David estava sentado há coisa de duas horas frente ao ecrã branco do computador. O drama da folha de papel vazia havia-se actualizado e informatizado, era hoje o drama da página de word em branco.
Ao fim da primeira hora de tédio insuportável, agarrara em folhas de papel da impressora que se apressara a amachucar e a deixar cair em redor de si, apenas para criar ambiente.
Num assomo de criatividade, empertigou-se e escreveu:
"Leonor seguia altiva pela rua alheada da chuva que começava a cair copiosamente."
Aquela Leonor bailava na sua cabeça nas últimas semanas, mas não sabia como começar a sua história. Apreendeu meros apontamentos, mas faltava-lhe uma linha de água por onde os mesmos pudessem fluir como toros.
O sol vibrante que lhe entrava pela janela exasperava-o e convidava-o a saboreá-lo. David resistia com enorme dificuldade a esse convite.
Por inércia do autor, Leonor teimava em caminhar à chuva. Estaria por agora ensopada, andando em círculos vazios. Talvez tivesse perdido já toda a altivez. Desejaria mesmo sair daquela folha imaginária e descompor quem a pôs naquela situação. Leonor espirrou. David ouviu qualquer coisa em sussurro, mas não saberia descrever o quê. Cedeu ao convite do sol e foi tomar um café. Leonor aguardava à chuva.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
O susto (Porfírio)
Porfírio carregava a arma. Tremia abundantemente e o suor escorria-lhe pela cara e pelo peito. Deixou cair as munições duas vezes antes de conseguir carregar a Glock.
Suspirou, uma, duas, três vezes. Sentia que a sua respiração se ouvia a léguas de distância. Mordeu os lábios e colocou a cabeça fora da porta para espreitar. Uma bala silvou-lhe ao ouvido e, instantaneamente, deixou-se cair. Tacteou e rastejou para trás o quanto pôde, até sentir a parede irregular nas costas.
- Vais morrer! Ouviste, bófia de merda? Vais morrer hoje!
Porque demoram tanto tempo?, pensou e aquilo encheu-lhe a cabeça. Porque não se ouvem as sirenes?
Passos em corrida. Ruidosos. Apressados.
- Mataste-o?
- Ainda não. Está ali atrás.
Já não se lembrava porque fora para a polícia. Percebia agora que não dava para aquilo. Não via como escapar e não sabia como tinha ali parar. Sim, isso. Surpreendera os marginais em pleno tráfico. Dera-lhes caça, avisara o comando, mas quebrara uma regra básica de não entrar no seu território sem reforços. Que estúpido, estúpido, estúpido.
Passos mais próximos. Uma saraivada de balas. Porfírio tenta empunhar a arma e deixa-a cair. Não tem tempo de a apanhar antes do pontapé. Um bota no pescoço que o sufoca, um cano de arma na cabeça.
- Disse-te que te acabavas hoje.
Dois, três tiros que Porfírio já não ouviu. Bandidos atingidos no peito e cabeça.
- Polícia caído. Polícia caído. Precisamos de apoio médico.
- Está morto, chefe.
- Atingido?
O polícia analisou Porfírio.
- Nenhuma marca de bala, mas sem pulsação.
Porfírio não dava para aquilo e morrera de susto.
Suspirou, uma, duas, três vezes. Sentia que a sua respiração se ouvia a léguas de distância. Mordeu os lábios e colocou a cabeça fora da porta para espreitar. Uma bala silvou-lhe ao ouvido e, instantaneamente, deixou-se cair. Tacteou e rastejou para trás o quanto pôde, até sentir a parede irregular nas costas.
- Vais morrer! Ouviste, bófia de merda? Vais morrer hoje!
Porque demoram tanto tempo?, pensou e aquilo encheu-lhe a cabeça. Porque não se ouvem as sirenes?
Passos em corrida. Ruidosos. Apressados.
- Mataste-o?
- Ainda não. Está ali atrás.
Já não se lembrava porque fora para a polícia. Percebia agora que não dava para aquilo. Não via como escapar e não sabia como tinha ali parar. Sim, isso. Surpreendera os marginais em pleno tráfico. Dera-lhes caça, avisara o comando, mas quebrara uma regra básica de não entrar no seu território sem reforços. Que estúpido, estúpido, estúpido.
Passos mais próximos. Uma saraivada de balas. Porfírio tenta empunhar a arma e deixa-a cair. Não tem tempo de a apanhar antes do pontapé. Um bota no pescoço que o sufoca, um cano de arma na cabeça.
- Disse-te que te acabavas hoje.
Dois, três tiros que Porfírio já não ouviu. Bandidos atingidos no peito e cabeça.
