Pedro fora pai pela primeira vez. Ficara mudo. Mesmo. Mudo mesmo. Perdera a capacidade da fala quando o seu filho varão, dois segundos depois de sair do saco protector explodiu num choro ansioso e anseado.
Passou de pai choroso a raridade médica numa fracção de tempo tão pequena que só um relógio atómico de elevadíssima precisão conseguiria medir.
A todos o caso fazia lembrar a situação de Zacarias, não fora o facto de ser precisamente a inversa. Gabriel havia tornado Zacarias mudo e quedo até ao nascimento de seu filho João Baptista e a língua só se destravou no exacto momento em que após o nascimento lhe perguntaram o nome da criança.
Pedro invejava Zacarias. Que importância tinham todas as palavras que dissera até esse dia, se no dia do nascimento do seu primeiro filho não conseguia vocalizar o seu nome.
Estava em choque, diziam os médicos, que classificavam tudo o que não podiam tratar como um choque que poderia passar a qualquer momento ou nunca passar.
Pedro nunca pensara seriamente em ser pai. Era feio, muito narigudo, daqueles retorcidos. Daqueles narizes que ao invés de darem personalidade, como se diz, têm o poder de destruir uma personalidade. Pedro sobrevivera ao seu nariz.
Encontrara Vera. Invisual, mas não para as questões de carácter. Da exterior nada poderia dizer, da interior tudo sabia e nunca encontrara pessoa melhor que Pedro. Decidiu que se lhe entregaria, casariam, teriam filhos e seriam felizes.
- Que nome dão à criança? - perguntava a oficial do registo civil.
- João Pedro., disse a mãe.
A oficial olhava para Pedro. Pedro anuiu. João Pedro chorou novamente. A língua de Pedro soltou-se.
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