurrado para fora da cela, os pés embrulhavam-se no pó do chão e um no outro. Mantinha-se direito a custo, levantava a cabeça, exibindo a última pinga de dignidade que lhe restava.
A multidão urrava à sua volta, voavam objectos sobre si, mas não os escutava verdadeiramente. Era tudo uma zoada indiferenciada nos ouvidos.
Não saberia dizer a quantos passos estava o cadafalso, mas o caminho pareceu-lhe estranhamente longo. Alguém atrás de si desfilava uma ladainha em latim e ia-lhe tocando, como se um milagre pudesse ainda acontecer.
Não se lembra de ter pensado no que quer que fosse. Nem de se arrepender do que quer que fosse. A vida era um fogacho para quem não tinha berço. Todos acabam no cadafalso de uma forma ou de outra e a forca tem muitas formas, seja ela a corda, a fome, a doença, o controlo sanguinário do senhor ou a dívida permanente em que viviam.
A forca era, de alguma forma,- uma libertação inusitada.
O algoz olhou-o nos olhos e era como se não estivesse ali. Aquele homem não vivia. É impossível que esteja vivo quem não tem qualquer centelha nos olhos.
Num gesto mecânico a corda aconchegou-se ao seu pescoço.
Perscrutou a multidão. Ela mantinha-se imóvel e chorava no meio de urros insanos.
A força daquelas lágrimas alentaram-no. A palmada seca no lombo do animal selou o resto.
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