- Polícia caído. Polícia caído. Precisamos de apoio médico.
- Está morto, chefe.
- Atingido?
O polícia analisou Porfírio.
- Nenhuma marca de bala, mas sem pulsação.
Porfírio não dava para aquilo e morrera de susto.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O tango (Andreia)
Andreia sentiu o calor do corpo de Carlos junto ao seu. Os passos ritmados do tango inebriavam-na e sentia-se levitar. Parecia-lhe que, por momentos, não era ela que estava ali, mas uma outra mulher, menos tímida, menos acanhada, mais afirmativa e confiante.
Carlos rodopiava e fazia-a rodopiar sobre si. Dançavam de olhos cerrados, como se o tango houvesse sido criado para ser dançado num céu estrelado. Nem um sinal de hesitação, nenhuma margem de dúvida sobre os limites da pista. Conhecimento total dos limites do corpo. A mão de Carlos roçou o seio de Andreia num gesto natural. Lançou-a para a frente e agarrou-lhe a mão firmemente puxando-a para si. Deixou-se arrastar até ele com a perna esquerda estendida, terminando sensualmente no salto de tacão que ia lambendo o chão. Carlos apertou-a novamente contra si, cuspiu a rosa que tinha entre os dentes e beijou-a apaixonadamente.
Andreia deixou-se embalar docemente pelos lábios carnudos e experientes de Carlos. E sentiu que levitava.
Carlos rodopiava e fazia-a rodopiar sobre si. Dançavam de olhos cerrados, como se o tango houvesse sido criado para ser dançado num céu estrelado. Nem um sinal de hesitação, nenhuma margem de dúvida sobre os limites da pista. Conhecimento total dos limites do corpo. A mão de Carlos roçou o seio de Andreia num gesto natural. Lançou-a para a frente e agarrou-lhe a mão firmemente puxando-a para si. Deixou-se arrastar até ele com a perna esquerda estendida, terminando sensualmente no salto de tacão que ia lambendo o chão. Carlos apertou-a novamente contra si, cuspiu a rosa que tinha entre os dentes e beijou-a apaixonadamente.
Andreia deixou-se embalar docemente pelos lábios carnudos e experientes de Carlos. E sentiu que levitava.
O tempo de um cigarro (Filipe)
Filipe aspirava suavemente o fumo mentolado do seu cigarro de enrolar. A manhã estava fresca e o pátio exterior do edifício de escritórios ainda despojado dos demais fumadores de ocasião.
Filipe apreciava o bulício matinal de Londres. Carros e pessoas entrecuzavam-se de forma organizada e apressada. Ao largo, uma senhora bem posta passeava um desprezível caniche. Ao fundo um jovem de skate serpenteava por entre as pessoas. Na estrada, as bicicletas conquistavam os primeiros lugares nos semáforos aos automóveis.
O queimar da mortalha do cigarro impunha-se luminosamente. Filipe travou, saboreou e exalou.
- Good morning!
O som vindo das suas costas impôs que se virasse antes de responder.
- Good morning.
- Can you borrow me a light?
- Of course.
Filipe acendeu-lhe o cigarro e mirou-a. Achou-a espalhafatosa e desinteressante.
- Thanks. You are in the third floor, right?
- Yes. - respondeu secamente.
Decidiu terminar o cigarro. Apagou-o.
Sentiu que ia ser questionado novamente. Atirou um "bye" e desapareceu.
A criatura, sozinha, suspirou de enfado.
Filipe apreciava o bulício matinal de Londres. Carros e pessoas entrecuzavam-se de forma organizada e apressada. Ao largo, uma senhora bem posta passeava um desprezível caniche. Ao fundo um jovem de skate serpenteava por entre as pessoas. Na estrada, as bicicletas conquistavam os primeiros lugares nos semáforos aos automóveis.
O queimar da mortalha do cigarro impunha-se luminosamente. Filipe travou, saboreou e exalou.
- Good morning!
O som vindo das suas costas impôs que se virasse antes de responder.
- Good morning.
- Can you borrow me a light?
- Of course.
Filipe acendeu-lhe o cigarro e mirou-a. Achou-a espalhafatosa e desinteressante.
- Thanks. You are in the third floor, right?
- Yes. - respondeu secamente.
Decidiu terminar o cigarro. Apagou-o.
Sentiu que ia ser questionado novamente. Atirou um "bye" e desapareceu.
A criatura, sozinha, suspirou de enfado.
sábado, 18 de junho de 2011
O colete (Alexandra)
Alexandra folheava descuidadamente um livro. Aborreciam-na aqueles dias de canícula em pleno Alentejo. O monte encimava a planície que se espraiava para oeste numa matriz irregular de terrenos de sobreiros e doiradas searas de trigo. O tempo seco e quente impunha também a secura de ideias e de vontades.
