segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os jacintos (Martinho)

Martinho empurrou o carrinho de mão ao longo do canteiro até ao monte de desperdício orgânico. Despejou-o e virou-se mecanicamente para o local de onde havia partido.
Os jacintos floriam neste final de Abril primaveril que indiciava um Maio já de calor crescente.
Parou por um momento, endireitando as costas queixosas. Levou a manga à testa e limpou o suor. Contemplou os jacintos e ficou orgulhoso de si mesmo. Não sabia qual deles arrebatava o seu coração, se os amarelos, se os rosa, se os azuis, se os brancos ou se os roxos.
- Olá Martinho.
Martinho fixou os lábios de Joana e reconheceu a saudação. Olá!, retribuiu abrindo e levantando a mão, enquanto formulava a palavra.
- Estão lindos os jacintos. Maravilhosos.
- Obgado., consegui pronunciar Martinho a custo.
Joana acariciou-lhe o ombro e sorriu. Beijou-o na face e largou um até logo.
Martinho ficou a vê-la partir. Tinha pena de ser surdo.
Mirou novamente os jacintos e agradeceu a Deus a diversidade e o amor.

sábado, 23 de julho de 2011

O plano (Catarina)

Catarina carregava o fardo, enquanto primogénita, de se ter de entregar a Deus. Chamavam-lhe na vila a "maldição dos Resende". O primeiro filho ou filha do Conde de Resende, com linhagem e brasão desde 1548, teria de se dedicar à vida religiosa, consagrando-se a Cristo. Fora esta a condição imposta pela igreja à transferência de terras para João Espada de Resende, terceiro conde da vila cujo nome se confunde com o da família. O incumprimento, todos os membros da família o sabiam, implicava a reversão do couto à esfera patrimonial da igreja.
Catarina atingira os 16 anos e deveria ser consagrada em definitivo a Deus. Não estava, porém, pelos ajustes. Suportava com uma resiliência calada e seca os dez anos que levava de colégio de freiras, em regime semi-aberto em que saía uma vez por semana para ver os pais.
Pedira já por múltiplas vezes aos seus pais que a deixassem sair daquele colégio horrível em que a rotina de vida escolástica e cristã a sufocava para além do suportável. Seu pai repreendia-a gravemente, lembrando que a manutenção do estatuto e, pior, a subsistência da família dependia desse esforço que recaía sobre a primogenitura.
Catarina desistira da argumentação com a família, mantendo com os pais uma última conversa na qual lhes recordava que tudo aquilo era ridículo quando se estava quase no século XX. Desistira também de se deixar entregar às lágrimas.
Urdira um plano. Simples, fácil e directo. No dia da última saída pegou na mala e desapareceu no mundo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O prato (Rúben)

Rúben olhou o estranho com redobrada atenção. A camisa amarrotada e gasta contrastava com um exemplar nó de gravata, ainda que de gosto mais que duvidoso.
Reparou nos laivos de transpiração que os sovacos exibiam e que o estranho tentava disfarçar.
Decidiu experimentá-lo.
- Sabe Paulo que...
- Pedro!
- Perdão?
- Pedro. O meu nome é Pedro Pereira. Chamou-me Paulo.
- Perdoe-me, Pedro. Sabe que, dizia-lhe, as oportunidades com objectos unicos alcançam-nos apenas uma única vez.
- Quer isso dizer que??
- Quer isso dizer que esse prato é, muito provavelmente, pertencente a uma baixela feita a pedido de D. João VI, da qual parcos objectos nos chegaram.
- Que sorte a minha, então.
- Pedro, o objecto será sujeito a um rastreio de autenticidade e legitimidade de posse.
Pedro contorceu-se na cadeira.
- Porque?
- Regras internacionais contra o roubo de obras de arte.
- Isto não é uma obra de arte.
- É-o em certa medida.
Pedro recuperou o prato e saiu apressado sem dizer nada mais. Rúben chamou a policia.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dia de prodígios (Violante)

Violante sabia que aquele seria um dia de prodígios. Sentia o sangue ferver-lhe nas veias, situação felizmente incomum, mas que sempre revelava que algo extraordinário estaria para suceder.
Aprendera a viver com a sua condição especial desde os treze anos. Ano em que as bruxas se revelam!, contara-lhe a avó, um ano pouco mais que banal, diria mais tarde Violante que se habituara às visões de futuro, do seu e dos outros.
Assomou-se à janela que abriu de par em par. Ouviu indistintamente o ulular uivante da terra. Vinha em crescendo e Violante leu os sinais da desgraça que se abateria sobre a aldeia.
Saiu rapidamente de casa e foi ofegante bater à porta das vizinhas mais próximas.
- Saiam de casa!, gritava insana. Saiam de casa.
Maria José abriu a porta assustada. Violante não lhe deu tempo para respirar e arrastou-a para fora, pela manga da blusa.
- Violante? Que fazes? Ai que me matas!
- Vamos para o largo. As casas não são seguras! A terra vai abanar.
Maria José assustou-se e correu o pouco que podia.
A terra bradava e começou a tremer, chocalhando tudo com violência.
Violante odiava-se de cada vez que o futuro provava a certeza das suas leituras.
- Que peso, meu Deus...