Jacinta conhecia aquelas pedras desde sempre. Fora seu pai que construíra a casa da família. Simples, pequena, modesta, mas um hino ao esforço e à perseverança familiar. Tinha amor àquela casa como tinha aos seus pais. Tudo se passara ali. Ali nasceram seus dois irmãos. Ali cresceram todos. Ali casaram todos. E dali todos partiram, à excepção de si própria, que não conseguiu deixar tudo aquilo. Ficou e foi amparo dos pais na velhice, como eles haviam sido seu amparo na meninice.
Não é que não tenha tido oportunidade, teve-a, mas todas as que teve, sem excepção, a conduziam para longe de tudo aquilo. Da terra, da família, do cheio da Beira, das casas simples e das coisas humildes. Não conseguia sequer suportar a ideia.
Os seus pais nunca lhe haviam pedido nada. Pelo contrário. Incentivaram-na a partir e à pergunta do que seria deles sem filhos por perto, respondiam sempre que as andorinhas não guardam os filhos nos ninhos para que lhes façam companhia. Ensinam-nos a voar e quais as rotas para as terras quentes. Incentivam-nos.
Nunca quis.
Nunca se arrependeu.
Nunca deixou de sorrir.
Encarava a vida com um abnegado optimismo que a consagrou como a Alegre Jacinta. Adorava o epíteto e estava incomensuravelmente grata a quem lho atribui. Já ninguém sabia quem fora. E quem fora nunca colheu os louros da alegria que proporcionou a Jacinta.
Ia partir agora para sempre. Fisicamente já tinha partido. Seu corpo estava agora no cemitério para enterrar. Exéquias simples como fora a sua vida.
Sentira o apelo dos anjos a chamarem-lhe a alma e predispôs-se a partir, mas tinha um último desejo. Não podia ir sem se despedir da sua casa. Assentiram nisso os seres celestes. Jacinta manifestou gratidão e foi despedir-se das pedras.
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