quinta-feira, 26 de abril de 2012

Nos teus braços (Ricardina)

Ricardina aninhou-se no peito de João. Sentiu os seus cabelos do peito e chegou-se mais. Adorava aquele calor húmido que lhe aconchegava a cara. Esfregou-se nele e depois novamente. Encontrou porto de abrigo e deixou-se estar. Não se lembrava como tinha chegado ali. Claro que se lembrava como se conheceram naquela tarde de chuva miudinha intermitente, numa sessão de fotografia citadina. O blusão de cabedal dele chamou-lhe a atenção e só depois lhe fixou os olhos. Mergulhou no azul profundo dos olhos dele e naquele dia todas as suas fotos ficaram com os edifícios em segundo plano. Fez de tudo para chamar a atenção e João acabou por lha entregar de um trago só. Perdera-se pelos seus cabelos negros, reluzentes. Desde então, nunca mais se separaram. Ricardina tentou imaginar o que seria a vida se congelasse aquele momento para sempre. A eternidade aconchegada no peito de um homem, imóvel, para sempre, sem outras necessidades, quaisquer que fossem. Um sorriso inundou-lhe a face. Viveria uma vida sem subterfúgios, sem sofrimentos ou, sequer, sem outros prazeres que não fosse o calor de um peito masculino. Mediria o tempo pelo bater do coração de João. Esta deveria ser, aliás, a unidade de tempo universal. Menos exacta que um relógio atómico, mas com vida. Um relógio que exalava vida, que irradiava calor, que supria todas as necessidades mundanas de Ricardina. Aninhou-se ainda um pouco mais e caiu nos braços de Morfeu.

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