Paulo Bandeira
Crónica das coisas banais
sexta-feira, 26 de abril de 2024
- Sonhei contigo ontem.
- Como?
- Sonhei contigo ontem.
- Ah, sim? E o que estávamos a fazer?
- Nâo interessa.
- Não interessa como?
- Não te posso dizer.
- ... mas não podes dizer porquê?
- Não posso. Não interessa.
- ... mas se não interessa porque é que me contaste que sonhaste comigo?
- Lembrei-me e saiu. Desculpa.
- Não podes contar, não é?
- Não, não posso.
- Degenerado!!
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
O outono
Uma mão na cabeça e a outra sobre o colo, amarfanhando a saia preta.
... um suspiro... e outro ainda...
- Não sei porque o fez.
- Achava que deveria saber?
- Sou sua irmã. Parecer-me-ia natural que me contasse alguma coisa, que desabafasse comigo.
- Conversavam muito?
- (...) a nossa vida afasta-nos das pessoas de quem gostamos. Vivíamos relativamente perto, mas trabalho até tarde, tenho os miúdos sempre que não estão com o pai, o que é quase sempre... não sei que lhe diga...
(...)
- As vossas visitas eram alegres?
- Sempre foi divertida. Achei-a mais calada da última vez que passeámos, mas também estava adoentada, não valorizei.
- O que fizeram?
- Passeámos no parque, creio. Sim, foi isso. Foi no início do outono, quando as folhas começaram a cair. É talvez a minha estação preferida.
- Um pouco triste, não?
- Não!, de todo! É uma época de reflexão e de renovação. Não deixa de ser misterioso que as folhas das árvores fiquem no pico da sua beleza exterior quando estão exatamente num processo de decadência e morte. Na primavera estão verdes, viçosas, mas são profundamente aborrecidas. Vivem verdadeiramente no outono, como se estivessem a coser o fato com o qual quisessem morrer. Caem num sono de morte com os seus melhores fatos.
As lágrimas caiam-lhe agora pela face que ia enxugando com a ponta da camisola.
- Foi o que a minha irmã fez, sabe?
- Como assim?
- Vestiu o seu melhor fato, o mais exuberante, para se deixar cair.
... um suspiro... e outro ainda...
- Não sei porque o fez.
- Achava que deveria saber?
- Sou sua irmã. Parecer-me-ia natural que me contasse alguma coisa, que desabafasse comigo.
- Conversavam muito?
- (...) a nossa vida afasta-nos das pessoas de quem gostamos. Vivíamos relativamente perto, mas trabalho até tarde, tenho os miúdos sempre que não estão com o pai, o que é quase sempre... não sei que lhe diga...
(...)
- As vossas visitas eram alegres?
- Sempre foi divertida. Achei-a mais calada da última vez que passeámos, mas também estava adoentada, não valorizei.
- O que fizeram?
- Passeámos no parque, creio. Sim, foi isso. Foi no início do outono, quando as folhas começaram a cair. É talvez a minha estação preferida.
- Um pouco triste, não?
- Não!, de todo! É uma época de reflexão e de renovação. Não deixa de ser misterioso que as folhas das árvores fiquem no pico da sua beleza exterior quando estão exatamente num processo de decadência e morte. Na primavera estão verdes, viçosas, mas são profundamente aborrecidas. Vivem verdadeiramente no outono, como se estivessem a coser o fato com o qual quisessem morrer. Caem num sono de morte com os seus melhores fatos.
As lágrimas caiam-lhe agora pela face que ia enxugando com a ponta da camisola.
- Foi o que a minha irmã fez, sabe?
- Como assim?
- Vestiu o seu melhor fato, o mais exuberante, para se deixar cair.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Eduardino
- Nome?
- Eduardino Rosa.
- Eduardino?
- não pergunte.
- Já perguntei, desculpe. Adiante, estado civil?
- desamigado.
- Quer dizer solteiro, certo?
- pode colocar isso, sim.
- Idade?
- 47, acho.
- Ok. Nem pergunto. Profissão?
- contador de estórias.
- Contador de histórias? Que profissão é essa?