A cadeira de baloiço por baixo do grande alpendre beneficiava da sombra que o mesmo proporcionava, mas a aragem não corria, o que a deixava numa modorra que não conseguia controlar.
Perdeu-se do tempo por um lapso do mesmo.
Uma nuvem de poeira verticalizava-se na estrada de acesso ao monte. Um carro branco galgava a estrada até à casa. O sol caia impediosamente sobre carro, como sobre tudo o que mexia e não mexia, e ofuscava quem lhe fixava a vista.
Alexandra levantou-se para indagar quem era. O colete branco de algodão estava descuidadamente desapertado e deixava entrever o peito firme da adolescente. Alexandra apertou um botão mais no exacto momento em que o condutor saia do carro.
- Boa tarde.
- Boa tarde. - replicou Alexandra.
Alexandra sentiu o olhar daquele homem aquecer-lhe as coxas, que os seus calções azuis orgulhosamente deixavam exibir, como se de um prémio se tratasse. Interessou-se por aquele olhar interesseiro.
- Procuro o Monte dos Pardais.
Alexandra esperou uns segundos e olhou-o semi-cerrando os olhos.
- Tem de seguir na estrada em que vinha mais uns 5 km. É um portão azul e branco à sua direita na estrada.
O estranho fixou-a e deixou-se estar naquele estado meditativo mais uns segundos. Alexandra adivinhou-lhe os desejos e abriu o botão do colete que havia apertado há pouco.
O estranho agradeceu e dirigiu-se ao carro. Fez o movimento para entrar e levantou-se novamente.
- O seu nome é?
- Xana. - disse-lhe displicentemente enquanto mexia no colete.
- Obrigado. Ver-nos-emos, tenho a certeza.
Meteu-se no carro e desapareceu pela estrada.
- Quem era? - perguntava a avó a Alexandra, entretanto aparecida.
- Alguém a procurar o Monte dos Pardais.
- Hum.
Uma aragem corria agora e Alexandra despertou. Deixou-se estar ainda um pouco, baloçando-se suavemente. Rememoriou o que havia vivenciado há pouco e não soube responder se aquilo foi sonho ou aconteceu mesmo. Deixou no alpendre o livro que estava a ler, «Lolita», e foi para dentro, sorrindo.
A cadeira de baloiço por baixo do grande alpendre beneficiava da sombra que o mesmo proporcionava, mas a aragem não corria, o que a deixava numa modorra que não conseguia controlar.
Perdeu-se do tempo por um lapso do mesmo.
Uma nuvem de poeira verticalizava-se na estrada de acesso ao monte. Um carro branco galgava a estrada até à casa. O sol caia impediosamente sobre carro, como sobre tudo o que mexia e não mexia, e ofuscava quem lhe fixava a vista.
Alexandra levantou-se para indagar quem era. O colete branco de algodão estava descuidadamente desapertado e deixava entrever o peito firme da adolescente. Alexandra apertou um botão mais no exacto momento em que o condutor saia do carro.
- Boa tarde.
- Boa tarde. - replicou Alexandra.
Alexandra sentiu o olhar daquele homem aquecer-lhe as coxas, que os seus calções azuis orgulhosamente deixavam exibir, como se de um prémio se tratasse. Interessou-se por aquele olhar interesseiro.
- Procuro o Monte dos Pardais.
Alexandra esperou uns segundos e olhou-o semi-cerrando os olhos.
- Tem de seguir na estrada em que vinha mais uns 5 km. É um portão azul e branco à sua direita na estrada.
O estranho fixou-a e deixou-se estar naquele estado meditativo mais uns segundos. Alexandra adivinhou-lhe os desejos e abriu o botão do colete que havia apertado há pouco.
O estranho agradeceu e dirigiu-se ao carro. Fez o movimento para entrar e levantou-se novamente.
- O seu nome é?
- Xana. - disse-lhe displicentemente enquanto mexia no colete.
- Obrigado. Ver-nos-emos, tenho a certeza.
Meteu-se no carro e desapareceu pela estrada.
- Quem era? - perguntava a avó a Alexandra, entretanto aparecida.
- Alguém a procurar o Monte dos Pardais.
- Hum.
Uma aragem corria agora e Alexandra despertou. Deixou-se estar ainda um pouco, baloçando-se suavemente. Rememoriou o que havia vivenciado há pouco e não soube responder se aquilo foi sonho ou aconteceu mesmo. Deixou no alpendre o livro que estava a ler, «Lolita», e foi para dentro, sorrindo.
terça-feira, 14 de junho de 2011
A dívida (Sebastião)
- Sebastião. Chama-se Sebastião Almeida de Portugal como o bisavô.
