quarta-feira, 29 de junho de 2011

À chuva (David)

David estava sentado há coisa de duas horas frente ao ecrã branco do computador. O drama da folha de papel vazia havia-se actualizado e informatizado, era hoje o drama da página de word em branco.
Ao fim da primeira hora de tédio insuportável, agarrara em folhas de papel da impressora que se apressara a amachucar e a deixar cair em redor de si, apenas para criar ambiente.
Num assomo de criatividade, empertigou-se e escreveu:
"Leonor seguia altiva pela rua alheada da chuva que começava a cair copiosamente."
Aquela Leonor bailava na sua cabeça nas últimas semanas, mas não sabia como começar a sua história. Apreendeu meros apontamentos, mas faltava-lhe uma linha de água por onde os mesmos pudessem fluir como toros.
O sol vibrante que lhe entrava pela janela exasperava-o e convidava-o a saboreá-lo. David resistia com enorme dificuldade a esse convite.
Por inércia do autor, Leonor teimava em caminhar à chuva. Estaria por agora ensopada, andando em círculos vazios. Talvez tivesse perdido já toda a altivez. Desejaria mesmo sair daquela folha imaginária e descompor quem a pôs naquela situação. Leonor espirrou. David ouviu qualquer coisa em sussurro, mas não saberia descrever o quê. Cedeu ao convite do sol e foi tomar um café. Leonor aguardava à chuva.

Sem comentários:

Enviar um comentário