terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O outono

Uma mão na cabeça e a outra sobre o colo, amarfanhando a saia preta.
... um suspiro... e outro ainda...
- Não sei porque o fez.
- Achava que deveria saber?
- Sou sua irmã. Parecer-me-ia natural que me contasse alguma coisa, que desabafasse comigo.
- Conversavam muito?
- (...) a nossa vida afasta-nos das pessoas de quem gostamos. Vivíamos relativamente perto, mas trabalho até tarde, tenho os miúdos sempre que não estão com o pai, o que é quase sempre... não sei que lhe diga...
(...)
- As vossas visitas eram alegres?
- Sempre foi divertida. Achei-a mais calada da última vez que passeámos, mas também estava adoentada, não valorizei.
- O que fizeram?
- Passeámos no parque, creio. Sim, foi isso. Foi no início do outono, quando as folhas começaram a cair. É talvez a minha estação preferida.
- Um pouco triste, não?
- Não!, de todo! É uma época de reflexão e de renovação. Não deixa de ser misterioso que as folhas das árvores fiquem no pico da sua beleza exterior quando estão exatamente num processo de decadência e morte. Na primavera estão verdes, viçosas, mas são profundamente aborrecidas. Vivem verdadeiramente no outono, como se estivessem a coser o fato com o qual quisessem morrer. Caem num sono de morte com os seus melhores fatos.

As lágrimas caiam-lhe agora pela face que ia enxugando com a ponta da camisola.

- Foi o que a minha irmã fez, sabe?
- Como assim?
- Vestiu o seu melhor fato, o mais exuberante, para se deixar cair.

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