quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A espera (Ernestina)

Ernestina experimentava roupas há horas. Uma fila impaciente formara-se na acatitada loja em pleno bulício dos saldos. Do outro provador entravam e saiam pessoas, grunhindo ansiosas pela espera e suspirando aliviadas pelo encontro com a sua vez.
Idalécio suportava todos aqueles olhares fulminantes com uma secura interior agastante. De cada vez que alguém bufava encolhia-se mais no seu já diminuto e esconso canto junto ao provador. O amarelo das paredes enervava-o ainda mais.
- E agora? - questionava a estridente Ernestina exibindo uma blusa amarelo canário que lhe realçava a feiura da cara e acentuava a desmesurada penca.
- Fica-te bem.
- Não olhaste.
- Desculpa?
- Olha bem para mim. Disseste que fica bem, mas não olhaste. Olha para mim.
- Pensando bem, não te assenta tão bem. Fica-te um pouco largo., dizia Idalécio enquanto levava novo encontrão de uma compradora fusiosa.
A cortina fecha-se e passado uns minutos dela sai Ernestina com uma rodilha de roupa que pousa displicentemente sobre o balcão.
- Não vou levar. O meu namorado não gosta.
Idalécio fica incrédulo e dirige-se para a porta arrastado por Ernestina. Estatela-se no chão. Nunca saberá qual das furiosas mulheres o rasteirou.