terça-feira, 17 de maio de 2011

A idade das coisas (Juvelina)

Juvelina havia perdido já a idade das coisas. Velhas lhe pareciam, velhas seriam certamente, mas não sabia ao certo quanto. Também que importância tinha. O que releva é o que ainda fazem, não o quanto já andaram, pensava ela.
Juvelina já andara muito e já fazia pouco. Menos do que queria, dizia a todos. Mais do que devia, ralhava-lhe o filho médico.
Se não faço, toldam-se-me os movimentos e aí, olha, e aí é que me podes encomendar a alma. Pede por mim a Santo Expedito.
Mãe, que tolice.
Mário sabia que as tonterias das velhas eram premonições perenes. Replicava por replicar, por ser sempre certo contrariarem os filhos as certezas dos pais, por mais certas e razoáveis que sejam.
Juvelina caminhava para os 76 e preparava a maior mudança da sua vida. Rendera-se à evidência de que a juventude se perdera quando caíra em casa faz dois meses e a perna quebrada não a deixara levantar-se. As dores dilacerantes, tornaram-se macilentas e acabaram por a adormecer num torpor do qual só despertara no dia seguinte. O hospital nada tinha de acolhedor, mas valera-lhe uma vizinha que estranhou não a ver pelo poente no terço. Não fora isso e a sua vida agora não mudaria, acabaria-se.
Empacotava agora a vida numa mala de mão, pequena porque as necessidades dos velhos vão-se reduzindo à medida que lhes cresce a idade. Também, que caramba, de que necessitaria para o local para onde ia? Umas poucas peças de roupa preta, que lhe condiziam com a idade, a viuvez e o estado de espírito e uma mão cheia de vontade de estar.
Acercou-se da porta do quarto onde o filho a esperava com uns olhos que não escondiam o desassossego. Mário agarrou-lhe a mala e amparou-lhe o braço. Achou-o trémulo, hesitante. Vamos, mãe! - incentivando-a. Vamos, anuiu ela sem que tivesse necessidade de o dizer.
Cruzaram a porta, sem certezas e sem encantos, mas com a inevitabilidade de que o amanhã seria mais difícil que o ontem.
Fechou-se o ferrolho com estrondo e partiram.

Doi-me deixar a casa vazia, disse Mário.
Quem te disse que está vazia? perguntou Juvelina. As recordações enchem os espaços e vivem as casas quando não estamos lá. Aposto que fazem agora uma reunião e vivem-se e revivem-se novamente.
Mário não a compreendia. Mas as recordações que bailavam agora na casa, entenderam aquele sinal de soltura.

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