Afonso olhava embevecido para o filho recém-nascido que chorava. Onde a parteira apenas conseguia ver um bebé engelhado pelo aperto no momento da expulsão, Afonso projectava nele todo o porte nobliárquico dos Almeida de Portugal, família cujas origens se confundiam com as do próprio país.
A família estava quase falida. As terras haviam sido vendidas há muito. Enfim, sobravam uns pequenos sobrados, uns minúsculos coutos aqui e ali, esparsamente espalhados. Nada de valor. Nada que valesse a pena cultivar intensivamente e que, por isso, não tiveram comprador. Mas, a dignidade do porte não se aliena, não se vende ou trasfere, eterniza-se nas gerações vindouras.
- O menino está bem. Agora é esperar que a Senhora D. Eugénia tenha leite. Até lá, água de arroz para manter o menino. Nada mais. A cabeça engelhadinha irá ao sítio nos próximos dias. Nada de preocupações por isso. Para a mãe, descanso absoluto.
Afonso deixou-a sair grunhindo para si. E em seguida explodiu:
- Uma bárbara. Uma reles e rude bárbara. Ter o privilégio de fazer nascer a nova geração dos Almeida de Portugal e tem o despropósito de dizer que o infante tem a cabeça engelhada. Uma bruta. Incapaz de reconhecer um porte nobre. Indigna de tudo isto. Tenho vontade de não lhe pagar.
- Afonso. A Aurora não está à espera que lhe pagues. Ela sabe que não temos dinheiro e aceitou fazer nascer o menino porque a tua mãe, nos bons tempos, deu guarida e ajudou a família dela. - dizia Eugénia num assomo de dores.
- Pois pagar-lhe-ei. Isso será ponto de honra.
- Como?
- Isso agora não sei, nem é importante. Importante é que lhe pagarei, nem que seja Sebastião a fazê-lo por mim.
Vinte e dois anos depois, Sebastião Almeida de Portugal casava com Henriqueta Valadas, neta de Aurora. Esta assistiu ainda e feiz ao enlace e considerou a dívida paga. Sebastião saldara a dívida concedendo o seu nome de família nobre à baixa burguesia aldeã.
Afonso olhava embevecido para o filho recém-nascido que chorava. Onde a parteira apenas conseguia ver um bebé engelhado pelo aperto no momento da expulsão, Afonso projectava nele todo o porte nobliárquico dos Almeida de Portugal, família cujas origens se confundiam com as do próprio país.
A família estava quase falida. As terras haviam sido vendidas há muito. Enfim, sobravam uns pequenos sobrados, uns minúsculos coutos aqui e ali, esparsamente espalhados. Nada de valor. Nada que valesse a pena cultivar intensivamente e que, por isso, não tiveram comprador. Mas, a dignidade do porte não se aliena, não se vende ou trasfere, eterniza-se nas gerações vindouras.
- O menino está bem. Agora é esperar que a Senhora D. Eugénia tenha leite. Até lá, água de arroz para manter o menino. Nada mais. A cabeça engelhadinha irá ao sítio nos próximos dias. Nada de preocupações por isso. Para a mãe, descanso absoluto.
Afonso deixou-a sair grunhindo para si. E em seguida explodiu:
- Uma bárbara. Uma reles e rude bárbara. Ter o privilégio de fazer nascer a nova geração dos Almeida de Portugal e tem o despropósito de dizer que o infante tem a cabeça engelhada. Uma bruta. Incapaz de reconhecer um porte nobre. Indigna de tudo isto. Tenho vontade de não lhe pagar.
- Afonso. A Aurora não está à espera que lhe pagues. Ela sabe que não temos dinheiro e aceitou fazer nascer o menino porque a tua mãe, nos bons tempos, deu guarida e ajudou a família dela. - dizia Eugénia num assomo de dores.
- Pois pagar-lhe-ei. Isso será ponto de honra.
- Como?
- Isso agora não sei, nem é importante. Importante é que lhe pagarei, nem que seja Sebastião a fazê-lo por mim.
Vinte e dois anos depois, Sebastião Almeida de Portugal casava com Henriqueta Valadas, neta de Aurora. Esta assistiu ainda e feiz ao enlace e considerou a dívida paga. Sebastião saldara a dívida concedendo o seu nome de família nobre à baixa burguesia aldeã.
domingo, 12 de junho de 2011
Separação (Simão)
Simão sofria ali a primeira separação da sua vida. Não tinha ciência desse facto, mas vivenciava-o de uma forma assombrosa. Sentiu-se arrancado da bolsa protectora onde se formara nos últimos 9 meses.