- ... (coça-se)
- É escritor?
- não, quem me dera
- Faz radionovelas?
- já ninguém ouve radionovelas...
- Jornalista desempregado?
- não... conto histórias...
- E isso lá é modo de vida? O computador nem sequer me aceita isso como opção.
(pigarreia)
- num dia de grande calor, em plena planície, caía o sol a pique...
- Ó amigo, ó amigo, deixe lá isso que eu tenho aqui muito que fazer e muita gente para atender. Vou colocar desempregado, está bem?
- ...
- Eduardino Rosa.
- Eduardino?
- não pergunte.
- Já perguntei, desculpe. Adiante, estado civil?
- desamigado.
- Quer dizer solteiro, certo?
- pode colocar isso, sim.
- Idade?
- 47, acho.
- Ok. Nem pergunto. Profissão?
- contador de estórias.
- Contador de histórias? Que profissão é essa?
- ... (coça-se)
- É escritor?
- não, quem me dera
- Faz radionovelas?
- já ninguém ouve radionovelas...
- Jornalista desempregado?
- não... conto histórias...
- E isso lá é modo de vida? O computador nem sequer me aceita isso como opção.
(pigarreia)
- num dia de grande calor, em plena planície, caía o sol a pique...
- Ó amigo, ó amigo, deixe lá isso que eu tenho aqui muito que fazer e muita gente para atender. Vou colocar desempregado, está bem?
- ...
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
...
Empurrado para fora da cela, os pés embrulhavam-se no pó do chão e um no outro. Mantinha-se direito a custo, levantava a cabeça, exibindo a última pinga de dignidade que lhe restava.
A multidão urrava à sua volta, voavam objectos sobre si, mas não os escutava verdadeiramente. Era tudo uma zoada indiferenciada nos ouvidos.
Não saberia dizer a quantos passos estava o cadafalso, mas o caminho pareceu-lhe estranhamente longo. Alguém atrás de si desfilava uma ladainha em latim e ia-lhe tocando, como se um milagre pudesse ainda acontecer.
Não se lembra de ter pensado no que quer que fosse. Nem de se arrepender do que quer que fosse. A vida era um fogacho para quem não tinha berço. Todos acabam no cadafalso de uma forma ou de outra e a forca tem muitas formas, seja ela a corda, a fome, a doença, o controlo sanguinário do senhor ou a dívida permanente em que viviam.
A forca era, de alguma forma,- uma libertação inusitada.
O algoz olhou-o nos olhos e era como se não estivesse ali. Aquele homem não vivia. É impossível que esteja vivo quem não tem qualquer centelha nos olhos.
Num gesto mecânico a corda aconchegou-se ao seu pescoço.
Perscrutou a multidão. Ela mantinha-se imóvel e chorava no meio de urros insanos.
A força daquelas lágrimas alentaram-no. A palmada seca no lombo do animal selou o resto.
A multidão urrava à sua volta, voavam objectos sobre si, mas não os escutava verdadeiramente. Era tudo uma zoada indiferenciada nos ouvidos.
Não saberia dizer a quantos passos estava o cadafalso, mas o caminho pareceu-lhe estranhamente longo. Alguém atrás de si desfilava uma ladainha em latim e ia-lhe tocando, como se um milagre pudesse ainda acontecer.
Não se lembra de ter pensado no que quer que fosse. Nem de se arrepender do que quer que fosse. A vida era um fogacho para quem não tinha berço. Todos acabam no cadafalso de uma forma ou de outra e a forca tem muitas formas, seja ela a corda, a fome, a doença, o controlo sanguinário do senhor ou a dívida permanente em que viviam.
A forca era, de alguma forma,- uma libertação inusitada.
O algoz olhou-o nos olhos e era como se não estivesse ali. Aquele homem não vivia. É impossível que esteja vivo quem não tem qualquer centelha nos olhos.
Num gesto mecânico a corda aconchegou-se ao seu pescoço.
Perscrutou a multidão. Ela mantinha-se imóvel e chorava no meio de urros insanos.
