As lágrimas corriam a quatro e quatro pela cara de Esmeralda. Sempre teve pouco controlo sobre os seus sentimentos, emocionava-se com facilidade e nunca lhe faltaram pretextos para exteriorizar as suas emoções. Fora despedida uma vez por isso, por um "sacana insensível" como lhe chamava. Ele argumentava que Esmeralda tinha comportamentos pouco condicentes com um local de trabalho. Chorava muito. Muito mais do que permitirão os normativos laborais, pelos vistos.
A razão das suas lágrimas eram um livro. De cordel. Literatura cor de rosa. Uma história cor de rosa, porque de literatura não poderemos falar naquele caso.
Uma história comovente. De arrepiar a espinha. De fazer chorar as pedras da calçada. E se até as pedras choram, quanto mais não chorará Esmeralda que tem a bolsa dos sentimentos no saco lacrimal.
Alzira conhece Romeu no funeral do pai deste. Apaixonam-se de imediato. Olhar miúdo, corpo adulto, imaturos todavia. Intrigas congeminam contra o novel casal. Atordoantes intrigas de vizinhas pouco sérias e muito invejosas. Romeu acredita e dissolve o namoro, num segundo todo o ouro é engolido pelo mercúrio. Mas os deuses do amor cogeminam e cozinham e Alzira e Romeu acabam juntos num estrondoso final de rejubilosa alegria.
Esmeralda adoraria ter vivido um amor assim. Suspirava. E chorava.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Bi e os anjos
Bi olhava encantada as nuvens porque passava. Não conseguia encolher a sua alegria e vira-se e revirava-se na cadeira do avião, numa excitação que só a primeira vez que se anda de avião explica.
- Mãe, olha aquela. Parece um cão. Não parece?
- Parece Bi, parece. - respondia a mãe, enquanto sofria a sétima cotovelada da viagem.
Os passageiros no banco de trás suspiravam de impaciência e de incerteza sobre quanto tempo mais toda aquela excitação iria durar.
- Bi, podes sossegar um pouco? Pára só um pouco querida. A mãe quer descansar um bocadinho.
- Como se fazem as nuvens, mãe?
- Ah.! Não sei. Espera, acho que a condensação cria os flocos...
- A condensa-quê?
- A condensação é a ... Esquece. Tens 4 anos, ainda és muito nova para estas explicações.
- E quem faz as formas das nuvens? Quem desenha os cães?
- É o vento, querida.
- Mãe, mãe. Tá ali um menino a fazer nuvens.
- Bi, não há meninos no céu. Caíam lá em baixo.
- Tá. Tá ali. Fez um carro.
- Sim, querida. Fez um carro.
- Está a dizer-me adeus. Ahhhh...
- Bi! Que foi agora?...
Rute fez um esgar de incredulidade e a sua boca pendeu para o chão durante um bom bocado.
- Bi, aquilo que passou pela janela...
- Ele tinha mesmo asas? Os anjos têm asas, não têm mãe? Têm, não têm?
- Mãe, olha aquela. Parece um cão. Não parece?
- Parece Bi, parece. - respondia a mãe, enquanto sofria a sétima cotovelada da viagem.
Os passageiros no banco de trás suspiravam de impaciência e de incerteza sobre quanto tempo mais toda aquela excitação iria durar.
- Bi, podes sossegar um pouco? Pára só um pouco querida. A mãe quer descansar um bocadinho.
- Como se fazem as nuvens, mãe?
- Ah.! Não sei. Espera, acho que a condensação cria os flocos...
- A condensa-quê?
- A condensação é a ... Esquece. Tens 4 anos, ainda és muito nova para estas explicações.
- E quem faz as formas das nuvens? Quem desenha os cães?
- É o vento, querida.
- Mãe, mãe. Tá ali um menino a fazer nuvens.
- Bi, não há meninos no céu. Caíam lá em baixo.
- Tá. Tá ali. Fez um carro.
- Sim, querida. Fez um carro.
- Está a dizer-me adeus. Ahhhh...
- Bi! Que foi agora?...
Rute fez um esgar de incredulidade e a sua boca pendeu para o chão durante um bom bocado.
- Bi, aquilo que passou pela janela...
- Ele tinha mesmo asas? Os anjos têm asas, não têm mãe? Têm, não têm?
Subscrever:
Mensagens (Atom)