O ar frio invadiu-lhe os pulmões. Era uma sensação nova e dolorosa. Chorou colocando naquele choro o mais profundo que tinha em si.
A separação consumou-se com o cortar do cordão umbilical. Definitiva e friamente, sem qualquer possibilidade de arrependimento. Os nascimentos não admitem devoluções. Quando o fruto está maduro deve ser colhido.
Seria a primeira de muitas separações que a vida lhe reservaria. Deixaria a casa dos pais para estudar, no que seria deixar novamente a placenta materna. Voltaria por breves instantes, mas para se separar definitvamente pelo casamento. Hoje já ninguém lhe chama casamento, mas é o que é, de facto.
Separar-se-ia da sua namorada ou mulher, conforme as conveninências momentâneas.
Separar-se-ia do seu país, muitas vezes e uma só.
Separar-se-ia dos seus pais um dia.
Só muito mais tarde reflectiria o quanto da nossa vida é construída com separações. Em todas elas morremos um pouco.
O ar frio invadiu-lhe os pulmões. Era uma sensação nova e dolorosa. Chorou colocando naquele choro o mais profundo que tinha em si.
A separação consumou-se com o cortar do cordão umbilical. Definitiva e friamente, sem qualquer possibilidade de arrependimento. Os nascimentos não admitem devoluções. Quando o fruto está maduro deve ser colhido.
Seria a primeira de muitas separações que a vida lhe reservaria. Deixaria a casa dos pais para estudar, no que seria deixar novamente a placenta materna. Voltaria por breves instantes, mas para se separar definitvamente pelo casamento. Hoje já ninguém lhe chama casamento, mas é o que é, de facto.
Separar-se-ia da sua namorada ou mulher, conforme as conveninências momentâneas.
Separar-se-ia do seu país, muitas vezes e uma só.
Separar-se-ia dos seus pais um dia.
Só muito mais tarde reflectiria o quanto da nossa vida é construída com separações. Em todas elas morremos um pouco.
Primitivo (Matilde)
- Matilde, venha buscar o seu bebé!
- Ahh.
- Vamos. Tire-o de dentro de si e leve-o para o colo.
Matilde esqueceu de súbito as dores e o nervoso do parto. Auxiliada pelos enfermeiros, dobrou-se sobre si, venceu a distância que separava os seus braços das suas pernas e a dificuldade da barriga de grávida que ostentava, agarrou o bebé por baixo dos seus bracinhos e puxou-o, com quanta força tinha, para si.
- Ó meu querido, meu filhinho, pequenino.
Simão chorou a plenos pulmões quando sentiu o ar frio a inundá-lo.
O pai da criança, à sua beira, chorava emocionado.
Numa era de produtos feitos, embalados e entregues em nossa casa, havia algo de profundamente primitivo, mas emocionantemente poético, em ver uma mãe a arrancar um filho das suas próprias entranhas.
O pai chorava como se fosse o primeiro filho. Cortou o cordão umbilical.
Obrigado Maria Antónia e Laura por este momento que nunca esqueceremos.
- Ahh.
- Vamos. Tire-o de dentro de si e leve-o para o colo.
Matilde esqueceu de súbito as dores e o nervoso do parto. Auxiliada pelos enfermeiros, dobrou-se sobre si, venceu a distância que separava os seus braços das suas pernas e a dificuldade da barriga de grávida que ostentava, agarrou o bebé por baixo dos seus bracinhos e puxou-o, com quanta força tinha, para si.
- Ó meu querido, meu filhinho, pequenino.
Simão chorou a plenos pulmões quando sentiu o ar frio a inundá-lo.
O pai da criança, à sua beira, chorava emocionado.
Numa era de produtos feitos, embalados e entregues em nossa casa, havia algo de profundamente primitivo, mas emocionantemente poético, em ver uma mãe a arrancar um filho das suas próprias entranhas.
O pai chorava como se fosse o primeiro filho. Cortou o cordão umbilical.
Obrigado Maria Antónia e Laura por este momento que nunca esqueceremos.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
O choque (Pedro)
Pedro fora pai pela primeira vez. Ficara mudo. Mesmo. Mudo mesmo. Perdera a capacidade da fala quando o seu filho varão, dois segundos depois de sair do saco protector explodiu num choro ansioso e anseado.
Passou de pai choroso a raridade médica numa fracção de tempo tão pequena que só um relógio atómico de elevadíssima precisão conseguiria medir.
