Isabel estava distraída, perdão, era distraída. A distracção era nela um estado de permanência, daqueles que se cravam em nós e se mimetizam para que não demos por eles, até que se acabam por alojar debaixo da nossa pele. O mais completo alheamento do mundo era uma característica imanente em Isabel.
A clarividência deste seu traço de personalidade impunha-se-lhe agora, enquanto se confrontava com a multa que estava prestes a receber.
- Livrete do carro?
...
- Aqui está.
- A senhora não se apercebeu que vinha em contra-mão?
- Verdadeiramente, não.
- Mas tem agora consciência do perigo em que se colocou e em que colocou os outros condutores?
- Sem dúvida, senhor guarda. Tenho plena consciência e arrependimento pela situação.
- Pois. O arrependimento serve-lhe de pouco agora.
O barulho do auto de multa a ser rasgado confirmou-lhe que o destino se fechara, como num círculo.
- Aqui tem. Siga as instruções no verso para proceder ao pagamento. Agora dê a volta e siga por aquele lado, por favor.
- Bom dia, senhor guarda.
- Muito bom dia, minha senhora.
Isabel entrou no carro. Fechou a porta. Esperou que o guarda se virasse e abriu o guarda-luvas. Um monte de papéis verdes caiu e teimou em cair, quando Isabel lhes aconchegou o novo amigo, o terceiro da semana.
Um novo aperto e porta-luvas fechado. Até à próxima.
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