- Sebastião. Chama-se Sebastião Almeida de Portugal como o bisavô.
Afonso olhava embevecido para o filho recém-nascido que chorava. Onde a parteira apenas conseguia ver um bebé engelhado pelo aperto no momento da expulsão, Afonso projectava nele todo o porte nobliárquico dos Almeida de Portugal, família cujas origens se confundiam com as do próprio país.
A família estava quase falida. As terras haviam sido vendidas há muito. Enfim, sobravam uns pequenos sobrados, uns minúsculos coutos aqui e ali, esparsamente espalhados. Nada de valor. Nada que valesse a pena cultivar intensivamente e que, por isso, não tiveram comprador. Mas, a dignidade do porte não se aliena, não se vende ou trasfere, eterniza-se nas gerações vindouras.
- O menino está bem. Agora é esperar que a Senhora D. Eugénia tenha leite. Até lá, água de arroz para manter o menino. Nada mais. A cabeça engelhadinha irá ao sítio nos próximos dias. Nada de preocupações por isso. Para a mãe, descanso absoluto.
Afonso deixou-a sair grunhindo para si. E em seguida explodiu:
- Uma bárbara. Uma reles e rude bárbara. Ter o privilégio de fazer nascer a nova geração dos Almeida de Portugal e tem o despropósito de dizer que o infante tem a cabeça engelhada. Uma bruta. Incapaz de reconhecer um porte nobre. Indigna de tudo isto. Tenho vontade de não lhe pagar.
- Afonso. A Aurora não está à espera que lhe pagues. Ela sabe que não temos dinheiro e aceitou fazer nascer o menino porque a tua mãe, nos bons tempos, deu guarida e ajudou a família dela. - dizia Eugénia num assomo de dores.
- Pois pagar-lhe-ei. Isso será ponto de honra.
- Como?
- Isso agora não sei, nem é importante. Importante é que lhe pagarei, nem que seja Sebastião a fazê-lo por mim.
Vinte e dois anos depois, Sebastião Almeida de Portugal casava com Henriqueta Valadas, neta de Aurora. Esta assistiu ainda e feiz ao enlace e considerou a dívida paga. Sebastião saldara a dívida concedendo o seu nome de família nobre à baixa burguesia aldeã.
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