A todos o caso fazia lembrar a situação de Zacarias, não fora o facto de ser precisamente a inversa. Gabriel havia tornado Zacarias mudo e quedo até ao nascimento de seu filho João Baptista e a língua só se destravou no exacto momento em que após o nascimento lhe perguntaram o nome da criança.
Pedro invejava Zacarias. Que importância tinham todas as palavras que dissera até esse dia, se no dia do nascimento do seu primeiro filho não conseguia vocalizar o seu nome.
Estava em choque, diziam os médicos, que classificavam tudo o que não podiam tratar como um choque que poderia passar a qualquer momento ou nunca passar.
Pedro nunca pensara seriamente em ser pai. Era feio, muito narigudo, daqueles retorcidos. Daqueles narizes que ao invés de darem personalidade, como se diz, têm o poder de destruir uma personalidade. Pedro sobrevivera ao seu nariz.
Encontrara Vera. Invisual, mas não para as questões de carácter. Da exterior nada poderia dizer, da interior tudo sabia e nunca encontrara pessoa melhor que Pedro. Decidiu que se lhe entregaria, casariam, teriam filhos e seriam felizes.
- Que nome dão à criança? - perguntava a oficial do registo civil.
- João Pedro., disse a mãe.
A oficial olhava para Pedro. Pedro anuiu. João Pedro chorou novamente. A língua de Pedro soltou-se.
Passou de pai choroso a raridade médica numa fracção de tempo tão pequena que só um relógio atómico de elevadíssima precisão conseguiria medir.
A todos o caso fazia lembrar a situação de Zacarias, não fora o facto de ser precisamente a inversa. Gabriel havia tornado Zacarias mudo e quedo até ao nascimento de seu filho João Baptista e a língua só se destravou no exacto momento em que após o nascimento lhe perguntaram o nome da criança.
Pedro invejava Zacarias. Que importância tinham todas as palavras que dissera até esse dia, se no dia do nascimento do seu primeiro filho não conseguia vocalizar o seu nome.
Estava em choque, diziam os médicos, que classificavam tudo o que não podiam tratar como um choque que poderia passar a qualquer momento ou nunca passar.
Pedro nunca pensara seriamente em ser pai. Era feio, muito narigudo, daqueles retorcidos. Daqueles narizes que ao invés de darem personalidade, como se diz, têm o poder de destruir uma personalidade. Pedro sobrevivera ao seu nariz.
Encontrara Vera. Invisual, mas não para as questões de carácter. Da exterior nada poderia dizer, da interior tudo sabia e nunca encontrara pessoa melhor que Pedro. Decidiu que se lhe entregaria, casariam, teriam filhos e seriam felizes.
- Que nome dão à criança? - perguntava a oficial do registo civil.
- João Pedro., disse a mãe.
A oficial olhava para Pedro. Pedro anuiu. João Pedro chorou novamente. A língua de Pedro soltou-se.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Até à próxima (Isabel)
Isabel estava distraída, perdão, era distraída. A distracção era nela um estado de permanência, daqueles que se cravam em nós e se mimetizam para que não demos por eles, até que se acabam por alojar debaixo da nossa pele. O mais completo alheamento do mundo era uma característica imanente em Isabel.
A clarividência deste seu traço de personalidade impunha-se-lhe agora, enquanto se confrontava com a multa que estava prestes a receber.
- Livrete do carro?
...
- Aqui está.
- A senhora não se apercebeu que vinha em contra-mão?
- Verdadeiramente, não.
- Mas tem agora consciência do perigo em que se colocou e em que colocou os outros condutores?
- Sem dúvida, senhor guarda. Tenho plena consciência e arrependimento pela situação.
- Pois. O arrependimento serve-lhe de pouco agora.
O barulho do auto de multa a ser rasgado confirmou-lhe que o destino se fechara, como num círculo.
- Aqui tem. Siga as instruções no verso para proceder ao pagamento. Agora dê a volta e siga por aquele lado, por favor.
- Bom dia, senhor guarda.
- Muito bom dia, minha senhora.
Isabel entrou no carro. Fechou a porta. Esperou que o guarda se virasse e abriu o guarda-luvas. Um monte de papéis verdes caiu e teimou em cair, quando Isabel lhes aconchegou o novo amigo, o terceiro da semana.
Um novo aperto e porta-luvas fechado. Até à próxima.
A clarividência deste seu traço de personalidade impunha-se-lhe agora, enquanto se confrontava com a multa que estava prestes a receber.
- Livrete do carro?
...
- Aqui está.
- A senhora não se apercebeu que vinha em contra-mão?
- Verdadeiramente, não.
- Mas tem agora consciência do perigo em que se colocou e em que colocou os outros condutores?
- Sem dúvida, senhor guarda. Tenho plena consciência e arrependimento pela situação.
