Eduardo pegou no carrinho de rolamentos, enrolou a corda em volta da mão, e recomeçou a caminhada ladeira acima.
O corpo moído implorava-lhe que parasse, nem que fosse por breves instantes, por alguns secos minutos em que não fosse chocalhado, enrodilhado, estatelado, rebolado e qualquer outro enxovalho verbal terminado em ado. Mas impaciência do cérebro de Eduardo pela imperfeição impunha-se, teimosamente, a todos os pedidos de auxílio que os seus braços, tronco e pernas faziam.
Tenho de fazer a curva mais larga. Tenho de fazer um semi-círculo mais perfeito. Tenho de travar um pouco antes e largar ao meio da curva.
Na sua cabeça tudo girava em torno daquela curva. Assassina. Em onze tentativas, estatelara-se aí por cinco vezes. Todas com estrondo. Todas dolorosas, para o corpo e para a alma. Todas lhe aumentavam a tenacidade.
Olhava a descida com absoluta determinação. Mentalmente reproduziu todos os passos daquela viagem vertiginosa a quase 20 km/hora.
Descida com impulso ligeiro para não perder o controlo logo no início, desvio para a direita por causa do buraco, desvio à esquerda para evitar o asfalto levantado, cheiro de travão para a trajectória perfeita naquela curva à esquerda. Oito segundos de pura adrenalina. Não se lembrava sequer de respirar durante a descida.
Num ímpeto, lançou-se, o buraco apareceu-lhe muito em cima, desvio à direita e logo à esquerda, eis a curva, travão, foi demais, oscilação das rodas traseiras, curva fora da rota, guinada no guiador, o corpo para a direita, o carro levanta as rodas do lado esquerdo, mando o corpo para a esquerda, a curva desaparece atrás de si e corta a meta imaginária em extâse.
Zé, quanto tempo?
Âh??
Quanto tempo?
Desculpa! Distraí-me.
Eduardo sobe a ladeira resmungando contra o retardado do primo. O corpo moído pede-lhe que pare.
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