Meu avô contava uma estória que por mais anos que viva nunca me há-de esquecer.
Andava Rita Segávia a vindimar quando sentiu acolá nas videiras um restolhar. Endireitou as costas e perscrutou a pequena vinha inquisitorialmente. O olhar nada alcançou e Rita as costas encurvou novamente sem qualquer queixume. Três cachos de uvas maduras mais adiante, ruídoso estrilho tomou conta das videiras sobranceiras a Rita Segávia.
Rita livrou-se da tesoura de vindimar e apossou-se com destreza da machada. Enorme e resoluta como poucos, avançou Rita vinha adentro em direção ao local donde o barulho nascia. A machada bailava frente às pernas de Rita num ritmo compassado.
Passou Rita e a videira à sua esquerda ganhou vida. Virou-se Rita e uma cascavel levantou-se à altura dos seus olhos e atacou, cravando-lhe as presas no braço esquerdo. Ainda a víbora se desprendia e já a mão direita de Rita rodava a machada e de um golpe cortou a cabeça da víbora. Um corpo quente contorceu-se vários minutos no pó.
Morta a peçonha, Rita perscrutou a videira e desfez os três ovos de víbora aninhados no chão quente. Só então se concentrou na dor que crescia no seu braço esquerdo. Sozinha estava e sabia que a meia hora de caminho até ao casario ser-lhe-ia fatal. Resoluta, rasgou a blusa, fez um garrote por cima da mordedura e com a mão direita na machada rasgou superficialmente o braço até expurgar o veneno.
Correu célere para a aldeia. Chegou a tempo de cair aos pés de Manuel que a carregou para casa e lhe untou a ferida com azeite.
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