- Pois. O arrependimento serve-lhe de pouco agora.
O barulho do auto de multa a ser rasgado confirmou-lhe que o destino se fechara, como num círculo.
- Aqui tem. Siga as instruções no verso para proceder ao pagamento. Agora dê a volta e siga por aquele lado, por favor.
- Bom dia, senhor guarda.
- Muito bom dia, minha senhora.
Isabel entrou no carro. Fechou a porta. Esperou que o guarda se virasse e abriu o guarda-luvas. Um monte de papéis verdes caiu e teimou em cair, quando Isabel lhes aconchegou o novo amigo, o terceiro da semana.
Um novo aperto e porta-luvas fechado. Até à próxima.
domingo, 5 de junho de 2011
Mudanças (César)
César levantou os estores a custo. A luminosidade do meio-dia ofuscava-lhe os olhos e a clarividência de raciocínio. Teve de violentar-se para resistir a tapar novamente a janela e arrastar-se até à casa de banho.
A água gelada caiu-lhe sobre o corpo. Deu um grito mudo. Aguentou o embate e acordou finalmente. Começou ali o seu dia.
Rememoriou tudo o que teria para fazer. Era só uma coisa, mas era na realidade muita coisa. Empacotar todos os pertences para que no dia seguinte pudessem ser mudados para uma nova casa. Mais pequena. Mais escura. Mais à sua medida, portanto. Era um homem solitário e trabalhava de noite. Não precisava de uma casa com muitas divisões nem de uma casa com muita luz. Ademais, as casas mais pequenas e lúgubres eram de renda mais barata e isso era-lhe muito conveniente agora. Especialmente agora.
Abriu o frigorífico e engoliu um pedaço de pizza com dois dias. Saciada a fome, lançou mãos ao trabalho.
As mudanças fazem-nos aperceber de que por muito pouco que tenhamos, temos sempre mais do que pensamos e duas vezes mais do que precisamos. Pensou em separar o que queria levar do que poderia simplesmente deitar fora. Desistiu da ideia, não teria tempo, podia fazê-lo mais tarde, no novo apartamento.
Livros, revistas, roupas que já não usava, utensílios vários. Grunhiu de desespero.
As caixas amontoavam-se.
Sem esperar, saltou-lhe para o colo uma moldura. Uma menina acenava, sorrindo.
Parou. Sentiu uma lágrima a querer soltar-se. Jamais!
Agarrou o casaco de cabedal e saiu porta fora.
A água gelada caiu-lhe sobre o corpo. Deu um grito mudo. Aguentou o embate e acordou finalmente. Começou ali o seu dia.
Rememoriou tudo o que teria para fazer. Era só uma coisa, mas era na realidade muita coisa. Empacotar todos os pertences para que no dia seguinte pudessem ser mudados para uma nova casa. Mais pequena. Mais escura. Mais à sua medida, portanto. Era um homem solitário e trabalhava de noite. Não precisava de uma casa com muitas divisões nem de uma casa com muita luz. Ademais, as casas mais pequenas e lúgubres eram de renda mais barata e isso era-lhe muito conveniente agora. Especialmente agora.
Abriu o frigorífico e engoliu um pedaço de pizza com dois dias. Saciada a fome, lançou mãos ao trabalho.
As mudanças fazem-nos aperceber de que por muito pouco que tenhamos, temos sempre mais do que pensamos e duas vezes mais do que precisamos. Pensou em separar o que queria levar do que poderia simplesmente deitar fora. Desistiu da ideia, não teria tempo, podia fazê-lo mais tarde, no novo apartamento.
Livros, revistas, roupas que já não usava, utensílios vários. Grunhiu de desespero.
As caixas amontoavam-se.
Sem esperar, saltou-lhe para o colo uma moldura. Uma menina acenava, sorrindo.
Parou. Sentiu uma lágrima a querer soltar-se. Jamais!
Agarrou o casaco de cabedal e saiu porta fora.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
A cabra (Laura)
- Laura. Chiba Laura. Aqui!
O orgulhoso rebanho agrupava-se atrás da sua liderança, no feminino, como todas as grandes lideranças de hoje em dia. Uma liderança sem cornos. Enfim, sem cornos daqueles excessivos, meros ornamentos escondendo chefias masculinas fracas e ocas.
Laura era uma cabra altiva, com porte, com brio e com chifres adequados à estatura moral que alcançara no rebanho.
Era ela que conduzia o rebanho às pastagens. Sim, o pastor também lá ia, passeando. Não necessitavam dele. Laura sabia bem onde estavam as pastagens, conhecia bem as rotinas das cabras, não fosse ela uma cabra já há uns anos fartos.
