César levantou os estores a custo. A luminosidade do meio-dia ofuscava-lhe os olhos e a clarividência de raciocínio. Teve de violentar-se para resistir a tapar novamente a janela e arrastar-se até à casa de banho.
A água gelada caiu-lhe sobre o corpo. Deu um grito mudo. Aguentou o embate e acordou finalmente. Começou ali o seu dia.
Rememoriou tudo o que teria para fazer. Era só uma coisa, mas era na realidade muita coisa. Empacotar todos os pertences para que no dia seguinte pudessem ser mudados para uma nova casa. Mais pequena. Mais escura. Mais à sua medida, portanto. Era um homem solitário e trabalhava de noite. Não precisava de uma casa com muitas divisões nem de uma casa com muita luz. Ademais, as casas mais pequenas e lúgubres eram de renda mais barata e isso era-lhe muito conveniente agora. Especialmente agora.
Abriu o frigorífico e engoliu um pedaço de pizza com dois dias. Saciada a fome, lançou mãos ao trabalho.
As mudanças fazem-nos aperceber de que por muito pouco que tenhamos, temos sempre mais do que pensamos e duas vezes mais do que precisamos. Pensou em separar o que queria levar do que poderia simplesmente deitar fora. Desistiu da ideia, não teria tempo, podia fazê-lo mais tarde, no novo apartamento.
Livros, revistas, roupas que já não usava, utensílios vários. Grunhiu de desespero.
As caixas amontoavam-se.
Sem esperar, saltou-lhe para o colo uma moldura. Uma menina acenava, sorrindo.
Parou. Sentiu uma lágrima a querer soltar-se. Jamais!
Agarrou o casaco de cabedal e saiu porta fora.
Sem comentários:
Enviar um comentário