Maria olhava a filha com admiração. Cinco réis de gente, cinco anos mal feitos, e a criar frases elaboradas que a deixavam boquiaberta.
- Não achas ridículo estares a falar sózinha, mãe?
Um riso nervoso de espanto.
- Isabel. Sabes o que quer dizer ridículo?
- É uma coisa sem sentido. Não faz sentido as pessoas falarem sózinhas, por isso é ridículo.
Novo sorriso de espanto.
- E tu, Isabel? Nunca falas sózinha.
- Eu não. Eu falo sempre com o Becas.
- Quem é o Becas?
- É o meu amigo invisível.
- Ai sim? E como sabes onde ele está, se ele é invisível?
- Ele diz-me.
- Muito bem. E onde está ele agora?
- Estou aqui ao teu lado.
Maria parou o carro abruptamente. Encostou-o atabalhoadamente à berma e saiu. Contornou o carro e tirou Isabel.
- O que foi mãe?
- Estou a precisar de beber uma água, só isso. Anda, dá-me a mão.
Desde esse dia Maria deixou de falar sózinha.
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