Carla estava farta daquela relação que a sufocava. Tudo aquilo a enojava a um ponto que não julgara ser possível. Um cheiro a bafio incomodava-a de cada vez que tentava iniciar uma conversa com João e, invariavelmente, terminava com desmandos que mudos seriam não fosse o facto de serem gritados bem alto.
Acordou com vontade de por fim a tudo aquilo.
Não suportava mais a indefinição que impunha a si própria e começava a detestar a incapaz que albergava dentro de si.
Quem me prende?, perguntava muitas vezes a si mesma. Não! O que me prende?
Nada a prendia a não ser a inércia que o conforto vai construindo em nós até que se torne num peso demasiado grande para que o consigamos mover.
Saiu de casa e aguardou a saída de João. Retornou a casa e já tudo lhe parecia distante, como se nunca ali houvera vivido, como se aquelas paredes nunca tivessem agarrado impressões suas, fragmentos da sua vida conjugal.
Atalhou a primeira mala que alcançou. Era a mais pequena. Que se lixe!, pensou. Quem é que quer construir uma vida nova com roupas velhas?
Emparedou as quatro mudas de roupa na mala e fechou-as antes que pudessem saltar cá para fora, antes que a tentassem convencer que o seu lugar era num guarda-roupa requintado, que também tinham amigas e que injusto e traumático era para elas aquela partida.
Não quis levar mais nada que lhe lembrasse a vida medíocre que levou aqueles três insuportáveis anos.
Agarrou num papel e atabalhoadamente escreveu: não me encontrarás mais nesta casa. E partiu
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