No verão subiam mais, no inverno subiam menos ou nem sequer saiam, que, por vezes, os rigores dos invernosos ventos das beiras só se combatem com o calor do grupo, dentro do cortelho. Nesses dias, até a palha loura lhes sabe tão bem como o feno ou a erva fresca e verdejante. Reconhecia que nesses dias quem lhes valia era o pastor. Não fora ele e seriam dias que não se suportavam.
- Laura.
Os cascos batendo no granito do chão produziam um batuque sonoro e ritmado. Os badalos curtos compunham a orquestra desafinada, embora isso pouco importasse às cabras que, como é sabido, não se interessam por música.
Entram na praça da aldeia.
- Laura. Laura!
Uma janela de guilhotina abre-se queixando-se da idade.
- Boas, Sr. António. Cuido que me chamou.
- Eu? Eu não, D. Laura. Estava puxando pela minha chiba. Boa tarde. Anda Laura!
A janela deixou-se cair com estrilho.
O orgulhoso rebanho agrupava-se atrás da sua liderança, no feminino, como todas as grandes lideranças de hoje em dia. Uma liderança sem cornos. Enfim, sem cornos daqueles excessivos, meros ornamentos escondendo chefias masculinas fracas e ocas.
Laura era uma cabra altiva, com porte, com brio e com chifres adequados à estatura moral que alcançara no rebanho.
Era ela que conduzia o rebanho às pastagens. Sim, o pastor também lá ia, passeando. Não necessitavam dele. Laura sabia bem onde estavam as pastagens, conhecia bem as rotinas das cabras, não fosse ela uma cabra já há uns anos fartos.
No verão subiam mais, no inverno subiam menos ou nem sequer saiam, que, por vezes, os rigores dos invernosos ventos das beiras só se combatem com o calor do grupo, dentro do cortelho. Nesses dias, até a palha loura lhes sabe tão bem como o feno ou a erva fresca e verdejante. Reconhecia que nesses dias quem lhes valia era o pastor. Não fora ele e seriam dias que não se suportavam.
- Laura.
Os cascos batendo no granito do chão produziam um batuque sonoro e ritmado. Os badalos curtos compunham a orquestra desafinada, embora isso pouco importasse às cabras que, como é sabido, não se interessam por música.
Entram na praça da aldeia.
- Laura. Laura!
Uma janela de guilhotina abre-se queixando-se da idade.
- Boas, Sr. António. Cuido que me chamou.
- Eu? Eu não, D. Laura. Estava puxando pela minha chiba. Boa tarde. Anda Laura!
A janela deixou-se cair com estrilho.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O amigo Becas (Maria)
Maria olhava a filha com admiração. Cinco réis de gente, cinco anos mal feitos, e a criar frases elaboradas que a deixavam boquiaberta.
- Não achas ridículo estares a falar sózinha, mãe?
Um riso nervoso de espanto.
- Isabel. Sabes o que quer dizer ridículo?
- É uma coisa sem sentido. Não faz sentido as pessoas falarem sózinhas, por isso é ridículo.
Novo sorriso de espanto.
- E tu, Isabel? Nunca falas sózinha.
- Eu não. Eu falo sempre com o Becas.
- Quem é o Becas?
- É o meu amigo invisível.
- Ai sim? E como sabes onde ele está, se ele é invisível?
- Ele diz-me.
- Muito bem. E onde está ele agora?
- Estou aqui ao teu lado.
Maria parou o carro abruptamente. Encostou-o atabalhoadamente à berma e saiu. Contornou o carro e tirou Isabel.
- O que foi mãe?
- Estou a precisar de beber uma água, só isso. Anda, dá-me a mão.
Desde esse dia Maria deixou de falar sózinha.
- Não achas ridículo estares a falar sózinha, mãe?
Um riso nervoso de espanto.
- Isabel. Sabes o que quer dizer ridículo?
- É uma coisa sem sentido. Não faz sentido as pessoas falarem sózinhas, por isso é ridículo.
Novo sorriso de espanto.
- E tu, Isabel? Nunca falas sózinha.
- Eu não. Eu falo sempre com o Becas.
- Quem é o Becas?
- É o meu amigo invisível.
- Ai sim? E como sabes onde ele está, se ele é invisível?
- Ele diz-me.
- Muito bem. E onde está ele agora?
- Estou aqui ao teu lado.
Maria parou o carro abruptamente. Encostou-o atabalhoadamente à berma e saiu. Contornou o carro e tirou Isabel.
- O que foi mãe?
- Estou a precisar de beber uma água, só isso. Anda, dá-me a mão.
Desde esse dia Maria deixou de falar sózinha.
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