sábado, 18 de junho de 2011

O colete (Alexandra)

Alexandra folheava descuidadamente um livro. Aborreciam-na aqueles dias de canícula em pleno Alentejo. O monte encimava a planície que se espraiava para oeste numa matriz irregular de terrenos de sobreiros e doiradas searas de trigo. O tempo seco e quente impunha também a secura de ideias e de vontades.
A cadeira de baloiço por baixo do grande alpendre beneficiava da sombra que o mesmo proporcionava, mas a aragem não corria, o que a deixava numa modorra que não conseguia controlar.
Perdeu-se do tempo por um lapso do mesmo.
Uma nuvem de poeira verticalizava-se na estrada de acesso ao monte. Um carro branco galgava a estrada até à casa. O sol caia impediosamente sobre carro, como sobre tudo o que mexia e não mexia, e ofuscava quem lhe fixava a vista.
Alexandra levantou-se para indagar quem era. O colete branco de algodão estava descuidadamente desapertado e deixava entrever o peito firme da adolescente. Alexandra apertou um botão mais no exacto momento em que o condutor saia do carro.
- Boa tarde.
- Boa tarde. - replicou Alexandra.
Alexandra sentiu o olhar daquele homem aquecer-lhe as coxas, que os seus calções azuis orgulhosamente deixavam exibir, como se de um prémio se tratasse. Interessou-se por aquele olhar interesseiro.
- Procuro o Monte dos Pardais.
Alexandra esperou uns segundos e olhou-o semi-cerrando os olhos.
- Tem de seguir na estrada em que vinha mais uns 5 km. É um portão azul e branco à sua direita na estrada.
O estranho fixou-a e deixou-se estar naquele estado meditativo mais uns segundos. Alexandra adivinhou-lhe os desejos e abriu o botão do colete que havia apertado há pouco.
O estranho agradeceu e dirigiu-se ao carro. Fez o movimento para entrar e levantou-se novamente.
- O seu nome é?
- Xana. - disse-lhe displicentemente enquanto mexia no colete.
- Obrigado. Ver-nos-emos, tenho a certeza.
Meteu-se no carro e desapareceu pela estrada.
- Quem era? - perguntava a avó a Alexandra, entretanto aparecida.
- Alguém a procurar o Monte dos Pardais.
- Hum.
Uma aragem corria agora e Alexandra despertou. Deixou-se estar ainda um pouco, baloçando-se suavemente. Rememoriou o que havia vivenciado há pouco e não soube responder se aquilo foi sonho ou aconteceu mesmo. Deixou no alpendre o livro que estava a ler, «Lolita», e foi para dentro, sorrindo.

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