Uma gralha grasnava na árvore em frente à janela da cozinha e arrancou um sorriso a Rute. Gostava destes animais, achava-os graciosos, bem-dispostos e, ao contrário do comum dos mortais que lhes lamentava o agoiro, as gralhas traziam-lhe fortuna. Sabia que aquele seria um dia de concretizações inesperadas.
Admirou-lhe as penas negras e luzidias. O sol reflectia-se nelas de uma forma exuberante, encadeava.
A gralha percebeu-lhe a admiração e olhou-a com inusitado interesse. Falou-lhe.
Rute deixou cair o prato que se despedaçou em dezenas de pequenos pedaços amarelos. Oscilou entre a fuga desvairada e a dúvida insanável sobre a sua sanidade ou insanidade.
Novo grasnar da gralha ecoou no ar e na cabeça de Rute um claro e sonoro "olá".
Rute fez um esgar de incredulidade e aproximou-se da janela. Sentiu o vento na cara, desejando que isso a acordasse de tudo aquilo.
- Olá! - disse Rute bem alto, desejando apenas ouvir-se a si própria.
- Olá! - retorquiu a gralha.
O balcão da cozinha serviu de apoio quando Rute sentiu as forças a faltarem-lhe nos braços.
- Como te chamas?
- Não me conheço nome, senão aqueles que os outros me dão.
Rute alcançou a custo o banco atrás de si. Sentou-se. Abanou as trémulas mãos defronte da cara para desanuviar o afogueamento que sentiu.
- E... E que nomes te dão?
- Muitos na verdade. É difícil decorá-los a todos. O mais comum é Aziaga.
- Porque vieste falar-me?
A gralha grasnou como quem ri.
- Vim agradecer-te. Enquanto todos me dão nomes feios e agoirentos, tu chamas-me Fortuna. Obrigado.
A surpresa irradiava de Rute.
- Obrigado, Fortuna, por me visitares.
- Obrigado eu, porque me amaste dando-me um nome e amando-me deste-me o dom do entendimento e da fala.
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