O riso inundava a sala a cada dois segundos. Passara já o bacalhau com as couves delicadamente cozidas, doces, que fizera as delícias dos adultos e as agruras dos miúdos. Os catraios suportavam queixosos as poucas couves tronchudas que os obrigavam a comer em troca de um prometido naco de cabrito assado no forno.
A mãe Rosália parou uns segundos a olhar em torno da mesa enquanto todos estavam entretidos com a aprimorada comida ou com a conversa galopante. Adorava ter os seus patinhos, como gostava de lhes chamar, de volta de si. A mesa pejada de filhos e netos enchia-a de orgulho e satisfação.
- Avó. Avó!
Adorava ouvir aquela palavra dita daquela forma doce e expectante.
- Sim, minha querida.
- Queria só dizer-te que está muito bom.
- Obrigado minha querida. Fiz a pensar em todos vocês, meus doces.
- Podemos abrir os presentes a seguir?
- Madalena. Sabes que em casa da avó Rosália os presentes só se abrem amanhã de manhã., lembrou-lhe a mãe.
- Oh, mãe... Avó, não podemos abrir hoje?
- Madalena, querida, primeiro temos de ir à Missa do Galo, depois vais dormir e amanhã de manhãzinha, logo vês o que o menino Jesus te deixou na lareira.
- Oh!
- Anda. Vem comigo à cozinha buscar as filhozes.
- Que seca...
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Duarte
Duarte passeava-se com um cordel na mão direita. Puxava por ele de quando em vez, gesto impregnado de impaciência mais do que de esforço. Uma luz seguia-o, iluminando-lhe os passos e mostrando as irregularidades da calçada gasta.
Passos constantes, equidistantes, sem tremores que evidenciassem hesitação.
- Anda!
Passava pelas pessoas resmordendo coisas para si, coisas que elas não ouviam, porque a sociedade de hoje é surda aos lamentos dos outros.
- Anda. Já te disse para não ficares para trás.
Sentiu-se repentinamente puxado para trás e virou-se. O cordel estacara junto a um lampião.
- Outra vez, César. Em quantos candeeiros tens de urinar?
Uma senhora passava e mirou a cena, mas, baixando os olhos, não parou.
Passos constantes, equidistantes, sem tremores que evidenciassem hesitação.
- Anda!
Passava pelas pessoas resmordendo coisas para si, coisas que elas não ouviam, porque a sociedade de hoje é surda aos lamentos dos outros.
- Anda. Já te disse para não ficares para trás.
Sentiu-se repentinamente puxado para trás e virou-se. O cordel estacara junto a um lampião.
- Outra vez, César. Em quantos candeeiros tens de urinar?
Uma senhora passava e mirou a cena, mas, baixando os olhos, não parou.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Demasiadas (Vítor)
A noite afigurava-se ébria e fugia serpenteando. Vítor combatera já muitas batalhas nessa noite e o cansaço galgava terreno, tomando forma no seu rosto encovado.
- Uma sandes?
Vítor olhou a sandes de soslaio.
- Obrigado. Não quero comer nada agora.
- Já estou cansada.
Vítor achava toda aquela conversa aborrecida e a despropósito. A acatitada sala de descanso dos enfermeiros era um poço de aborrecimento, um vómito. As conversas ocas, as caras vazias, as cumplicidades falseadas, as amizades inertes. Tudo rodeado de paredes num odioso tom pastel. Regurgitava tudo aquilo.
- Quantas horas te faltam?
Vítor levantou a custo os olhos para o relógio na parede. Olhou-a com desprezo e respondeu:
- Demasiadas.
- Uma sandes?
Vítor olhou a sandes de soslaio.
- Obrigado. Não quero comer nada agora.
- Já estou cansada.
Vítor achava toda aquela conversa aborrecida e a despropósito. A acatitada sala de descanso dos enfermeiros era um poço de aborrecimento, um vómito. As conversas ocas, as caras vazias, as cumplicidades falseadas, as amizades inertes. Tudo rodeado de paredes num odioso tom pastel. Regurgitava tudo aquilo.
- Quantas horas te faltam?
Vítor levantou a custo os olhos para o relógio na parede. Olhou-a com desprezo e respondeu:
- Demasiadas.
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