- Laura. Chiba Laura. Aqui!
O orgulhoso rebanho agrupava-se atrás da sua liderança, no feminino, como todas as grandes lideranças de hoje em dia. Uma liderança sem cornos. Enfim, sem cornos daqueles excessivos, meros ornamentos escondendo chefias masculinas fracas e ocas.
Laura era uma cabra altiva, com porte, com brio e com chifres adequados à estatura moral que alcançara no rebanho.
Era ela que conduzia o rebanho às pastagens. Sim, o pastor também lá ia, passeando. Não necessitavam dele. Laura sabia bem onde estavam as pastagens, conhecia bem as rotinas das cabras, não fosse ela uma cabra já há uns anos fartos.
No verão subiam mais, no inverno subiam menos ou nem sequer saiam, que, por vezes, os rigores dos invernosos ventos das beiras só se combatem com o calor do grupo, dentro do cortelho. Nesses dias, até a palha loura lhes sabe tão bem como o feno ou a erva fresca e verdejante. Reconhecia que nesses dias quem lhes valia era o pastor. Não fora ele e seriam dias que não se suportavam.
- Laura.
Os cascos batendo no granito do chão produziam um batuque sonoro e ritmado. Os badalos curtos compunham a orquestra desafinada, embora isso pouco importasse às cabras que, como é sabido, não se interessam por música.
Entram na praça da aldeia.
- Laura. Laura!
Uma janela de guilhotina abre-se queixando-se da idade.
- Boas, Sr. António. Cuido que me chamou.
- Eu? Eu não, D. Laura. Estava puxando pela minha chiba. Boa tarde. Anda Laura!
A janela deixou-se cair com estrilho.
Sem comentários:
Enviar um comentário