A força daquelas lágrimas alentaram-no. A palmada seca no lombo do animal selou o resto.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Rita Segávia
Meu avô contava uma estória que por mais anos que viva nunca me há-de esquecer.
Andava Rita Segávia a vindimar quando sentiu acolá nas videiras um restolhar. Endireitou as costas e perscrutou a pequena vinha inquisitorialmente. O olhar nada alcançou e Rita as costas encurvou novamente sem qualquer queixume. Três cachos de uvas maduras mais adiante, ruídoso estrilho tomou conta das videiras sobranceiras a Rita Segávia.
Rita livrou-se da tesoura de vindimar e apossou-se com destreza da machada. Enorme e resoluta como poucos, avançou Rita vinha adentro em direção ao local donde o barulho nascia. A machada bailava frente às pernas de Rita num ritmo compassado.
Passou Rita e a videira à sua esquerda ganhou vida. Virou-se Rita e uma cascavel levantou-se à altura dos seus olhos e atacou, cravando-lhe as presas no braço esquerdo. Ainda a víbora se desprendia e já a mão direita de Rita rodava a machada e de um golpe cortou a cabeça da víbora. Um corpo quente contorceu-se vários minutos no pó.
Morta a peçonha, Rita perscrutou a videira e desfez os três ovos de víbora aninhados no chão quente. Só então se concentrou na dor que crescia no seu braço esquerdo. Sozinha estava e sabia que a meia hora de caminho até ao casario ser-lhe-ia fatal. Resoluta, rasgou a blusa, fez um garrote por cima da mordedura e com a mão direita na machada rasgou superficialmente o braço até expurgar o veneno.
Correu célere para a aldeia. Chegou a tempo de cair aos pés de Manuel que a carregou para casa e lhe untou a ferida com azeite.
Andava Rita Segávia a vindimar quando sentiu acolá nas videiras um restolhar. Endireitou as costas e perscrutou a pequena vinha inquisitorialmente. O olhar nada alcançou e Rita as costas encurvou novamente sem qualquer queixume. Três cachos de uvas maduras mais adiante, ruídoso estrilho tomou conta das videiras sobranceiras a Rita Segávia.
Rita livrou-se da tesoura de vindimar e apossou-se com destreza da machada. Enorme e resoluta como poucos, avançou Rita vinha adentro em direção ao local donde o barulho nascia. A machada bailava frente às pernas de Rita num ritmo compassado.
Passou Rita e a videira à sua esquerda ganhou vida. Virou-se Rita e uma cascavel levantou-se à altura dos seus olhos e atacou, cravando-lhe as presas no braço esquerdo. Ainda a víbora se desprendia e já a mão direita de Rita rodava a machada e de um golpe cortou a cabeça da víbora. Um corpo quente contorceu-se vários minutos no pó.
Morta a peçonha, Rita perscrutou a videira e desfez os três ovos de víbora aninhados no chão quente. Só então se concentrou na dor que crescia no seu braço esquerdo. Sozinha estava e sabia que a meia hora de caminho até ao casario ser-lhe-ia fatal. Resoluta, rasgou a blusa, fez um garrote por cima da mordedura e com a mão direita na machada rasgou superficialmente o braço até expurgar o veneno.
Correu célere para a aldeia. Chegou a tempo de cair aos pés de Manuel que a carregou para casa e lhe untou a ferida com azeite.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Os enjoos exauriam-lhe as forças do corpo e da alma. Não se lembrava de nada do que havia acontecido na noite anterior. Um sabor forte a absinto enchia-lhe a boca. Sabia que não suportava aquilo, bebida demoníaca que lhe inebriava o cérebro, a fazia pairar sobre mundos estranhos, fazia-a outra.
Deitou novamente fora o que não tinha no estômago.
- Bebe isto!
A voz de Patricio soava-lhe longínqua.
- Toma! Bebe!
- não...
Desapareceu novamente a caminho da casa de banho. Aquela cor vagamente verde do chá...
Deitou novamente fora o que não tinha no estômago.
- Bebe isto!
A voz de Patricio soava-lhe longínqua.
- Toma! Bebe!
- não...
Desapareceu novamente a caminho da casa de banho. Aquela cor vagamente verde do chá...
