Catarina carregava o fardo, enquanto primogénita, de se ter de entregar a Deus. Chamavam-lhe na vila a "maldição dos Resende". O primeiro filho ou filha do Conde de Resende, com linhagem e brasão desde 1548, teria de se dedicar à vida religiosa, consagrando-se a Cristo. Fora esta a condição imposta pela igreja à transferência de terras para João Espada de Resende, terceiro conde da vila cujo nome se confunde com o da família. O incumprimento, todos os membros da família o sabiam, implicava a reversão do couto à esfera patrimonial da igreja.
Catarina atingira os 16 anos e deveria ser consagrada em definitivo a Deus. Não estava, porém, pelos ajustes. Suportava com uma resiliência calada e seca os dez anos que levava de colégio de freiras, em regime semi-aberto em que saía uma vez por semana para ver os pais.
Pedira já por múltiplas vezes aos seus pais que a deixassem sair daquele colégio horrível em que a rotina de vida escolástica e cristã a sufocava para além do suportável. Seu pai repreendia-a gravemente, lembrando que a manutenção do estatuto e, pior, a subsistência da família dependia desse esforço que recaía sobre a primogenitura.
Catarina desistira da argumentação com a família, mantendo com os pais uma última conversa na qual lhes recordava que tudo aquilo era ridículo quando se estava quase no século XX. Desistira também de se deixar entregar às lágrimas.
Urdira um plano. Simples, fácil e directo. No dia da última saída pegou na mala e desapareceu no mundo.
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