quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Demasiadas (Vítor)

A noite afigurava-se ébria e fugia serpenteando. Vítor combatera já muitas batalhas nessa noite e o cansaço galgava terreno, tomando forma no seu rosto encovado.
- Uma sandes?
Vítor olhou a sandes de soslaio.
- Obrigado. Não quero comer nada agora.
- Já estou cansada.
Vítor achava toda aquela conversa aborrecida e a despropósito. A acatitada sala de descanso dos enfermeiros era um poço de aborrecimento, um vómito. As conversas ocas, as caras vazias, as cumplicidades falseadas, as amizades inertes. Tudo rodeado de paredes num odioso tom pastel. Regurgitava tudo aquilo.
- Quantas horas te faltam?
Vítor levantou a custo os olhos para o relógio na parede. Olhou-a com desprezo e respondeu:
- Demasiadas.

Sem comentários:

Enviar um comentário