sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A sorte (Marlene)

Desajeitadamente Marlene deixou-se encurralar pela cigana que apregoava a leitura da sina a quem passava.
- A menina não quer saber a sua sorte? A cigana conta-lhe tudo.
- Ah, agora não posso. Estou atrasada. - Tentou esquivar-se.
- Não demora nada, menina. Leio-lhe a sorte e vai ver que chega muito a tempo.
Pegava-lhe já na mão, sem que Marlene sentisse ânimo para a demover.
- A cigana vê que a menina é muito inteligente. Tem boas notas e é muito empenhada. Vai ter um bom emprego no futuro. Um não! Dois! Vai ser bem sucedida e ganhar muito bem.
- Obrigado. Olhe...
A cigana não a deixou continuar enquanto lhe apertava mais a mão e a puxava para si.
- A cigana vê a menina num país longe daqui. Frio, branco. A menina tem também uma bata branca. Vai ser médica ou trabalhar num laboratório.
Marlene prestou finalmente atenção. Podia estar só a adivinhar, mas acertara na mouche. Deixou de retesar a mão e olhou-a interessada.
- E que mais?
A cigana percebeu que tinha agarrado a cliente.
- Vai ter muita sorte no amor. Vejo um homem bonito, alto, moreno, a falar estrangeiro.
- Filhos.
A cigana mirava, olhava, fixava, demorava, amiudava, mas não falava.
- E filhos?, insisistiu Marlene.
- Não vejo não, minha menina.
Marlene percebeu que a felicidade é só um momento fugaz.