terça-feira, 30 de outubro de 2012

Tens a certeza de que não me queres?

Tens a certeza de que não me queres?
A perguntou bailou na cabeça de César durante dias. Deitava-se com ela e quando acordava ainda ela lá estava, bem no fundo do seu cérebro num lugar escuro e recôndito onde uma mão imaginária não poderia alcançar.
Félix, o gato, estugou as orelhas com o estridente barulho do despertador vermelho. César mirou Cláudia ternamente, achou-a bonita, e arrastou-se até ao quarto de banho. O gato aninhou-se novamente. A água ainda morna caia-lhe com indolência sobre a cabeça mas cada gota que o alcançava repetia dolorosamente uma palavra da frase "Tens a certeza de que não me queres?"
Não tinha a certeza, que diabo. Como raio poderia ter certeza? Que certezas se têm aos 41 anos quando uma miúda de 26 nos diz "Tens a certeza de que não me queres?"
Ensaboou-se mais lentamente que o normal. Sabia-lhe bem aquela água que o envolvia como se mil mãos lhe afagassem cada poro da sua pele. Num piscar de olhos Ana colara-se-lhe ao corpo, não era mais água que lhe escorria, mas volúpia sob a forma de mulher. Um encanto alvo, duas lagoas verdes, profundas, um sorriso menino, dois botões rosados, um ventre ofegante. César beijou-a decidido, suas mãos tacteavam nervosas as costas de Ana, as pernas entrelaçaram-se longamente.
Ana mordia-lhe a orelha e sussurrava "Tens a certeza de que não me queres".
- Hum... Ainda demoras muito?
César despertou bruscamente.
- Não. Não, desculpa, saio já.
Não tinha certeza de absolutamente nada.

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