domingo, 12 de junho de 2011

Separação (Simão)

Simão sofria ali a primeira separação da sua vida. Não tinha ciência desse facto, mas vivenciava-o de uma forma assombrosa. Sentiu-se arrancado da bolsa protectora onde se formara nos últimos 9 meses.
O ar frio invadiu-lhe os pulmões. Era uma sensação nova e dolorosa. Chorou colocando naquele choro o mais profundo que tinha em si.
A separação consumou-se com o cortar do cordão umbilical. Definitiva e friamente, sem qualquer possibilidade de arrependimento. Os nascimentos não admitem devoluções. Quando o fruto está maduro deve ser colhido.
Seria a primeira de muitas separações que a vida lhe reservaria. Deixaria a casa dos pais para estudar, no que seria deixar novamente a placenta materna. Voltaria por breves instantes, mas para se separar definitvamente pelo casamento. Hoje já ninguém lhe chama casamento, mas é o que é, de facto.
Separar-se-ia da sua namorada ou mulher, conforme as conveninências momentâneas.
Separar-se-ia do seu país, muitas vezes e uma só.
Separar-se-ia dos seus pais um dia.
Só muito mais tarde reflectiria o quanto da nossa vida é construída com separações. Em todas elas morremos um pouco.

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