Anselmo recostou-se, desalentado, derrotado. Não sentia sequer forças para se revoltar com tudo aquilo. Um suor frio desceu-lhe pelo corpo inerte. Remexeu-se. A carta de Leonor caiu-lhe das mãos. Aninhou-se e caiu a primeira lágrima. Depois outra. E outra ainda.
Não dera verdadeiramente pelo tempo passar. Varou a noite de um salto só, sem que os olhos se fechassem verdadeiramente. A claridade, pouco clarividente ainda, de uma gélida manhã de Janeiro, começava a querer anunciar-se.
Necessitou de um impulso do espírito para rodar os pés para o chão. Passos pequenos, hesitantes, incertos, pouco firmes. O caminho para a cozinha pareceu-lhe dolorosamente comprido. Tentou-se a parar, duas vezes, mas uma ténue, mas suficiente, resolução fez-se notar.
Tinha agora mais frio.
As ideias começaram a rodopiar-lhe na cabeça. Primeiro devagar, depois mais depressa, depois vertiginosa e perigosamente depressa. Sentiu-se no poço da morte. Experimentou uma certa adrenalina nessa vertigem negra que lhe afunilava o pensamento. Não sentiu que tivesse aberto a gaveta. Picou-se no bico da faca. Rodopiou-a, mirou-se no reflexo espelhado. Do outro lado estava já um ser sem alma. Cravou o seu destino.
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