quarta-feira, 18 de maio de 2011

Segundos de felicidade (João)

João ganhara uma bicicleta pelos anos. Lembrava-se com incontida alegria daquele dia. O padrinho e o pai haviam-no ido buscar à escola.
Que bom ver-te! Porque me viste buscar? Não é costume... - disse ao padrinho.
É dia dos teus anos! Quis fazer-te uma surpresa. Estás estupendo. Um rapagão.
E abraçou-o, querendo compensar todos os dias que não esteve com ele.
João completava 10 anos. Estava corpulento, o corpo a querer dar o salto, crescer. A voz ainda de criança denunciava-o, porém. Por vezes as atitudes também.
Vais comigo até lá a casa?, perguntou ao padrinho.
Claro que vou. Jantamos todos.
Que fixe!
E largou a correr...

João remexia-se na cadeira com uma irrequietude que não deixava ninguém indiferente.
João, pára quieto!, ralhou-lhe a mãe. Estamos à mesa.
Estou ansioso, mãe.
Então controla a ansiedade e come. Já te damos as prendas no final do jantar.
É sabido que o final de qualquer coisa que nos separa da felicidade, ainda que temporária, é um túnel espaço-temporal que parece não ter fim.

Finalmente, cantados os parabéns a preceito, as ansiadas prendas.
Um boneco articulado, cheio de músculos impossíveis de ter e com missões terríveis e sangrentas a desempenhar. Um pulover verde garrafa feito em lã pela avó, que começara dois meses antes e que escondia a malha de cada vez que o João a visitava, evitando que o João descobrisse o que há muito já sabia. Umas cartas de jogar dadas pelo pai, com a promessa de partilhar com ele muitos jogos.
E tu, padrinho?
Eu quê?
Tens um presente para mim?
O padrinho sorriu, saiu da sala e chamou-o. João levantou-se e com ele toda a família.
Um laçarote azul em cima de uma bicicleta vermelha.
Um abraço incontido, um beijo aguardado e uns segundos de felicidade que acompanharão João até à velhice.

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