segunda-feira, 1 de junho de 2015

Ediberto

Lucinda entrou na penumbra do quarto e espalhou um decidido "Bom dia" que ecoou pelo ar pesado e escuro. O estore da janela enrolou-se pesada e sonoramente, guinchando, e a luz ocupou todo o espaço.
- Está uma manhã sorridente. Como estás hoje meu querido?
A pergunta não sendo retórica, não se destinava também a ser respondida.
Ediberto estava naquela cama há uma quantidade de tempo indefinida, mas o tempo tornara-se um mero acessório na sua vida. Respirava, mas não mexia. Inspirava, mas não sorria. Olhava, mas nada dizia. Mas também não sofria.
Lucinda sentou-se na beira da cama e fez-lhe uma festa na cara.
- Hoje é dia de fazer a barba, tio Ediberto. Vamos pô-lo bonito. Vai ficar a reluzir.
Ediberto não mexia qualquer parte do seu corpo, mas sentia que por vezes mexia os olhos, o que lhe permitia olhar de soslaio o quarto. Para quem nada mexe, ver mais que o branco do tecto que se prolongava por horas a fio era um momento de êxtase, ainda que por momentos muitissimo fugazes.
Viravam-no por vezes, ora para um lado, ora para o outro. Havia momentos fugazes em que a elevação da cama lhe permitia ver pela janela e sentia que nesse momento o coração lhe fugia. Assim como os seus olhos, que por vezes mexiam.
- Vou buscar as coisas para o escanhoar e já volto. Vou pedir ao Manel que o vire um pouco, sempre descansa as costas.
Ediberto não falava nem sorria, mas os olhos brilharam mais e o coração pulava.

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