sexta-feira, 20 de maio de 2011

A tarde (Leonardo)

Leonardo sentou-se no banco corrido destinado ao público no tribunal. O desconforto do banco já lhe era familiar e já nem o seu corpo reclamava qualquer encosto mais amigável.
Conhecia de cor a mecânica da audiência e interpretava o papel que, prazenteiramente, a si mesmo se impunha havia já alguns anos. Entra a juiz e ergue-se respeitosamente o corpo em sinal de adoração da deusa romana Iustitia. Senta-se a juiz e o corpo pode finalmente retomar relaxadamente o seu lugar.
Fascinava-o todo o ritual, meticulosamente encenado, que a justiça se impunha e com a qual se pretendia assegurar a sua credibilidade e superioridade sobre a sociedade. Tudo era uma peça de teatro que se desenrolava nas alturas, no Olimpo.
Entrou a primeira testemunha. Leonardo admirava a toga dos advogados. Aprumada estava, quando ainda há pouco havia sido tirada enrodilhada de uma pasta de couro gasto.
E aos costumes a testemunha disse que... O escrivão ia compilando as notas que lhe iam sendo ditadas pela juiz. Uma capa negra e desinteressante cobria-lhe os ombros. Nada que tivesse a dignidade da toga ou da beca. Não havia, aliás, um qualquer assomo de dignidade naquela vestimenta ridícula que impõem aos descontentes funcionários. Não é já castigo suficiente serem forçados a horas de inquirições de testemunhas sem que tenham qualquer interesse na causa?, pensou Leonardo. Parecem super-heróis pobres. Daqueles sem os quais o mundo não passa, mas que não têm direito sequer a uma fardeta condigna.
O testemunho foi desinteressante. A testemunha declarou nada saber. A outra testemunha faltou. Audiência suspensa.
Leonardo arrastou-se até ao piso superior.
Que sorte!, pensou. Um divórcio litigioso. A tarde não será afinal em vão.

Sem comentários:

Enviar um comentário