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
...
O calor que exalava do banco de jardim acolheu-lhe as costas e estas acomodaram-se como se sempre ali pertencessem. O livro branco saltou do interior da mala aberta e abriu-se naturalmente na página que a isso estava destinada, como num oráculo. A página encheu-se de risos de crianças que brincavam ao fundo e de guinchos estridentes de baloiços mal oleados. As palavras começaram a mexer-se. Primeiro as que invocavam animais e pessoas, depois as outras, todas. Um conto do tempo em que os animais falavam. Agora dançavam. Bailavam os ursos e os cerdos, os pintassilgos e as doninhas, entrelaçavam-se as papoilas, forrando os campos de vermelhas alcatifas de sonho. Apetecia-lhe mergulhar naquele idílio campestre, mas ficava feliz apenas de poder contemplar. Sabia que as palavras cairiam inertes novamente sobre as páginas brancas tão logo o riso das crianças terminasse. Deixou-se estar.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Ediberto
Lucinda entrou na penumbra do quarto e espalhou um decidido "Bom dia" que ecoou pelo ar pesado e escuro. O estore da janela enrolou-se pesada e sonoramente, guinchando, e a luz ocupou todo o espaço.
- Está uma manhã sorridente. Como estás hoje meu querido?
A pergunta não sendo retórica, não se destinava também a ser respondida.
Ediberto estava naquela cama há uma quantidade de tempo indefinida, mas o tempo tornara-se um mero acessório na sua vida. Respirava, mas não mexia. Inspirava, mas não sorria. Olhava, mas nada dizia. Mas também não sofria.
Lucinda sentou-se na beira da cama e fez-lhe uma festa na cara.
- Hoje é dia de fazer a barba, tio Ediberto. Vamos pô-lo bonito. Vai ficar a reluzir.
Ediberto não mexia qualquer parte do seu corpo, mas sentia que por vezes mexia os olhos, o que lhe permitia olhar de soslaio o quarto. Para quem nada mexe, ver mais que o branco do tecto que se prolongava por horas a fio era um momento de êxtase, ainda que por momentos muitissimo fugazes.
Viravam-no por vezes, ora para um lado, ora para o outro. Havia momentos fugazes em que a elevação da cama lhe permitia ver pela janela e sentia que nesse momento o coração lhe fugia. Assim como os seus olhos, que por vezes mexiam.
- Vou buscar as coisas para o escanhoar e já volto. Vou pedir ao Manel que o vire um pouco, sempre descansa as costas.
Ediberto não falava nem sorria, mas os olhos brilharam mais e o coração pulava.
- Está uma manhã sorridente. Como estás hoje meu querido?
A pergunta não sendo retórica, não se destinava também a ser respondida.
Ediberto estava naquela cama há uma quantidade de tempo indefinida, mas o tempo tornara-se um mero acessório na sua vida. Respirava, mas não mexia. Inspirava, mas não sorria. Olhava, mas nada dizia. Mas também não sofria.
Lucinda sentou-se na beira da cama e fez-lhe uma festa na cara.
- Hoje é dia de fazer a barba, tio Ediberto. Vamos pô-lo bonito. Vai ficar a reluzir.
Ediberto não mexia qualquer parte do seu corpo, mas sentia que por vezes mexia os olhos, o que lhe permitia olhar de soslaio o quarto. Para quem nada mexe, ver mais que o branco do tecto que se prolongava por horas a fio era um momento de êxtase, ainda que por momentos muitissimo fugazes.
Viravam-no por vezes, ora para um lado, ora para o outro. Havia momentos fugazes em que a elevação da cama lhe permitia ver pela janela e sentia que nesse momento o coração lhe fugia. Assim como os seus olhos, que por vezes mexiam.
- Vou buscar as coisas para o escanhoar e já volto. Vou pedir ao Manel que o vire um pouco, sempre descansa as costas.
Ediberto não falava nem sorria, mas os olhos brilharam mais e o coração pulava.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Cenas do quotidiano I
- Olha para mim, põe-te direito.
- Que estás a fazer? Deixa-me, mãe.
