terça-feira, 24 de maio de 2011

A vingança (Ricardo)

Ricardo saltava a cancela com a desfaçatez e a destreza habitual. Acostumara-se a meter por ali para ir ao rio nos dias quentes de verão, quando as altas temperaturas aconselham sombra ou água fresca para que o cérebro não derreta.
Atravessar a propriedade do Silva "careca" não era operação isenta de riscos. Aprendara-o da maneira mais difícil, quando o dono por ali andava aos estorninhos, de pressão de ar em punho e perdigueiro ao largo. À palavra de ordem do dono, o animal pusera-se a correr como um desalmado e Ricardo largou como um foguete em direcção ao rio e só parou do outro lado da corrente, quando tinha já o sabujo dentro de água e o Silva "careca" o chamou. "Que não voltes a atravessar propriedade privada, miúdo. Vou estar à tua espera no regresso!". Que remédio teve se não subir o rio junto à margem, polvilhada de fetos, para voltar para casa mais tarde. A viagem demorou-lhe mais uma hora e muitas dores musculares, mas sempre era melhor que levar o rabo carregado de chumbo ou com os dentes do sabujo marcados.
Desde então passara a ter mais cuidado. Perdia algum tempo a amiudar se o dono por ali andaria ou não e só então arriscava meter por ali fora.
Naquele dia, tudo calmo, sem que se visse pele malvada a rondar.
Que delícia estava a água corrente que lhe afagava o peito. Fresca e retemperadora. De súbito, sentiu uma respiração por trás de si. Virou-se rapidamente e o perdigueiro sorria-lhe, arreganhando os dentes. Mergulho de imediato, sem se livrar, porém, de uma mordidela nos calçoes de banho, que acabaram por ficar na boca do sorridente animal.
Que sorte, pensou, ao menos estou inteiro. E virou-se ainda a a tempo de ver que o Silva "careca" lhe levava a demais roupa e lhe acenava vitorioso.
Pensando no regresso só lhe ocorria que seria a sensação e o falatório da terra durante muitas semanas. "Que se lixe!" E mergulhou novamente.

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