- Tenho que te por creme na cara, que está frio.
- Mas eu não que..., não quero essa porcaria.
- Eu te digo se é porcaria. Se não puseres creme quando saires lá para fora ficas rosadinho como um leitão. Está muito frio.
Grabriel solta-se com dificuldade dos braços que o prendem enquanto duas mãos ágeis o envolvem de creme gordo e reluzente.
- Já tenho creme em todo o lado, vês? Até no cabelo.
...
- Onde é que pensas que vais sem casaco? Anda cá imediatamente!
- Humpf!!
- Que estás a fazer? Deixa-me, mãe.
- Tenho que te por creme na cara, que está frio.
- Mas eu não que..., não quero essa porcaria.
- Eu te digo se é porcaria. Se não puseres creme quando saires lá para fora ficas rosadinho como um leitão. Está muito frio.
Grabriel solta-se com dificuldade dos braços que o prendem enquanto duas mãos ágeis o envolvem de creme gordo e reluzente.
- Já tenho creme em todo o lado, vês? Até no cabelo.
...
- Onde é que pensas que vais sem casaco? Anda cá imediatamente!
- Humpf!!
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
A sorte (Marlene)
Desajeitadamente Marlene deixou-se encurralar pela cigana que apregoava a leitura da sina a quem passava.
- A menina não quer saber a sua sorte? A cigana conta-lhe tudo.
- Ah, agora não posso. Estou atrasada. - Tentou esquivar-se.
- Não demora nada, menina. Leio-lhe a sorte e vai ver que chega muito a tempo.
Pegava-lhe já na mão, sem que Marlene sentisse ânimo para a demover.
- A cigana vê que a menina é muito inteligente. Tem boas notas e é muito empenhada. Vai ter um bom emprego no futuro. Um não! Dois! Vai ser bem sucedida e ganhar muito bem.
- Obrigado. Olhe...
A cigana não a deixou continuar enquanto lhe apertava mais a mão e a puxava para si.
- A cigana vê a menina num país longe daqui. Frio, branco. A menina tem também uma bata branca. Vai ser médica ou trabalhar num laboratório.
Marlene prestou finalmente atenção. Podia estar só a adivinhar, mas acertara na mouche. Deixou de retesar a mão e olhou-a interessada.
- E que mais?
A cigana percebeu que tinha agarrado a cliente.
- Vai ter muita sorte no amor. Vejo um homem bonito, alto, moreno, a falar estrangeiro.
- Filhos.
A cigana mirava, olhava, fixava, demorava, amiudava, mas não falava.
- E filhos?, insisistiu Marlene.
- Não vejo não, minha menina.
Marlene percebeu que a felicidade é só um momento fugaz.
- A menina não quer saber a sua sorte? A cigana conta-lhe tudo.
- Ah, agora não posso. Estou atrasada. - Tentou esquivar-se.
- Não demora nada, menina. Leio-lhe a sorte e vai ver que chega muito a tempo.
Pegava-lhe já na mão, sem que Marlene sentisse ânimo para a demover.
- A cigana vê que a menina é muito inteligente. Tem boas notas e é muito empenhada. Vai ter um bom emprego no futuro. Um não! Dois! Vai ser bem sucedida e ganhar muito bem.
- Obrigado. Olhe...
A cigana não a deixou continuar enquanto lhe apertava mais a mão e a puxava para si.
- A cigana vê a menina num país longe daqui. Frio, branco. A menina tem também uma bata branca. Vai ser médica ou trabalhar num laboratório.
Marlene prestou finalmente atenção. Podia estar só a adivinhar, mas acertara na mouche. Deixou de retesar a mão e olhou-a interessada.
- E que mais?
A cigana percebeu que tinha agarrado a cliente.
- Vai ter muita sorte no amor. Vejo um homem bonito, alto, moreno, a falar estrangeiro.
- Filhos.
A cigana mirava, olhava, fixava, demorava, amiudava, mas não falava.
- E filhos?, insisistiu Marlene.
- Não vejo não, minha menina.
Marlene percebeu que a felicidade é só um momento fugaz.
Subscrever:
Mensagens (Atom)